segunda-feira, maio 07, 2007



Em mês de aniversário deste blogue cuja inauguração aconteceu, precisamente neste dia... quero agradecer a todos os que por aqui passam deixando um pouco de si, com os seus comentários e afectos.

Alguém me chamava a atenção um dia deste, que o contador acusava a entrada de 120 000 visitantes, sem que tivesse sido referido o facto e porque não usava este blogue, o famoso "site meter" para saber quem eram os visitantes...

A verdade é que, é muito mais importante para mim, a partilha que comungo, os afectos que dedico e me dedicam, que os números do contador e até do tal "site meter", que nunca tive nem terei, neste ou noutros blogues, por uma questão muito simples: a minha ligação aos blogues, está mais na partilha que faço, do que na preocupação de saber, quem entra ou sai.

Mas hoje e para satisfazer o meu prezado amigo que se assina J.N (não quer que divulgue o seu nome e respeito isso) que quer saber, quantas postagens tenho ao longo deste blogue, direi que em 24 meses, 240 postagens é mais que suficiente para me deixar muito feliz pela partilha que aqui consegui, não obstante os interregnos que tenho feito pelo meio.

Já por diversas vezes tenho partilhado, aquilo que por vezes me vão deixando despretensiosamente nos comentários, mas que engloba num todo, todo o carinho que sinto, vindo daqueles que por cá passam.

Partilho hoje um poema que foi “construído”, tendo por base palavras minhas e que foi deixado, anonimamente, num comentário.

Ao seu autor, os meus agradecimentos.

O meu abraço e o meu grande afecto e a todos dedico, estes dois anos de vida do Menina Marota…


Pintura de Washington Maguetas

Oh, meu Amor, nas noites de insónia..É vão o teu desejo, quente, do meu beijo...e, igualmente vão o desejo,de eu ficar indiferente, ao chamamento,
ardente do coração!Calada, magoada...os sentimentos em turbilhão...
O nosso amor, jamais esquecido,o meu amor...o teu amor, nesta teia que nos une...Nos funde e confunde ...
Foi doçura, é plenitude.Amadureceu...Foi loucura. É loucura!O (re)encontro de um "EU"
Frenético, tantas vezes patético,alucinante!... delirante...Soube há aragem, algo selvagem,de pinheiros, agrestes, da selva...
À brisa do mar, à seiva das plantas...À velocidade da distância, ao lugar...que percorreste sem pensar...Sem saber... que existia, sequer!
Esquecer-te? Não ouso!Esqueceres-me? Jamais!...Jamais será possível!Quem ama não esquece!...
Reconhece...
O homem do espelho... à noite, ao luar!

Quer queiras ou não, a verdade aparece...Viverás na saudade de - de nós...
Um Amor feito de palavras,de nós, e amarras,de sons... de doces afagos, nos gestos vagos...parados, na ética imposta ...
E...
Do meu olhar, de negrume,no teu olhar...maresia.. perfume.De corpos suados, de tão desejados...de beijos molhados...calados... não dados.
Do teu corpo, em pensamentos,dentro do meu... colado!Fundido... Um só.
Sexto sentido..
(Re)encontrado de si...
De vidas passadas... de outros momentos.
Esquecer-te não será fácil. Não ouso tentar!Esqueceres-me também não! Não queres ...
E, sempre que a luz do poente,vermelha se acender, lá longe no final do dia,vais pensar que sou eu, (e sou)...Porque o teu coração, conhece...quer queiras ou não, aquele que ama ...
Lembrará sempre, o encantamento,desta paixão, e de cada momento,de um Amor que foi teu!...Que jamais se perdeu...
Porque habita para além do Céu....
Na Montanha mais alta da convicção.

(Sinfonia a Quatro Mãos)
Autores: MM e anónimo


Adaptação do poema… e por falar de Amor…(As cores correspondem a cada autoria…)

sábado, maio 05, 2007

Apetece...


Fotografia de Howard Schatz


apetece por vezes com os dias morrer por um pequeno
instante e deixar os fogos soltos na areia. acrescentar
água à face e perturbar os sentidos em busca da única
luz ou então sentir os movimentos e escrever a uma

amiga. dizer assim como quem fala: que espécie rara
de deus é o teu? a vida é ficar abraçado às dunas
apenas se há dois braços de areia por quem sonhar.

vir então aos poucos contando os mastros do verão
cumprindo o desejo das cartas de mar e assim mesmo
confundir todos os relógios da rota apenas para ter

mais tempo para ficar. o resto é saber o alfabeto de
cor até ao fim para que as palavras vão nascendo
devagar até ser sonho no sono dos dias ou ser sono
dentro de mim

(Poema de João Luís Barreto Guimarães)

terça-feira, maio 01, 2007

E no olhar jorra a alma do Poeta...

Apesar da chuva torrencial que se fez sentir durante toda a viagem, o sol brilhava quando cheguei ao meu destino, como que a dar-me as boas vinda, feliz com o meu encontro com a Helena Domingues .

O encontro com o Poeta, foi algo que não mais vou esquecer. O brilho do seu olhar, realçado pela brancura cor de neve dos cabelos, só era realmente ultrapassado, pelo sorriso e pela forma carinhosa como nos recebeu e falou da sua obra.

