sexta-feira, janeiro 16, 2009

Cumplicidades

Pintura de Eric Drooker

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário.
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


(Poema de Eugénio de Andrade in "Antologia Breve", págs 16/17)

terça-feira, janeiro 13, 2009

Memórias...



Um dia voltarei
à casa da minha infância,
cenário de princesas e cavaleiros,
que a minha memória perpetua.

Um dia
alguém tocará o piano
que geme a angústia
do desaparecimento
dos dedos que o acarinhavam,
invariavelmente, de
Schumann a Boulez,
enquanto meus olhos
os seguiam amorosamente.

Um dia
as janelas se abrirão
deixando entrar
o sol da minha emoção;
sorrirei para as
rugas do meu rosto
fecharei o espelho
da minha memória
e deixarei a casa partir.

Um dia…




Pintura de Francis Day

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Sonhos...


Todos nós sabemos que nem todos os sonhos se realizam; uns demoram uma infinidade de tempo a concretizarem-se, outros…irão vaguear eternamente em sonhos.


Pintura de George Frederic Watts


Mas num desses sonhos, de um momento para o outro, encontrei-me a sós com o próprio sonho…para quê negá-lo: há muito desejava este encontro.

O meu corpo vibrava ansiosamente enquanto nos cumprimentávamos num beijo cândido que não traduziu o fogo que o seu corpo, encostado ao meu, provocou em mim.

Conversámos, mergulhámos nos olhos um do outro, as mãos tocaram-se...

Absorvemos o perfume de cada um, sentimos que as nossas peles se entendiam.

De súbito, convida-me a sair dali, para podermos estar sozinhos; ia jurar que não lhe respondi que sim...nem que não.

Sei que me pegou na mão e, conversando com a maior naturalidade, voámos para local onde povoam os sonhos e pelas brechas do entendimento que o meu coração permitia, dado o estado de êxtase em que estava pela realização de algo que nunca imaginara possível, ainda percebi da horrível demora em chegarmos.

A ansiedade tomava conta de mim quando, com gentileza, convidou-me a segui-lo e daí a abraçar-me, foi o tempo que o tempo não mede.

Foi um longo, longo abraço. Não pronunciámos palavra, apenas nos apertámos, corpo contra corpo e voámos.

A imaginativa abertura de uma garrafa de champanhe foi o ponto alto que comemorou o nosso encontro e diante um do outro, olhos nos olhos, enlaçámos o braço que segurava o copo e bebemos ao mesmo tempo que selámos a nossa condição de... apaixonados.

Se até aí eu tinha dúvidas neste gesto ficou a certeza para a vida: eu seria dele, para sempre, no imaginário que povoa os meus sonhos…

O seu corpo aperta-se contra o meu e tomando o meu rosto nas suas mãos beija-me demoradamente os olhos, enterrando os dedos nos meus cabelos; leva a sentar-me num pequeno maple e coloca-se a meus pés, pousando a cabeça no meu colo serenamente, enquanto as suas mãos tacteavam o meu corpo.

As minhas, lentamente, afagavam o seu cabelo macio, enquanto ele, ousadamente, continuava em peregrinação tocando-me delicadamente a pele, detendo-se no seio visível por debaixo do fino tecido.

Os seus lábios, macios, tocam os meus num beijo que sorve o hálito um do outro. Sem resistir, deixo-me acariciar, enquanto penso que sonho me transportou para aquele momento…

Sentou-se a meu lado e, de súbito os meus sentimentos explodem numa vertigem inimaginável… estamos nos braços um do outro e, como um raio, esse gesto entrou-me na alma a dizer: ele tomou-te, serás dele…. Já não é ele, apenas, que te possui; agora és tu que o vais tomar para ti.

A excitação apodera-se de todo o meu corpo; a respiração, cada vez mais apressada, provoca-o, eu solto a minha paixão: a minha boca procura-o, primeiro suavemente, depois com o frenesim que já não consigo ocultar.

Os meus lábios sugam a sua pele e os seus beijos dominam-me. Deixo-me levar pela ardência do desejo e as minhas mãos procuram-no com ímpeto.

Ainda não sei porque parei nesse momento único. Estava ofegante, feliz, nas nuvens da paixão. O meu corpo era uma explosão de sentimentos há muito não percebidos.

Nada parecia crer que iria descer à terra. Mas desci. E o sonho terminou ali, naquele breve instante em que os nossos corpos mal se tocaram. O seu rosto povoa-me os sonhos. A fantasia inunda-me a alma...

Quando abri os olhos, ainda com a mente povoada de doces ilusões, nada restava… a não ser a realidade, a minha tão terna realidade… porque sonhos… serão eternamente sonhos.

Nos sonhos nada se consubstancia... são, apenas, uma mera ilusão… imaterial.


No eterno sonho dourado
dos teus olhos, longe de tudo,
a madrugada passou,
a água esculpe na montanha
rios límpidos e transparentes.

O crepúsculo partilha os teus momentos
e a espera da manhã,
colhe as flores do amor
que existe no coração
em suave brisa
que acaricia o
o sol e sente
a ternura do
vento.


terça-feira, janeiro 06, 2009

A coincidência das deambulações…

Para além da poesia, sou uma apaixonada por fotografia e, muitas vezes, nas minhas deambulações pela internet, descubro verdadeiras pérolas.

Gostaria de começar o ano de uma forma positiva e encantatória, iludindo, assim, as premonições do pessimismo instalado em todas as vertentes, até porque, confesso, acabei mal o ano; uma malfadada gripe que teima em não me largar
(mas quem me manda a mim ser inquieta e, mal tenha um cheirinho de ânimo, salto logo para fora do ninho?) tem-me impedido de fazer aquilo que gosto: partilhar momentos, palavras e imagens.

Foi por um mero acaso que descobri a página da
Luísa Abreu, nessas tais deambulações pela net e, fiquei, revelo, presa ao sorriso e ao poema desta…


Menina Marota
Fotografia de Luisa Abreu


Menina marota, tu és a estrela mais garota
Que no espaço quer navegar,
Menina marota, tu és a palavra mais solta
Que sai sem pensar...

Os teus olhos saltam de felicidade
E dançam na alegria dos teus desejos
Uma alegoria de liberdade,
Onde são permitidos cuidados e beijos,
Estímulos, verdades e gracejos
Para que conheças um novo luar,
Para que nele nunca te esqueças de saber amar.

Menina marota, tu és o pensamento mais belo
Que um dia a tua boca pôde gritar,
Menina marota, tu és o momento singelo
De uma simplicidade de beleza ímpar...

As perguntas caem sem as segurares
Numa curiosidade natural de quem abriu a janela
Para saber contemplar outros lugares,
E como é mágica essa aurora tão bela...


Poema "Menina Marota" de Luisa Abreu
(31/10/08)


Nas ondas do sonho encantado o olhar cristalino das crianças deverão dar-nos força paracontinuar a lutar para que elas possam, verdadeiramente, ter um futuro melhor.

É essa a minha esperança. 
É esse o meu sonho.

quarta-feira, dezembro 31, 2008

É urgente...

Imagem Google


É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar a alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


“Urgentemente” , de Eugénio de Andrade
 in,  Antologia Breve (1972), pág.32)