quinta-feira, março 11, 2010

Palavras diáfanas...

Pintura de Persida Silva

Sorvo o mel 
das palavras diáfanas
que entram, 
como estrelas cadentes, 
no mar.

Palpitantes de vida,
em arco-íris de mil cores
no pensamento
voam
como gaivotas
no firmamento.

sexta-feira, março 05, 2010

Um livro que dava uma verdadeira Novela...

Entre a ficção e a realidade, entre o sonho e a realização desse sonho, vai um espaço que gosto de percorrer, descobrindo a sensibilidade de cada autor e o que as suas palavras provocam no meu sentir.

Ler “Por Tentativa e Erro” da Teresa Cunha, foi uma verdadeira aventura.
É essa aventura que em breves trechos vos convido a ouvir
aqui no Sons da Escrita onde o José-António Moreira “empresta” o fascínio da sua voz na leitura ousada de excertos de um livro surpreendente.

Esta licenciada na Universidade de McGrill em Ciências Políticas numa forma sui generis traça o percurso semi-biográfico da sua carreira profissional no Alto Comissariado das Nações Unidas, relatando as muitas atribuladas situações porque passou no desempenho da sua missão.

De uma forma despretensiosa, diria quase com certa humildade, dá-nos o relato real de uma luta diária, entre culturas completamente diferentes da sua, num humor que só um grande escritor poderia equacionar.

Por Tentativa e Erro é o relato, em 246 páginas, da vivência de uma Portuguesa que em vários Países acompanhou as mais recentes guerras sobretudo em África e nos Balcãs e que termina assim:



Imagem: Teresa Cunha


“…Depois de me ter revisto perante o tempo que já gastei devolvo-me à minha memória de mim mais inteira e quase certa, de que tudo o que sou e sei, me veio por tentativa e erro, ... e no que diz respeito a métodos de aprendizagem ainda agora não me ocorreria outro melhor.
Já dizia o Poeta que para contar a sua vida bastaria dizer que entre o primeiro e o último, todos os dias foram seus.. Ao retomar posse dos meus dias eu leio na prosa dos anos e nas entrelinhas da experiência revisitada, a letra simples dum fado que eu decerto mereci e cujo refrão insiste em levar-me precisamente de volta ao meu ponto de partida.
Talvez eu nunca venha a ser mais feliz do que já fui e nem sequer tenha mudado muito desde o dia em que trouxe aquilo com que nasci para a vida que se quis minha ... mas curiosamente é aí que eu encontro o meu maior conforto ...
.. e descubro até um enorme alívio cómico .... . ou quem sabe, kármico,

.. nessa ironia.

(excerto in, “Por Tentativa e Erro” de Teresa Cunha)

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

exercício espiritual



É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem

É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora

Poema de Mário Cesariny,
in Manual de Prestidigitação (1981)



Imagem de Persida Silva

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Rosa Lobato de Faria

Não chores a dor da morte
Chora a alegria de ter vivido
A ternura murmurada
A palavra abraçada
O sorriso oferecido.

(Otília Martel)



Com que pedra de sal
com que promessa
com que pássaro solto pela casa
com que folha de louro
com que sonho
com que lua entornada no alpendre
com que livro de quem
com que sonata

temperarei a dor da tua ausência
o silêncio
o vazio na minha cama
os gritos do meu corpo
o pão por partir da minha alma

Com que chuva
lavarei o rumor dos teus passos
no magoado coração dos dias

Com que pranto
afogarei teu rasto
com que manto de lava
com que mar.

(excerto)
Rosa Lobato de Faria in A Gaveta de Baixo

(1932 - 2010)

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Nas asas do sonho...


Voo nas asas do sonho no azul do céu que me cobre
em asas de borboleta vagueio na ternura do amor
que me guia para lá do infinito na alegria partilhada
luz dourada do pensamento que a vós me une

Voo em palavras aladas que permanecem
na memória constante do sorriso do meu olhar
que sente o odor das madressilvas na terra molhada
onde as borboletas vagueiam como sonho do verbo amar

No campo aberto da minha vida madressilva serei.
No desafio imutável do tempo onde persiste a dor
me devolverei ao mundo sonhando na raiz do pensamento.

No mar constante da vida entrego-me, qual borboleta
de asas azuis, ao mistério do sol que ilumina as horas
dos meus dias de incertezas mas também de alegrias.