Fomos surpreendidas pela chegada de Eugénio Montejo, um dos principais poetas venezuelanos de finais do século XX, que animou ainda mais o Poeta.

Foi vê-lo a ler e explicar a sua poesia de olhos brilhantes, com uma mente assaz lúcida e uma memória incrível. De um humor fino, galanteador, foi uma estrela que brilhou durante a tarde, com a alegria expressa no rosto, enquanto lia poesia com voz suave ou nos mostrava os desenhos que fez questão de oferecer amavelmente, a cada um de nós.

António Ramos Rosa, com toda a simplicidade, falou-nos do que achava da política actual, dos seus poemas, dos escritores que o influenciaram, da ajuda que gostava de dar às jovens editoras, do relacionamento com o mundo exterior...

Uma tarde, em que a alegria e a boa disposição imperaram e na hora da despedida, fez-nos prometer que voltaríamos.

Até um dia destes, Poeta…








O teu canto vem da raiz das lágrimas
e embora plangente é uma coluna de ouro
que reúne o fogo e a água
e respira o azul do céu
propagando a alma do desejo e a sua luz submersa

Arde porque atinge a altura viva
e treme na sua nudez como uma estrela
adolescente
que descobre ascendendo a sua trémula fidelidade
e um misterioso centro onde as ondas são asas
e as sombras levantam as mãos para o puro espaço
da correspondência visível a um coração imerso
na invisível matéria sob uma chuva errante
que reúne as idades entre o meio-dia e a meia-noite
numa profunda rosa ou numa lua selvagem
que exala o odor dos antiquíssimos segredos de
um reino submerso



Poema de António Ramos Rosa


António Ramos Rosa e MM


domingo, abril 29, 2007

Momentos...

  
Está a fazer um ano que a Rita me entrou em casa, ao colo de uma amiga que a tinha trazido directa do Azeitão para este local do litoral nortenho, assustada, carente, maltratada.

Confesso, que me apaixonei de imediato por ela. Aliás, acho que nos apaixonámos uma pela outra. A Rita saltou-me para o colo e não deixou que mais ninguém lhe tocasse. Pouco mais de um quilo pesava e desaparecia completamente nos meus braços, apesar dos seus oito anos de idade.

Fiquei estarrecida ao perceber que fizera aquela viagem e que a tinham oferecido, por não a quererem mais. E lembro-me de ter pensado, "como é possível, alguém querer livrar-se de um animal que esteve consigo durante oito anos?"

Mas a Rita tinha sido oferecida à minha amiga e foi a custo que a tirei dos meus braços, para os braços dela. Não dormi a noite toda a pensar o que estaria ela a sentir (sim, porque os animais também sentem, apesar de muita gente pensar o contrário…) fora do local e das pessoas com quem tinha convivido durante tanto tempo.

Quis o destino que a minha amiga tivesse planeado uma viagem ao Algarve, aproveitando o feriado do 1º de Maio e perguntou-me se eu podia ficar com a Rita enquanto a viagem durasse. Exultei de alegria. Nos dias que se sucederam, a Rita foi a princesa aqui de casa e ela correspondeu com uma doçura tamanha, que até o Sting não se importou de me partilhar com ela. Obediente, dócil, fazia as delicias de quem a via. Até um novo corte de “cabelo” deixou que lhe fizessem, já que o seu aspecto descuidado me mereceu um tratamento super especial.

Quando o telefone tocou, a avisarem-me de que as mini-férias tinham terminado, o meu coração apertou-se. Não a deixei ir nesse dia. Não fui capaz. Mas quando a levei à sua nova casa, foi com lágrimas nos olhos que saí de lá. Acabei por não dormir outra noite. O Sting, com uma imensa tristeza, olhava para a camita da Rita vazia e, choramingava.

Também ele sentia saudades da miniatura, como carinhosamente lhe chamávamos.

Já tarde adormeci, por isso quando o telefone tocou, manhã cedo, dei um salto da cama e corri a atender com um ligeiro pressentimento, quando do outro lado, a voz preocupada da minha amiga, dizia-me que a Rita não estava bem, não tinha comido e tinha chorado a noite toda e perguntava-me o que lhe teria acontecido.

Num ápice, estava na estrada, a galgar os quilómetros que me levaram a um encontro que, ainda hoje, me comove a recordar. A Rita mal me viu, mudou por completo. E quando me baixei para lhe pegar, "lavou-me" literalmente o rosto, aninhando-se no meu colo e não deixou que mais ninguém lhe tocasse.

Bem… a resposta estava ali. A Rita tinha-me escolhido para ser a sua nova dona e assim o entendeu a minha amiga.

Hoje a Rita, tão diferente do dia que aqui chegou pela primeira vez, é uma menina cheia de mimo e que manda no Sting sem cerimónias.

Ele por sua vez, não se importa de partilhar o açafate dos brinquedos com ela, nem os mimos que vou distribuindo a ambos, com todo o carinho que eles merecem.


Esta é a história da Rita e do amor que me une a ela…


quinta-feira, abril 26, 2007

Aqui...

Óleo de Mieke Chantrel


Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.

A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.

Por isso na orla morena da praia calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.

Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.

Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.



Fernando Pessoa in “Obras completas”- pág. 115