Entre a ficção e a realidade, entre o sonho e a realização desse sonho, vai um espaço que gosto de percorrer, descobrindo a sensibilidade de cada autor e o que as suas palavras provocam no meu sentir.
Ler “Por Tentativa e Erro” da Teresa Cunha, foi uma verdadeira aventura.
É essa aventura que em breves trechos vos convido a ouvir aqui no Sons da Escrita onde o José-António Moreira “empresta” o fascínio da sua voz na leitura ousada de excertos de um livro surpreendente.
Esta licenciada na Universidade de McGrill em Ciências Políticas numa forma sui generis traça o percurso semi-biográfico da sua carreira profissional no Alto Comissariado das Nações Unidas, relatando as muitas atribuladas situações porque passou no desempenho da sua missão.
De uma forma despretensiosa, diria quase com certa humildade, dá-nos o relato real de uma luta diária, entre culturas completamente diferentes da sua, num humor que só um grande escritor poderia equacionar.
“Por Tentativa e Erro” é o relato, em 246 páginas, da vivência de uma Portuguesa que em vários Países acompanhou as mais recentes guerras sobretudo em África e nos Balcãs e que termina assim:
“…Depois de me ter revisto perante o tempo que já gastei devolvo-me à minha memória de mim mais inteira e quase certa, de que tudo o que sou e sei, me veio por tentativa e erro, ... e no que diz respeito a métodos de aprendizagem ainda agora não me ocorreria outro melhor.
Já dizia o Poeta que para contar a sua vida bastaria dizer que entre o primeiro e o último, todos os dias foram seus.. Ao retomar posse dos meus dias eu leio na prosa dos anos e nas entrelinhas da experiência revisitada, a letra simples dum fado que eu decerto mereci e cujo refrão insiste em levar-me precisamente de volta ao meu ponto de partida.
Talvez eu nunca venha a ser mais feliz do que já fui e nem sequer tenha mudado muito desde o dia em que trouxe aquilo com que nasci para a vida que se quis minha ... mas curiosamente é aí que eu encontro o meu maior conforto ...
.. e descubro até um enorme alívio cómico .... . ou quem sabe, kármico,
.. nessa ironia.”
(excerto in, “Por Tentativa e Erro” de Teresa Cunha)