quinta-feira, outubro 08, 2009

Afabilidades...

Confesso, que é com uma certa alegria no coração que recebo as comunicações do Jornalista Mhário Lincoln, do Portal de informação que possui. Já nem me recordo há quantos anos dura esta colaboração. 
É sempre um gáudio enorme para mim, muito embora, por vezes, nem o divulgue como deveria e mereceria, já que ainda não consigo vencer a minha timidez natural de divulgar os meus próprios trabalhos.

Mhário Lincoln tem sido um amigo atento que, altruistamente, tem levado alguma da minha obra e a de muitos outros poetas, incluindo um dizeur conhecido, igualmente muito divulgado nos meus blogues, que tem partilhado no seu Portal com muita regularidade e esse facto merece todo o meu respeito e amizade.

Mas o meu contentamento de hoje ultrapassou essa alegria crescente que em mim se instala sempre que recebo uma comunicação sua, porque a que recebi hoje tinha uma especial referência que me deixou extremamente sensibilizada, por não esperada.

Partilho convosco a alegria das palavras que recebi…





ESTA FOTO

Um sorriso, uma menina
Perfil santo, um santuário,
Estuário de sereias do arco-íris
As cores fortes que te vestem, Ísis.
São as cores do coração pulsante
Egoísta e único, Amante
Sem manchas passadas.

Óculos escuros me privam
De ver a tua verdade, me crivam,
Mesmo que dos óculos se enxergue
Tuas virtudes, tua fidelidade
Teu banzeiro quebrando na praia
Das melodias cancioneiras do tempo, a raia,
Dos sorrisos marotos, tua brisa.

O que te ornamenta o pescoço
Ornamenta teus sonhos e tua vida.
O ouro da virtude. A prata da bem-querença
O soluço de quem reinventa o amor
A todo instante; minha grande amiga.


(*)Mhário Lincoln


Uma homenagem a minha amiga portuguêsa
com respeito e admiração.


(*) Mhário Lincoln é jornalista e advogado. Tem livros de Direito e Jornalismo publicados. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão. Possui larga experiência em rádio, tv e jornalismo impresso

segunda-feira, outubro 05, 2009

A Lição de Poesia

Imagem de Anne Magill


Estamos sentados num banco todo branco
Sob o busto de Lenau

Abraçamo-nos
E entre dois beijos falamos
De poesia
Falamos de poesia
E entre dois versos abraçamo-nos

O poeta olha para longe através de nós
Através do banco branco
Através do saibro da alameda

Ele cala magnificamente
Os seus belos lábios de bronze

No jardim público de Verchatz
Aprendi pouco a pouco
O que é essencial num poema


(Poema de Vasko Popa in "Cem poemas de amor de outras línguas", pág. 45)

sexta-feira, outubro 02, 2009

Coisa simples...

Este Poema foi colocado em 18 de Julho e posteriormente retirado.
Mas há ocasiões da nossa vida que não se apagam com um simples gesto por isso resolvi recolocar este momento e deixá-lo ficar.
Há memórias que devem permanecer no seu estado puro tal como aconteceram.




Quero dizer-te uma coisa simples: a tua ausência dói-me.
Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma;
mas que não deixa, por isso,
de deixar alguns sinais -
um peso nos olhos, no lugar da tua imagem, e um vazio nas mãos.
Como se as tuas mãos lhes tivessem roubado o tacto.
São estas as formas do amor,
podia dizer-te; e acrescentar que as coisas simples
também podem ser complicadas,
quando nos damos conta da diferença entre
o sonho e a realidade.
Porém, é o sonho que me traz a tua memória;
e a realidade aproxima-me de ti,
agora que os dias correm mais depressa,
e as palavras ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de mim -
e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói.


" Ausência", de Nuno Júdice



Imagem: Google


domingo, setembro 27, 2009

Arco-íris da Vida…

 Imagem de Haleh Bryan


Mal toquei no jantar. Uma pequena dor atormentava-me, mas nem queria pensar nela.

Desligara o telefone onde estivera a falar com um dos pintores da exposição do Poem’art e a visita guiada ao Second Life até tinha decorrido bem e animada.

