sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Momentos...


O mar está encrespado, mas no seu interior detecto vultos ondulantes, que desafiam a força da natureza. Sorrio interiormente. Como gostaria de ter a coragem deles, despir-me ali em pleno areal e mergulhar nas ondas espumosas e frias, desafiando a natureza.

Instintivamente descalço-me, mergulhando os pés nus, na onda que se espraia neles…

A temperatura está amena e sinto uma alegria interior percorrer-me. Sinto o sol aquecer-me o rosto e o meu cabelo esvoaça, de um lado para o outro, como que acompanhando a dança das gaivotas, que rondam ali perto.

Sorrio.

Tenho uma relação muito pessoal com as gaivotas, desde aquela manhã em que tive um encontro imediato, com
esta

O sol convida ao passeio e por momentos, esqueço-me das minhas responsabilidades, continuando a sentir a areia já seca, que se enrola nos meus pés, dando-me um prazer infinito.

São estes momentos que aquecem a minha alma; as minhas reservas de alegria, enchem-se de uma forma cristalina, como a água que brota pura da terra.

O meu olhar pára, de repente, na figura que se aproxima de mim. A praia encontra-se deserta, mas não sinto medo. Como se uma força positiva, fosse transmitida pela sua figura.

Quando os nossos olhares se cruzaram, tal como o olhar da gaivota, tudo à minha volta, deixou de existir. Foi um único momento, em que aquele rosto, sulcado de rugas, de olhar profundo, largo casaco vestido, me olhou. E ao olhar-me, foi como se todas as forças do universo estivessem ali.

Virei-me de repente, seguindo-o com o olhar, enquanto ele lentamente, seguia o seu caminho…

Quando o perdi de vista, deixei-me cair na areia, de rosto voltado para o Sol, que entretanto, iniciara o seu mergulho no Mar. Algo no semblante daquele desconhecido, me tinha comovido.

E como num flash, recordei o Mendigo de Urbano Reis, de São Paulo e o seu notável Testamento…



Se eu fizer um testamento, pra quem eu vou deixar,
meu chapéu todo amassado, onde escuto o tilintar
das moedas que me dão, os que têm a alma boa,
os que têm bom coração?

E, antes que a vida me largue, pra quem é que eu vou deixar,
o grande estoque que tenho das palavras "Deus lhe pague"?
Pra quem é que eu vou deixar, se fizer um testamento,
todas as folhas de outono que, trazidas pelo vento,
vêm meus pés atapetar?

Se eu fizer um testamento, pra quem é que vou deixar
minhas sandálias furadas, que pisaram mil caminhos,
cheias de pó das estradas, estradas por onde andei
em andanças vagabundas?

Pra quem eu vou deixar minhas saudades profundas
dos sonhos que não sonhei?

Se eu fizer um testamento, pra quem é que vou deixar,
meu cajado, meu farnel, e a marca deste beijo
que uma criança deixou em meu rosto perguntando
se eu era Papai Noel?

Pra quem é que eu vou deixar, se fizer um testamento,
este pedaço de trapo que no lixo eu encontrei
e que transformei em lenço para enxugar minhas lágrimas,
quando fingi que chorei?

Pra quem eu vou deixar, se fizer um testamento,
os bancos dos meus jardins, onde durmo e onde acordo,
entre rosas e jasmins?

Pra quem é que vou deixar, todos os raios de luar
que beijam minhas mãos quando, num canto de rua,
eu as ergo em oração?

Se eu fizer um testamento... Testamento não farei!
Sem nenhum papel passado, que papéis eu não ligo,
agora estou resolvido: O que tenho deixarei,
na situação em que estou, pra qualquer outro mendigo,
rogando a Deus que o faça, depois que eu tiver morrido,
ser tão feliz quanto eu sou.

Testamento de Urbano Reis
Imagens daqui

24 comentários:

peciscas disse...

O mar tem o condão de nos libertar e de nos fazer ir mais além.

wind disse...

A tua prosa está bela, liberta:)
Beijos

Anónimo disse...

Excelente!
AC

des-encantos disse...

bonito, belo ...

Alexandre disse...

Também tenho uma relação muito pessoal com as gaivotas pois é a ave que eu mais fotografo.

É símbolo de liberdade!

Muitos beijinhos!!!

Carmem L Vilanova disse...

