sexta-feira, setembro 24, 2010

Remanescência de Vida...

Imagem de Marina Filipovic



Na suavidade da música que, como espuma,
toca a areia mansamente e permanece no ar,
lentamente, espraio o olhar, no momento em
que sinto a brisa do vento o meu corpo beijar.

De coração descalço de sentimentos amorfos
corro através do campo verde da minha alma
que se confunde com a fresca aragem do mar
que domina devagar o meu corpo e me acalma.

Prossigo nas asas do sonho, entre nuvens e terra,
na fragrância que se espraia para lá do impossível,
toca os sentidos da minha memória que se desnuda

na pulcritude etérea do firmamento onde nada e tudo
é possível, (a profundeza do sentimento remanesce),
no exacto momento que o pensamento se pensa mudo.



(Memórias de mim...)





terça-feira, setembro 21, 2010

Porque hoje é... Outono

Imagem de Paul Boychenko


Um dia de Verão

Eis então o último dia de Verão. Faltam nove meses até ao próximo dia de Verão. Amanhã já se pode dizer oficialmente que se tem saudades do Verão e ele nunca mais vem. Mas hoje não. Hoje é um dia de Verão. Amanhã começa o período de compensações e prenúncios chamado Outono, em que nos serão devolvidos os dias de Verão que nos foram roubados, apresentados uns esboços do Inverno que aí vem e, nos intervalos, dar-nos-ão os dias inequivocamente outoniços que são cada vez mais difíceis de encontrar

As vindimas roubam ao Outono as uvas onde o Verão está escondido e levam-nas para lugares cobertos onde o Verão será liquefeito e prolongado, melhorando, bem protegido, enquanto as tempestades ou as brisas ou seja lá o tempo que for batem lá fora.

Gosto muito de ver chegar as uvas Malvasia e Ramisco à Adega Regional de Colares. É como assistir ao salvamento do Verão. Todas as frutas de calor já foram comidas. Agora vêm as que são para beber e ficam com o nome 2010. Sente-se que o tempo em ambos os sentidos, de tempo a passar e de tempo-clima, reúne-se num só tempo, explicando por que usamos a mesma palavra para duas coisas aparentemente tão diferentes. O vinho explica a ligação entre a meteorologia e a cronologia.

É pena não se celebrar os últimos dias das estações. A partir de amanhã haverá dias que "parecem Verão", mas hoje é mesmo um dia de Verão e é assim que tenciono passá-lo, deixando os choros e os até-que-enfins para o Outono.


de,  Miguel Esteves Cardoso in Público de 20.10.2010

terça-feira, setembro 07, 2010

Olhos de chuva...


Pintura de Estall



Quando em mim
o céu se faz nuvem
o mar
voz dos barcos que partem do cais

e as estrelas do firmamento
velas flutuando
ao sabor das marés

meus olhos
são chuva miudinha
que cai
embalando as ondas
uma a uma
na praia dos meus sonhos e
se espraiam a meu pés.

terça-feira, agosto 24, 2010

O silêncio: lugar habitado.





Aqui, olhando as pessoas ao acaso,
vêm-me à lembrança aqueles dias
em que os nossos olhos se ajustavam
e tu lias, em voz alta, os autores
da nossa preferência.
Recordo isto, como um tempo
em que os pássaros vinham,
em grandes círculos, sobrevoar
a imprevisível alegria,
tecida por nossas mãos,
para iluminar, sobre a mesa,
as flores tardias de maio.

De
Graça Pires 
in, "O silêncio:lugar habitado" a págs.11

sábado, agosto 07, 2010

Música da Natureza...

Pintura de Michael Garmash



Sorri minha alma no leve toque dos sentidos
que, como um rio, corre nas minhas veias,
em sensações arrebatadas pelo afago do vento
que na extensa planície meu olhar incendeia.

Sorri meu corpo na ternura do momento em que
se funde o pensamento na beleza que me rodeia.
No calor da pele abraçada pelo sol, a natureza
vibra, na cumplicidade do sentimento que me enleia.

Não temo o amor, nem a morte, se ambos
vierem devagarinho levando-me em sonhos
de carícias e a Lua se esconder no meu olhar.

Sob as pétalas da noite desliza o orvalho
em cascata de rios como lágrimas de amor
que cantam melancolias na música da Natureza.