sexta-feira, junho 21, 2013

Ternura

Àquela hora o sono tomava conta de mim sem sonho que acordasse o próprio sono.
Porque não penso. Não quero pensar.
Deixo-me embalar pelo sono e lá permaneço imóvel porque já nada tenho a esperar.
A ternura não me assusta. Ou assusta, nem sei. Muitas vezes comove-me quando a sinto infinita e verdadeira, mas sim, assusto-me como pássaro ferido em que o mais leve ruído do vento o intimida e o faz levantar voo.
Não quero pensar.
Só quero estar.
Aqui, quieta, no meu canto.
Não deixar que nada me abale, me toque, destrua a minha alma.
E permanecer fiel a mim. Só a mim. E penso:
Não estás só. Nunca estarás. Tens o pó das estrelas e a música que acompanha a tua alma.
Ah... e as palavras que escreves e te libertam.




(desligar a música de fundo, p.f. para ouvir o vídeo)

quarta-feira, junho 12, 2013

Silence et Tendresse

É sempre com alegria que tenho conhecimento quando alguém partilha as minhas palavras. Mas essa alegria é redobrada quando os nossos poemas são traduzidos e disso nos dão conhecimento.
Agradeço a Nina Matos que seleccionou os poemas e Cécile Lombard que traduziu.

A minha sincera gratidão a ambas.

Ghislaine Segal


Entre nous
Il y a des mots
Dessinés sur
Le silence de la nuit.

Entre nous
Il y a des désirs
Et des caresses
Dans chaque mot
Qui n'est pas
Prononcé.

Entre nous
Il y a des murs de silences
Renversés
A chaque marée
Qui se devine.

Entre nous
Nous demeurons.

*
Entre nós
Há palavras
Desenhadas no
Silêncio da noite.

Entre nós
Há desejos
E carícias
Em cada palavra
Que se não
Pronuncia.

Entre nós
Há muros de silêncios
Derrubados
Em cada maré
Que se adivinha.

Entre nós
Permanecemos.

Otilia Martel

(Menina Marota)

traduction ©Cécile Lombard

quinta-feira, junho 06, 2013

Dádiva

Sandra Bierman 
Ao meu neto Luca
Gosto do teu olhar de leite.
Do sorriso rasgado que abre as portas do coração.
Dos sons que emites a dormir
quando sonhas com estrelas.

Gosto de te ter nos meus braços.
Afagar-te docemente e murmurar
tudo o que um dia vais descobrir por ti.

Gosto do teu cheiro suave e
do cabelo ralo que há-de crescer.

E quando não estou contigo
o pensamento voa e tu estás comigo
assim… aqui! .




(Escrito a 22 de Maio de 2013 dia em que perfez 3 meses de Vida.)

domingo, junho 02, 2013

Momento

Este é o momento que o vento
toca as marés e as gaivotas
mergulham nas ondas.
(excerto)


(Desligar p. f. a música de fundo para ouvir o vídeo. Obg.)


sábado, maio 25, 2013

Crónicas de vida

Pintura de Zhaoming Wu


Acordei sobressaltada.
Através do estore amarelo a luz do dia já entrava, um pouco difusa, clareando o quarto.
Pela porta de vidro, aberta, que dá para o terraço, o frio matinal fazia-se sentir.
Estremeço…
Pego na ponta do lençol e limpo o rosto suado enquanto cruzo as pernas nuas em cima da cama, fecho os olhos e assim fico olhando para dentro de mim.
É neste momento que ela me sorri e sinto os seus olhos risonhos, malandros, a olharem para mim.
Há quanto tempo não te vejo? Tiraram-te de mim!
Fazes-me falta…
Quanta saudade da tua ousadia, das tuas palavras azougadas (sem falsos pudores), falando de sentimentos e paixões, com a clareza de uma criança.
Eras um estímulo para as palavras que bailam conjugando os sentimentos em todos os tempos.
Mais que ouvir, sinto a sua gargalhada, que me abala, provocando uma onda de convulsão e tento defender-me.  
Não olhes assim para mim!  
Não vês que já não habitas em mim?  
Já não te escudas nesse nome com que me envolveste e cirandaste pelos caminhos alados da palavra, fomentaste sonhos e ilusões, esqueceste-te da minha condição de mulher mãe, dona de casa, enfermeira, motorista, sei lá que mais, escondida de olhares subtis, tímida e defensora de valores e da família, até já sou avó, vê lá tu!  
Não abanes a cabeça!  
O tempo dos fóruns e dos blogues onde te encontravas como peixe na água, onde te exprimias com tanta paixão, já não existem.  
Já não podes abrir a tua alma como fonte jorrando água límpida.  
Tudo isso desapareceu: olha em teu redor. Não existes. O teu nome não existe.  
Existe somente a lembrança do que eras! Ou do que foste!  
Não grites!  
Porque estás a gritar?!  
Que som é esse? Horrível…
Abro os olhos. O quarto encontra-se na penumbra do amanhecer.
Desligo o despertador e volto à realidade. O JP tem exames médicos marcados para hoje, bem cedo, no hospital.
Salto da cama e paro… 
Que sonho estranho!
Semicerro os olhos e os olhos dela vêm de encontro aos meus, como que a dizer-me que afinal “ela” não morreu.  
A Menina Marota existe em mim e sempre existirá.

Sorrio… 

Vamos lá tirar o JP da cama dele… 


(16 de Maio de 2013)