Finalmente tambem eu mato ass, minha querida!
Fazia muito nao sabia de ti, mas agora sinto alegria outra vez por receber tua visita sempre tao querida...
Para ti deixo beijos, flores e meus eternos sorrisos... sempre! :o)

Mocho-Real disse...

Texto e poema muito sensíveis, tranquilos, bonitos,... e que bela a imagem!

Assim, vale a pena a viagem!

Um abraço.

Jorge Guedes

Graça Pires disse...

Adorei o mar, o seu texto e o testamento de Urbano Reis.
Um beijo.

imformadoracidental disse...

E se fosse um dia o teu olhar?

Carlos Martins disse...

O "Testamento" , de Urbano Reis, que tenho lido em diversas ocasiões, impressiona-me sempre, pelo seu quê de patético na amarga ironia que perpassa por todo o poema.
Mas aqui, surpreendeu-me duma forma singular, pelo forma como a Menina Marota nos faz chegar até ele.
Descreve,com o saber e a doçura que lhe é habitual, o clima da praia em tarde amena embora fria, conseguindo como que integrar-nos nesse ambiente.
E quando nada fazia prever, um vulto em que ocasionalmente "vê" algo de especial recorda-lhe, por uma feliz associação de ideias, o belo poema que aqui nos oferece.
A Menina Marota não é poeta: é a própria Poesia.
Parabéns.

O Profeta disse...

Nesta baía
Quando chega ao fim do dia
As pedras dormem com o mar
Quando vem a calmaria



Bom fim de semana


Mágico beijo

bettips disse...

Não conhecia e toda a história - tua e do poema - é encantatória!
Obrigada pelo pequeno sol que também aqui partilhas. Abçs

as-nunes disse...

Comovi-me. Com esforço as minhas lágrimas (ainda as consigo sentir...) consegui suster, in extremis. Pelo texto, sentido, muito poético, eu a recordar momentos na praia do pedrógão. E pelo poema propriamente dito...
E apeteceu-me publicar uma foto (no post desta data) que tirei, inesperadamente, no Jardim Luís de Camões, Leiria, na configuração ante-Polis (Porque é que nos retiraram algumas belas imagens, equipamentos e recordações? Para se dizer que a cidade/âmago está mais moderna?! Só para isso?
Um beijo de carinho.
António

Luis Eme disse...

Gostei muito de te ler...

abraço

TINTA PERMANENTE disse...

A disfunção do tempo, memória e palavras apenas achou conforto na beleza que embrulha os afagos do texto!...
(mesmo que o Fevereiro vá seguro e fermoso...)

abraços!

Acordomar disse...

Menina Marota

Adorei este Testamento, e o enquadramento no teu texto

Tem uma boa semana

Beijocas*

Maria P. disse...

O mar cúmplice de todos os sentidos...


Beijinho e boa semana*

friendsforever disse...

Oi amiga!!!
Adorei o testamento!!!
É a pura verdade o que o testamento diz!!! beijos grandes fica bem!!!:)
Vivi

Jose Gonçalves disse...

Venho agradecer-lhe a visita que me fez e depois de ter aqui estado, peço-lhe desculpa mas voltarei com mais tempo para poder desfrutar de tudo o que li.
Quero dizer-lhe que foi muito bom ouvir o seu clip de vídeo, que maravilha...
Gostei... não digo porquê mas gostei...
Uma boa semana
José Gonçalves

DelfimPeixoto disse...

Estou aqui
http://baudepoemas.blogspot.com/
http://ondasdocesondas.blogspot.com/

aDesenhar disse...

há momentos que vale a pena relembrar,
quer em imagens ou texto como é o caso,
por isso digo que é
excelente este "momentos".
:-)

José M. Barbosa disse...

Belíssimo "post". Obrigado.

Z.

Anónimo disse...

Menina Marota, gostaria que constasse em seu blog que Urbano Reis nunca foi mendigo, e sim autor de uma poesia chamada "O Testamento de um Mendigo". Para saber quem foi Urbano Reis, entre no link abaixo: http://thmatarazzo.bloguepessoal.com/242248/Urbano-Reis-1921-2010-um-Tributo-a-inesquecivel-Voz-do-Radio-Paulistano/

Menina Marota disse...

Caro anónimo (lamento que não se identifique)

Eu não chamo, nem nunca chamaria, de mendigo a Urbano Reis, cujo percurso conheço bem.
Gostaria que desse uma leitura mais atenta ao que escrevo.
Obrigada.
Otília Martel