quarta-feira, dezembro 30, 2020

2021 - ESPERANÇA




Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

Mário Quintana in, “Nova Antologia Poética”, a págs. 118




quarta-feira, dezembro 23, 2020

Prelúdio de Natal





Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas

Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas

a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas

A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas

E a multidão passava
E a chuva era tão fina
que parecia filtrada
de taças clandestinas

Finalmente chegava
Triunfal em surdina
a noite convocada
em todas as esquinas

Mas não se derramava
como tinta-da-china
Na cidade acordada
já se ouviam matinas

Poema de David Mourão-Ferreira
in, "Obra Poética 1948-1988", págs. 224/225

sexta-feira, dezembro 11, 2020

PORQUE É NATAL

É Natal

diz-me o coração.


E nestes dias de frio

Natal é aconchego

amor, fraternidade

solidariedade.


Até quando é Natal?


Nos meus olhos

interrogam-se dúvidas.

O coração vibrante de quente

esquece por momentos

fomes dolorosas

batalhas perdidas

amigos ausentes

palavras amargas

crianças feridas.


Por momentos tudo é perfeito.

As luzes brilham numa música suave.


Ao longe, faz-se ouvir o cristalino riso

de uma criança que desconhece o fel da vida.


Riso que entoa,

e cruzando o frio de neve,

derrete-a.


Por momentos, só por momentos,

o olhar do Menino Jesus sorri,

deitado nas palhinhas olhando a Virgem Mãe,

que, ternamente, de joelhos proclama

o seu Nascimento.


É Natal!


Presépio pessoal


A todos desejo um Natal muito Feliz no aconchego dos afectos que possuem.


Até ao próximo.






sábado, outubro 31, 2020

Monólogo em dias de Confinamento...



Quando resolvi, há mais de vinte anos, pegar nos meus “tarecos”, nos filhos, no gato Farrusco e trocar a cidade onde vivia, pela freguesia onde moro muito perto do mar, não poderia adivinhar o que o futuro traria.

Ouvir os sons da natureza, que numa cidade nos está vedado, desde o cantar do galo, manhã cedo, ao chilrear do conjunto da passarada que prolifera, diariamente, pelos céus, junta-se a paisagem, por vezes estonteante, que o nosso olhar alcança. E o sossego, só quebrado pelos sons da natureza ou de alguma buzinadela de condutor mal-disposto, era inspirador.

Era um sonho há muito pensado:sair da poluição e do barulho, constante, e viver numa zona rural mas perto do mar.

Confesso que um volte-face inesperado da vida colocou em causa tudo aquilo por que tinha lutado.
E um esgotamento mental tomou posse de mim. O sossego era ensurdecedor. A rua do "lá vai um” de que eu tanto gostava passou a ser intolerável.

Até o cantar dos pássaros de que tanto gostava (e continuo a gostar) me incomodava.

Precisava de ver gente, de a sentir, do pulsar do dia a dia. Mas também não saía de casa. Nao conseguia!
Tirando as caminhadas, que sempre gostei de fazer, ou fazer compras, o caminho era sempre directo para casa.

Cheguei ao ponto de a querer vender e ir para um local mais movimentado.

Ultrapassei essa fase. Nao vendi a casa. E, hoje, dou graças a Deus por isso.
Continuo a fazer as minhas caminhadas.
Feliz.

As ruas por onde passo estão desertas. Assim…“lá vai um”…
E, para mim, nesta fase tão delicada de contágios, viver aqui, é realmente uma benção.
Os dias passados dentro de casa, sozinha com o canário Pipoca, enquanto o filho vai trabalhar, não me custam.

E continuo a encantar-me com os sons da natureza. A ouvir música. A ler. A escrever, quando estou para aí virada.
E quando saio de casa, entro no elevador de máscara, até chegar à rua.
Depois tiro-a.

Volto a colocá-la antes de entrar no café da D. Gininha.
Dois dedos de conversa, do dia a dia. Sempre à baila, a pandemia..
Que haja respeito e responsabilidade entre todos, diz a simpática dona do café.

Está na hora de voltar a casa...
 




Fotografias pessoais tiradas ontem pelo meu filhote

 

terça-feira, outubro 13, 2020

Lugar repleto de silencio



XLV. mais seguras

Este é o instante que não se mede pelo instante seguinte. Isto é o tempo.
         Alguém estive em frente das folhas, tocando-as, e não se mostrou.
         Eu senti-me ligada à sua ansiedade, e pus a mão num ramo mais alto, 
que se verga ligeiramente ___________ entra, ou vai-se embora?             As 
duas direcções são possíveis, e separavam o meu espaço e o seu_________
que faço? Fico quieta? Grito-lhe que apareça?

