terça-feira, dezembro 18, 2007

Prendas no Sapatinho…

"Aníbal:

As aventuras maravilhosas da salta-pocinhas raposeta pintalegreta, senhora de muita treta – contei-tas eu, sentado tu nos meus joelhos. Contando-tas, veio-me ideia de as escrever. Além de inspirador, colaboraste com os teus silêncios, perguntas e interrupções na frágil meada. Que mais não fosse, só por este título o livrinho teria de levar o teu nome... "

E finaliza assim Aquilino Ribeiro, na introdução do seu livro "Romance da Raposa" …


"Aí fica, meu homem, no teu sapatinho de Natal esta pequena prenda. Aceita-a com os meus beijos de pai, que ao Menino Jesus vou pedir perdão do pecado, pois que a raposa é matreira, embusteira, ratoneira, e Ele apenas costumava brincar com pombas brancas e um branco e inocente cordeirinho.
Santo Amaro de Oeiras
Natal de 1924.

Capa do Audiobook - Romance da Raposa


Recordar o Romance da Raposa, de Aquilino Ribeiro, dedicado ao seu filho Aníbal, naquele Natal de 1924, é evocar Natais da minha vida e a leitura de uma das histórias, que mais ouvi ler na minha infância.

Por isso, foi com enorme satisfação que tive conhecimento que o Estúdio Raposa, tinha participado sem quaisquer fins lucrativos, num projecto a favor da
Fundação Gil, cedendo gratuitamente a gravação completa do Audiobook, O Romance da Raposa, cuja receita reverterá a favor de crianças carenciadas.

A
Fundação Gil, como todos sabem, tem como fim principal contribuir para o bem estar, a valorização pessoal e a plena integração social das crianças e dos jovens que, por razões de natureza diversa, se encontrem internados, por períodos prolongados, em unidades hospitalares, prisionais ou outras.
cd's do Audiobook - Romance da Raposa


Adquirir esta obra, oferecendo-a como uma valorização de cultura, é ainda uma forma de se solidarizar, com todos aqueles que se encontram empenhados num projecto credível e humano.



Presépio pessoal - Menina Marota





quinta-feira, dezembro 13, 2007

Sentimentos...

É na ausência, que mais sentimos a presença daqueles que gostam de nós e connosco compartilham sentimentos e emoções.
É na ausência, que melhor sentimos a afeição de todos aqueles que repartem connosco as suas palavras e esperam de nós, uma susceptibilidade idêntica de sensibilidade e porque não dizê-lo, de ternura.
É na ausência que, sentimos afinal, a saudade… nossa e dos outros.
Confesso, que foram estes os pensamentos que se apoderaram de mim, quando abri o correio electrónico ao qual não tenho conseguido aceder, por motivos pessoais e familiares mas, a que também não é alheio, o programa Vista do meu novo pc diário…
A propósito do post anterior, uma comentadora atenta (Ana Cunha), muito simpaticamente alertou-me, para a possibilidade de não me ter apercebido, de que o blogue

Memórias Vivas e Reais, me tinha atribuído o Anel da Amizade, já que não tinha ainda referido essa atribuição no Menina Marota.
Sensibilizada, agradeço à Ana Cunha a preocupação em me alertar para tal facto e ao Pena pela sua simpatia, ao referir este blogue.
E porque de Amizade se trata esta nomeação, seria impossível cumprir as normas da atribuição, pelo que dedico este Anel de Amizade a TODOS os que me têm acompanhado neste percurso blogosférico, com tanta dedicação e sensibilidade.



Anel da Amizade

E porque Natal é nascimento, quero aqui deixar um cumprimento muito especial a uma futura Avó de Gémeos, que se encontra tão enternecida com o facto, que praticamente deixou o mundo internáutico de que tanto gosta, para se dedicar quase exclusivamente, a fazer o enxoval (em duplicado) dos seus primeiros netos, a quem dedicou mesmo antes de nascerem, o poema que carinhosamente lhe “roubei”...

