quinta-feira, julho 27, 2006

Boas férias a todos…

Depois de um imprevisto (com o pc), estou de volta.Nestes dias de ausência forçada, confesso que senti a falta dos momentos que também fazem parte da minha Vida e que são aqueles que me unem a vós.

Lavazza Calandar 2006



As sombras não pertencem à tarde.
O mar não pertence à terra.
As folhas não pertencem à árvore.
A lua não pertence ao firmamento.
O silêncio que transpõe o escuro
não pertence ao silêncio.
O som é pura forma.
A forma que nos escapa
não pertence ao gesto,
à acidentada planície
onde os objectos são
o eco, o coração da casa.
A casa não é o pensamento,
mas o pensamento
quer ser casa.



(Poema de Luís Quintais)

segunda-feira, julho 17, 2006

A Menina da Boina Verde...

óleo sobre tela - Mily Possoz

De boina caída sobre a testa, cobrindo a franja loira que teima em cobrir os meus olhos, revi-me na menina que fui outrora...e na palidez das tardes invernais, olhando o céu cinzento envolto em largas nuvens, recordações que permanecem...porque...

Quando uma estrela
cai do firmamento
deixa um rasto
de luz que apenas
dura o decorrer
de um breve momento
e, fica a noite
ainda mais escura.

Também no céu
do nosso pensamento
partem estrelas,
à procura
de novos caminhos
e, nesse olhar atento
descobre-os em pedra dura.

Mas quando uma estrela morre,
nenhuma outra ocupa o seu lugar
permanecendo eterna
entre o céu
e o luar...
(recordações em noite de Verão...)

quarta-feira, julho 12, 2006

Memórias minhas...

Olhei a Cidade desvirtuada. Já pouco existe da que outrora me acolheu, ainda adolescente, e da beleza que me encantava. Que resta do Porto que conheci?

Praça dos Leões - Porto (imagem antiga)

A lembrança do sol quente a bater-me no rosto enquanto estacionava o carro, fez com que não me apetecesse ficar naquele corredor frio.
Até porque me entristecia o olhar da jovem que "estacionara" a cadeira de rodas na minha frente e que me olhava séria.
Tentei sorrir-lhe, num sorriso tímido, algo envergonhado. Era bonita. Uns traços finos, nuns olhos negros, grandes, de longas pestanas. Os cabelos caíam-lhe pelos ombros, castanhos, sedosos.
Ela continuou a olhar para mim e, de repente, diz-me:
- Está sol lá fora. Não te fazia bem passeares um pouco?O meu coração disparou. Ela tinha lido o meu pensamento. Sorriu-me. Libertei o meu sorriso e retribui-lhe.
Ficámos as duas olhando-nos, sorrindo…
– Vai lá…Abandonei o corredor cinzento e frio de encontro ao sol.
- Vai lá…Encarei o sol. Como é bom senti-lo.
Ao descer a escadaria do hospital, o sol inundou o meu corpo e a minha alma.
- Vai lá…E fui… ao encontro de uma cidade que, não sendo minha por nascimento, aprendi a amar.
Há quantos anos os meus passos não me levavam por aquelas ruas?
Não reconheço quase nada.
Aquelas ruas que conheci tão bem em tempos estão completamente descaracterizadas.
O preço a pagar pela exigência de tempos modernos?
O Largo dos Leões já não é como o recordava quando o vi pela primeira vez, menina e moça. Perdeu toda a sua imponência. Modernices, penso nostálgica.
Não gosto do actual.
Detive-me logo ali à entrada de Cedofeita.
A minha paixão por miniaturas deixou-me pregada à montra.
A beleza de certas peças pequenas deixa-me fascinada.
Que mão, que dedos, que sensibilidade consegue construir tamanha beleza?
Perco conta aos segundos que ali estive, por isso voltei para trás.
Entro na Rua Sá de Noronha. O Solar Moinhos de Vento ainda ali está. Que saudades… aquela comida… a companhia… a alegria… tempos passados.
Na Rua das Carmelitas entro no meu "templo": a Livraria Lello.
A fachada neogótica sempre me impressionou mas o fascínio está no seu interior.
Sorrio para o cartaz do meu Poeta favorito.
Pessoa mantém-se impávido, alheio aos olhares que lhe deitam na subida da escadaria.
Gosto de sentir o cheiro dos livros, gosto da arquitectura, da suavidade da madeira trabalhada… gosto de relembrar os tempos em que aqui vinha e me sentava na escadaria, de nariz para o ar, admirando, até que alguém me dizia:
- Menina, não pode estar aí!Sorria sempre, malandra.
- Pois não posso. Mas adoro!Paguei o livro que escolhi e voltei a encarar o sol.
Não resisti à montra do início da rua.
Os meus olhos deviam brilhar, quando entrei no corredor cinzento e frio.
Uma voz diz-me:
- Onde foste? Demoraste!Mostrei o embrulho.
- Cometeste alguma loucura. Pelo teu olhar…Não é tão bom cometerem-se loucuras num dia de sol?
Num relance, procuro a menina dos olhos negros. 
Já não estava lá…

(Hoje recordei-me deste dia…)

sábado, julho 08, 2006

Grito


Pintura Portuesa de Élia Laranja


De ti que inventaste
a paz
a ternura
e a paixão
o beijo
o beijo fundo intenso e louco
e deixaste lá para trás
a côncava do medo
à hora entre cão e lobo
à hora entre lobo e cão.

De ti que em cada ano
cada dia cada mês
não paraste de acender
uma e outra vez
a flor eléctrica
do mais desvairado
coração.

De ti que fugiste à estepe
e obrigaste
à ordem dos caminhos
o pastor
a cabra e o boi
e do fundo do tempo
me chamaste teu irmão.

De ti que ergueste a casa
sobre estacas
e pariste
deuses e linguagens
guerras
e paisagens sem alento.

De ti que domaste
o cavalo e os neutrões
e conquistaste
o lírico tropel
das águas e do vento.

De ti que traçaste
a régua e esquadro
uma abóboda inquieta
semeada de nuvens e tritões
santidades e tormentos.

De ti que levaste
a volupta da ambição
a trepar erecta
contra as leis do firmamento.

De ti que deixaste um dia
que o teu corpo se cansassse
desta terra de amargura e alegria
e se espalhasse aos quatro cantos
diluido lentamente
no mais plácido
silente
e negro breu.

De ti
meu irmão
ainda ouço
o grito que deixaste
encerrado
em cada pétala do céu
cada pedra
cada flor.
O grito de revolta
que largaste à solta
e que ficou para sempre
em cada grão de areia
a ressoar
como um pálido rumor.
O grito que não cansa
de implorar
por amor
e mais amor
e mais amor.


Poema de José Fanha
in "Breve tratado das coisas da arte e do amor"


F O R Ç A P O R T U G A L