          Se for um desconhecido, que me conhece mas que eu nunca vi, talvez
seja melhor suspender o meu gesto, pois o tempo de conhecer-mo-nos, 
inesperadamente,
não deve ainda começar.
           Tenho vontade de eu própria escrever-lhe umas linhas, e deixá-las ficar,
ao abandono, num lugar repleto de sossego como é a copa da grande árvore.


Maria Gabriela Llansol
in Amigo e Amiga_curso de silencio de 2004
a págs. 62  Assírio & Alvim
   

 

quarta-feira, julho 29, 2020

Dança



A caixinha de música continuava a tocar. Enlevada a ouvi-la nem me mexia. Sabia de cor aquela música, de tanto a ouvir...
Acordei.


Pintura de Degas


Dança
Contavam-me quando era menina
que, em noites de lua cheia, havia mulheres nuas
junto às fontes dançando ao ritmo da vertigem
das suas ancas, até de madrugada.
Calavam-se os pássaros e o vento.
Convocavam-se lobisomens e cães negros.
E dizia-se que eram bruxas.
Nunca as vi. Mas sonhei ser uma delas muitas vezes.
Graça Pires
in, Caderno de significados, a págs 11

quarta-feira, julho 01, 2020

segunda-feira, junho 15, 2020

Be



Desligar a música do blogue, ao fundo da página, para ouvir o vídeo, p. f.
Obrigada!



sexta-feira, maio 01, 2020

Graça Pires - O seu novo livro


É HOJE no Facebook da Poética Edições - Virgínia Do Carmo

Graça Pires (Figueira da Foz, 1946) editou o seu primeiro livro em 1990, depois de ter recebido o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro "Poemas". Depois disso publicou mais de uma dúzia de livros de poesia, muitos dos quais premiados. É licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Nesta obra poética, a 19ª de Graça Pires, que este ano assinala 30 anos de caminho literário, a poeta percorre breves histórias, histórias que conta inevitavelmente recorrendo ao seu jeito poético único, profundo e sempre belo, como memórias que atravessam a sua própria biografia íntima. Este livro segue a linha poética a que Graça Pires nos vem habituando, e que é marcada por um rigor e uma depuração exímia, fruto de uma vida dedicada à palavra.

Poderão encontam o livro aqui 



Secaram as roseiras bravas

cultivadas no atalho da paisagem.
Uma mulher canta roucamente
e o seu canto é um brado
em desavença com a mudez
enraizada na garganta.
Vagarosamente, enrodilha na anca
as vestes de pano cerzido
e afaga seu corpo com as mãos ásperas
como as roseiras bravas.
Tão precário, o perfume das rosas!

sábado, abril 25, 2020

AMOR


Vestiram os olhos com as cores da Primavera e sorriram.
Salpicaram os lábios de sol e soltaram palavras doces.
As festas mais importantes fazem-se do lado de dentro da pele. Tal e qual como as viagens.

de,  Isabel Pires

quarta-feira, abril 08, 2020

Amor e Outros Crimes em Vias de Perdão

Henri Matisse

1. 

tu nunca hás-de entender o tamanho das noites 
em que gastei tudo o que havia 
por dentro dos meus olhos 
os rios que de ti desaguaram sempre 
nas minhas veias 

eu não sabia 
ou talvez já o tivesse esquecido 
como podem ser mortíferas as cinzas 
das palavras que um dia tiveram asas 

e ainda mais mortíferas as garras 
que nos destroem com os pequenos medos quotidianos 
a que não podemos escapar 
porque as sílabas da paixão são sempre 
os primeiros objectos a serem retirados do quarto 
para que tudo regresse à prateleira certa 
e de manhã a poeira nos vista 
tranquilamente 
como um hábito 

e foi por isso que nessas noites morri muitas vezes 
enquanto as secretas palavras de adeus alastravam 
pela foz do teu desejo 
e a minha pele se despia 
vagarosamente 
da tua 

(Alice Vieira in "Dois Corpos Tombando na Água" Pág.85) 

quinta-feira, fevereiro 06, 2020

Retalhos de Vida...


Conheci-te 

mulher, mãe, avó, bisavô, 

vizinha e talvez... amiga!



Partiste...  

No dia a seguir 

em que passei  minha mão 

nos teus cabelos brancos de neve
e me destes o teu ultimo sorriso.

Partiste

Ao amanhecer

num dia de sol a iluminar-te 

o caminho.
Aquele que desconhecemos, 
mas que um dia encontraremos.


E, quem sabe, 
sorridentes nos abracemos,  
recordando a vida que nos juntou.

Partiste


Maria Carolina
!924/2020