Imagem Menina Marota


Mãe
Escuta a brisa que meu ventre abre
Na terra dos sonhos o canto das pequeninas coisas
De braços estendidos o enlevo do sorriso que as afaga
Aquele murmurejar de água soletrando o rio
Plácido

Mãe
Sente os dois mundos que em mim trago
Saboreando o néctar das coisas invisíveis e cândidas
Entre a música e a leveza da dança
No balanço certo das outonais cores
Em folhas irisadas e suaves

Seis meses, mãe, são caminhados
Na voz das pequeninas coisas
Sob o azul da luz e o verde dos laços

Poema "As pequeninas coisas" da Amita


Ouvir o poema na voz de
Luís Gaspar
(desligar a música de fundo, p.f)

terça-feira, dezembro 04, 2007

Prémio

A minha admiração por Graça Pires é muito anterior à criação dos meus blogues. 
Descobri a sua poesia em 1991 quando, por altura do meu aniversário, me ofertaram um livro de poemas de sua autoria. 
A partir daí não perdi o seu percurso poético e quando casualmente encontrei o seu blogue, fiquei deveras satisfeita por isso, porque poderia "in loco", apreciar a sua obra.


Foi com um misto de ternura e satisfação que aceitei o prémio que ela teve a gentileza de me dedicar. Partilho-o segundo as normas do regulamento...


 Regulamento:

Eis os parâmetros inerentes à condição:
1. Este prémio deve ser atribuído aos blogs que consideras serem bons, entende-se como bom os blogs que costumas visitar regularmente e onde deixas comentários.
2. Só e somente se recebeste o prémio “Diz que até não é um mau blog”,deves escrever um post:- Indicando a pessoa que te deu o prémio com um link para o respectivo blog;
- A tag do prémio;
- As regras;
- E a indicação de outros 7 blogs para receberem o prémio.
3. Deves exibir orgulhosamente a tag do prémio no teu blog, de preferência com um link para o post em que falas dele.

Indico os seguintes blogs:

Alba
Casario do Ginjal
Da Praia da Granja
Maria Clarinda
Odele Souza
Porosidade Etérea
Rosamármore



Imagem de Michael Norman


De Novembro



Vem de Novembro

esta seiva impetuosa,
onde as raízes da utopia
se perpetuam no sangue,
como um percurso alienado.

Um outono de sede
no interior descuidado das mimosas,
a semente e o parto
das amoras doces,
um carnaval cinzelado
no limite de um balão de vidro.

É noite de morrer
para adiar a vida,
noite polar
à medida da náusea
do que se aceita e recusa,
antinomia do vazio das mãos.

Vem de Novembro
a forma antecipada do prazer
e, por isso, todos os lugares são verdes.

De mãos erguidas
junto das nascentes,
convoco o inacessível
e construo os cenários
da infância que não tive.

Agora vou ser livre
de percorrer o vento
em linha recta,
de receber os afagos
às mãos cheias,
de pintar em todas as paredes
as bonecas de trapos que não fiz.

Agora posso marcar
um percurso feliz
no caminho que leva
à outra margem,
ou fabricar um enredo
onde a minha imagem,
petrificada e bela,
seja sempre o reflexo
do crepúsculo que se extingue.

depois, a vida há-de mover-se
como um vendaval inesperado,
mas nada toldará a limpidez
das lágrimas e da noite,
no ritual quotidiano de estar só.


Poema de Graça Pires 




O Palavras de Ouro 112 dedicado à poesia de Graça Pires, poderá ser ouvido aqui e ainda o poema deste texto, ambos na voz de Luís Gaspar - aqui 

(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

terça-feira, novembro 20, 2007

"O piano de cauda das estrelas"...

Imagem Google


O piano de cauda das estrelas
tem raízes na música dos lagos.
Amar é a arte da música
num corpo moribundo. Morre-se
de um pequeno átomo de ansiedade e isso
é uma regra do jogo; só assim a morte andará descalça como
uma violeta pelos jardins da noite; só assim
nos restará a morte antes do fim.
O fruto do coração é pouco, semelhante à mágoa.
Olhar é uma página. Percorre-a a consciência de quando
não acontece nada. É preciso duvidar semeando limites
para ser-se ilimitado -- eis quando será legítimo enganar
os deuses. Maior que a montanha é
a gota de orvalho; maior que o sol é o movimento
da sombra. Os pássaros
não acontecem: vivem-se. É tarde
para inscrever o discurso da alegria
nas estruturas do ar?

(Joaquim Pessoa in "O livro da Noite")