sábado, outubro 31, 2020

Monólogo em dias de Confinamento...



Quando resolvi, há mais de vinte anos, pegar nos meus “tarecos”, nos filhos, no gato Farrusco e trocar a cidade onde vivia, pela freguesia onde moro muito perto do mar, não poderia adivinhar o que o futuro traria.

Ouvir os sons da natureza, que numa cidade nos está vedado, desde o cantar do galo, manhã cedo, ao chilrear do conjunto da passarada que prolifera, diariamente, pelos céus, junta-se a paisagem, por vezes estonteante, que o nosso olhar alcança. E o sossego, só quebrado pelos sons da natureza ou de alguma buzinadela de condutor mal-disposto, era inspirador.

Era um sonho há muito pensado:sair da poluição e do barulho, constante, e viver numa zona rural mas perto do mar.

Confesso que um volte-face inesperado da vida colocou em causa tudo aquilo por que tinha lutado.
E um esgotamento mental tomou posse de mim. O sossego era ensurdecedor. A rua do "lá vai um” de que eu tanto gostava passou a ser intolerável.

Até o cantar dos pássaros de que tanto gostava (e continuo a gostar) me incomodava.

Precisava de ver gente, de a sentir, do pulsar do dia a dia. Mas também não saía de casa. Nao conseguia!
Tirando as caminhadas, que sempre gostei de fazer, ou fazer compras, o caminho era sempre directo para casa.

Cheguei ao ponto de a querer vender e ir para um local mais movimentado.

Ultrapassei essa fase. Nao vendi a casa. E, hoje, dou graças a Deus por isso.
Continuo a fazer as minhas caminhadas.
Feliz.

As ruas por onde passo estão desertas. Assim…“lá vai um”…
E, para mim, nesta fase tão delicada de contágios, viver aqui, é realmente uma benção.
Os dias passados dentro de casa, sozinha com o canário Pipoca, enquanto o filho vai trabalhar, não me custam.

E continuo a encantar-me com os sons da natureza. A ouvir música. A ler. A escrever, quando estou para aí virada.
E quando saio de casa, entro no elevador de máscara, até chegar à rua.
Depois tiro-a.

Volto a colocá-la antes de entrar no café da D. Gininha.
Dois dedos de conversa, do dia a dia. Sempre à baila, a pandemia..
Que haja respeito e responsabilidade entre todos, diz a simpática dona do café.

Está na hora de voltar a casa...
 




Fotografias pessoais tiradas ontem pelo meu filhote

 

terça-feira, outubro 13, 2020

Lugar repleto de silencio



XLV. mais seguras

Este é o instante que não se mede pelo instante seguinte. Isto é o tempo.
         Alguém estive em frente das folhas, tocando-as, e não se mostrou.
         Eu senti-me ligada à sua ansiedade, e pus a mão num ramo mais alto, 
que se verga ligeiramente ___________ entra, ou vai-se embora?             As 
duas direcções são possíveis, e separavam o meu espaço e o seu_________
que faço? Fico quieta? Grito-lhe que apareça?

          Se for um desconhecido, que me conhece mas que eu nunca vi, talvez
seja melhor suspender o meu gesto, pois o tempo de conhecer-mo-nos, 
inesperadamente,
não deve ainda começar.
           Tenho vontade de eu própria escrever-lhe umas linhas, e deixá-las ficar,
ao abandono, num lugar repleto de sossego como é a copa da grande árvore.


Maria Gabriela Llansol
in Amigo e Amiga_curso de silencio de 2004
a págs. 62  Assírio & Alvim
   

 

quarta-feira, julho 29, 2020

Dança



A caixinha de música continuava a tocar. Enlevada a ouvi-la nem me mexia. Sabia de cor aquela música, de tanto a ouvir...
Acordei.


Pintura de Degas


Dança
Contavam-me quando era menina
que, em noites de lua cheia, havia mulheres nuas
junto às fontes dançando ao ritmo da vertigem
das suas ancas, até de madrugada.
Calavam-se os pássaros e o vento.
Convocavam-se lobisomens e cães negros.
E dizia-se que eram bruxas.
Nunca as vi. Mas sonhei ser uma delas muitas vezes.
Graça Pires
in, Caderno de significados, a págs 11

quarta-feira, julho 01, 2020