"Aprendi com a primavera a me deixar cortar. E a voltar
sempre inteira."
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| Desenho de Mácia Teixeira |
Recordei esta frase de Cecília Meireles (que tanto diz de
mim) ouvindo o som da chuva enquanto o vento fustigava os pés de orquídea dos
vasos da minha varanda. Ao longe, as ondas de espuma branca, entravam-me olhos
dentro.
E na linha do horizonte o azul do céu confunde-se com o mar.
Saboreio o quente do café que percorre as minhas veias com
uma sensação de conforto perante o frio do vidro onde estou encostada.
Mil imagens passam perante os meus olhos e, muitas delas,
fazem-me sorrir.
Continuo a beber o café e as ondas do mar levam meu
pensamento para bem longe e volto a tempos imemoráveis, tempos que se perderam,
mas que me fizeram crescer. E amadurecer.
Sorrio. Ainda, interiormente, sou a menina que acreditava
nos sonhos.
Olho a paisagem como se fosse um espelho de mim: vagueio
naquela praia, subo a escadaria da minha capela favorita, onde o som das
gaivotas e o ruído do mar se confunde com o silêncio, enterro os pés na areia
molhada e respiro a natureza.
Tanta lembrança! Tantos sonhos!
E, entre a menina que outrora fui e a mulher que sou, há um
sentimento novo que me preenche por completo e me faz desejar, cada vez mais,
viver.
O prazer de sentir nos meus braços o meu neto Luca!
O meu coração, todo o meu ser, enche-se de amor. Um amor novo mas imenso
como o mar.