Apenas a luz da tarde
que o prado faz rosa e ouro,
só o poente infinito
que me deslumbra estes olhos,
a solidão junto ao mar
e o amor entre os choupos.
Irei à fonte em ruínas,
tingida de um sol histórico,
pela relvosa vereda
de acácias embriagadoras;
lá sonharei uma vida
livre, clara, melodiosa.
Oh bem-estar! Oh ventura!
O verdelhão melancólico
suavizará a elegia
do brando pinhal umbroso;
serão mais fundos os zéfiros,
será mais profundo o sonho...
Beijo triste! Mágoa alegra!
Nada no mundo de todos!
Uma divina esperança
num recordar alegórico!
Apenas a onda e o sol,
a rosa e o vento, só!
Não voltarei mais... Será
uma viagem misteriosa,
levado, com indolência,
de um encantamento a outro,
pelas sendas mais ocultas
que já não têm retorno.
Poema de Juan Ramón Jímenez,
1881- 1958