Mas enquanto colocava o jantar na mesa e chamava a Família uma pequena dor tirou-me de imediato a vontade de comer, mas nada disse.

Ajudei a deitar o JP, ainda dorido da queda de há dias, e fui para cima.

Hesitei, mas acabei por desligar o computador e quando me deitei a dor no peito era mais intensa.

Bem, pensei, isto deve ser nervoso e a tensão dos últimos dias… nada que uma boa noite de sono não alivie.

Mas a dor permanecia cada vez mais intensa e quando me arrancou lágrimas tentei chamar alguém mas a voz não me saiu; a pêra da campainha de chamada não estava no sítio quando a procurei e acabei por me encolher toda, puxando o lençol para mim.

A Rita e o Sting aos pés da cama, não se mexiam, contrariamente ao habitual, o que me levou a pensar que eles estavam a sentir que algo não estava bem.

De repente dei comigo a pensar na minha Família e nas consequências do meu desaparecimento. O JP ficaria bem; os meus filhos tratariam para que nada lhe faltasse de cuidados no futuro; os meus filhos são fortes, iriam aguentar o choque; dei comigo a preocupar-me com os meus cães…eles são tão apegados a mim; quando não estou eles nem saem do meu quarto! Que pensariam? Que os abandonei?

A dor continuava insuportável e cada vez me fazia aninhar mais, mas continuei com os pensamentos: uma carta no cofre, escrita há muito tempo e dirigida à minha filha, dava-lhe conta das minhas últimas vontades, até os códigos dos blogues, para ela lá deixar um último poema meu. 
De repente ocorreu-me: “e se ela se esqueceu da combinação dos números para abrir o cofre?” Seria melhor ir abri-lo, mas apesar do esforço não consegui levantar-me.

Lembrei-me então das duas únicas pessoas que estavam zangadas comigo ou eu com elas, já nem sei. 
Como gostaria de lhes dizer que apesar das nossas diferenças continuava a gostar deles e que a zanga afinal nem tinha razão de existir. 
Agora é tarde, pensei. 
Nem uma palavra lhes vou conseguir escrever. Sei que ela saberá, apesar de já não nos falarmos há tanto tempo, sinto que nos preocupamos uma com a outra. Ele, obstinado e teimoso, vai pensar que fiz isto para o massacrar: não é verdade. Afinal sempre lutei pelo bem dele… só que ele nunca o percebeu.

As lágrimas caíam-me e de repente mergulhei numa escuridão total.

Uma claridade imensa desperta-me, sinto que algo me limpa o rosto das lágrimas, abro os olhos e vejo o Sting olhar para mim com aqueles olhitos esperto e aos pulos por cima de mim atrai a Rita que corre para a minha mão que a afaga logo. 

Num pulo salto da cama e corro para o terraço; o Sol envolve-me e a dor da véspera tinha desaparecido. 
Toco em mim e começo a rir-me enquanto agarro o Sting que saltarica à minha volta e começo a dançar com ele.

Resolvi de imediato que tinha outras cartas para escrever e outras directrizes para deixar à minha filha. Afinal ela será a cabeça de casal da minha Família que, apesar de tudo, continua de pé.

São 10 horas da manhã. Apetece-me beber um café. A terrível dor no peito tinha desaparecido por completo e afinal estou viva, muito VIVA mesmo!



(Estes momentos foram reais. Aconteceram na noite de 25 para 26.

Acho que nasci de novo…)

sábado, setembro 19, 2009

Reciclagem

Pintura: Starry Night de Van Gogh


Entre o mar e o rio
não há lugar para promessas
dispersas entre grãos de areia
na invariável limpidez 
do inexplicável silêncio

O tempo entre cada margem é longo
e na passagem por elas
os barcos antecipam
 a voragem dos sentidos

Entre a noção e a razão
existe dor e silêncio
intenso 
como a dimensão do mar
terrível 
como a certeza do abandono

Como sal purificador
fluindo na seiva de nós
afastados que somos 
por sonhos diáfanos 
que se espelham
na incerteza da razão
- reciclagem de tempo-
perdido entre risos de veneno
mordidos língua a língua
consagrando 
o húmus da utopia

Reciclagem de sentimentos
tornada leve
como nuvens brancas de algodão.