sábado, dezembro 16, 2006

O Natal...

...na minha infância e juventude foi para mim momento de grandes alegrias.
Era a altura de rever familiares, que pelos seus afazeres profissionais, não via durante o resto do ano.
Com o tempo, muitos desses familiares foram desaparecendo: Avós, Pais e muitos dos meus Tios mais velhos, por quem tinha uma afinidade imensa.
Ao vaguear por este "mundo" imenso que é a blogosfera, o sentimento de perda que acalento, veio ao de cima ao ler este texto, que aqui quero partilhar, nesta época natalícia…


Querido Filho.


-No dia em que esteja velho e já não seja eu, tem paciência e tenta entender-me.
-Quando, todos comem e eu não conseguir; quando não puder vestir-me: tem paciência. Recorda as horas que passei a ensinar-te.
-Se, quando falar contigo, repetir as mesmas coisas mil e uma vez, não me interrompas e escuta-me.
-Quando eras pequeno, na hora de dormir, eu tinha de te explicar mil vezes o mesmo conto repetidamente até teres sono.
-Não me envergonhes quando não quiser tomar banho, nem me ralhes. Recorda quando tinha de andar atrás de ti e as mil escusas que inventavas para não tomares banho.
-Quando vires a minha ignorância diante das novas tecnologias, e te pedir que me dês todo o tempo necessário, não me irrites com o teu sorriso amarelo.
-Eu ensinei-te a fazer tantas coisas... Comer bem, vestir-te... e como enfrentar a vida.
-Muitas coisas são produto do esforço e perseverança dos dois.
-Quando em algum momento perder a memória ou o fio à nossa conversa, dá-me o tempo necessário para me recordar. E se não puder fazê-lo não te enerves, seguramente o mais importante não era a minha conversa: a única coisa que queria era estar contigo e que me ouvisses.
-Se alguma vez não quiser comer, não me obrigues. Sabes bem quando necessito e quando não.
-Quando os meus membros cansados não me deixarem caminhar...dá-me a tua mão amiga da mesma maneira que eu ta dei, quando tu começavas a dar os teus primeiros passos.
-E quando algum dia te disser que já não quero viver, que quero morrer, não te enfades. Um dia entenderás que isso não tem nada a ver contigo, nem com o teu amor, nem com o meu.
-Tenta entender que na minha idade já não é viver mas sobreviver.
-Um dia descobrirás que, apesar dos meus erros, sempre desejei o melhor para ti e sempre tentei preparar o caminho que tu havias de fazer.
-Não te deves sentir triste, enfadado ou impotente por me veres desta maneira. Fica ao meu lado, tenta entender-me e ajuda-me como eu te fiz quando tu estavas a começar a viver.
-Agora, toca-te a ti acompanhar-me no meu frouxo caminhar. Ajuda-me a acabar o meu caminho, com amor e paciência. Eu te pagarei com um sorriso e com imenso amor que sempre tive por ti.
Amo-te, filho.
O teu pai, a tua mãe, os teus avós...

«In memoriam». Todos recordam os pais e os avós de toda a gente.

(Texto e imagem de
Ceolino)





FELIZ NATAL

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Lugar aos Outros

Tenho referido por variadíssimas vezes o gosto que é para mim, partilhar as palavras de outros, muito mais do que as minhas própria palavras.
Tendo estado na “clandestinidade” durante algum tempo, o
Poesia Portuguesa é um blogue que acarinho desde o início em que o projectei, como forma de divulgar a poesia em língua portuguesa, que ia lendo na blogosfera.
Encontrei uma forma poderosa de aliança no gosto pela poesia, através do
Estúdio Raposa onde o Luís Gaspar já há muito, através da sua voz ou da Truca, no seu Palavras d'Ouro partilha o gosto pela poesia, levando-me a que assumisse de uma vez por todas o meu Poesia Portuguesa.
No Lugar aos Outros nº. 31, Luís Gaspar deu-me o grato privilégio de incluir poemas da Menina Marota no seu reportório, bem como a poesia da Fanny e de Maria João Silva e ainda na rubrica Poema Vadio, António Gedeão e a sua Lágrima de Preta…
É por momentos destes que a minha alma se alegra. É assim que eu vivo a Poesia.
Pela partilha, pelo empenho, por oferecermos as nossas palavras àqueles a quem elas possam dar, um significado verdadeiramente poético.

A forma desinteressada e altruísta como
Luís Gaspar partilha com todos, o seu dom de locutor de publicidade e os meios de que dispõe no seu Estúdio, para nos oferecer magnificas interpretações, é de louvar e só posso aqui tornar pública, a minha grande admiração e todo o meu afecto por ele e dizer-lhe o quão grata lhe estou, por toda a sua imensa partilha.




OBRIGADA

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Falar de mim

Nunca falas de ti, dizia-me alguém um dia destes, a propósito de um comentário que deixara na sua página.
Sorri. Tinha lido a mesma frase, momentos antes… “nada sei de ti” e "na minha página está toda a minha biografia"...
A Rita, a minha pequenina yorkshire-terrier mas já com oito anitos, coloca-se à frente do visor e olha-me meigamente. Este é o seu local preferido; deitada na secretária, mesmo à frente do ecrã, de olhos postos em mim.
Encosto-me para trás e enquanto os meus dedos afagam a Rita (um dia contarei a sua história) penso naquilo que tenho escrito ao longo deste ano, numa página que é quase um diário íntimo. Sim, porque eu estou aqui de corpo e alma, uma mulher que cresceu, que amadureceu, mas não deixou morrer em si, a alma de menina marota que sempre teve.
Mas não se iludam.
O marota não é naquele sentido, que muitos ajuízam “per se” e que por vezes leva a que reajam negativamente e maldosamente àquilo que escrevo.
Acredito no amor. Na beleza do amor. Em todas as suas variantes. Sempre gostei em menina, de ler estórias de amor. Mas muitas delas acabavam em dor e sempre desejei que comigo fosse diferente. Nunca ninguém me avisou, que o Amor poderia magoar e desiludir imenso, mas isso não retirou de mim, a vontade de continuar a ser a menina marota, a quem o meu Avô, chamava carinhosamente de “passarinho saltitante”, porque sempre fora uma criança cheia de energia, nunca parava quieta, aos saltinhos por todo o lado; era bastante feminina, segundo diziam, mas com a dose certa de rebeldia, nunca negando um desafio que me lançassem.
Naquele dia, de férias em casa de meu Avô, enquanto os meus Pais em afazeres profissionais se tinham ausentado, sentia-me livre como um passarinho, percorrendo aqueles campos com as minhas duas melhores amigas.
Perto de casa corria um ribeiro que nos era proibido atravessar, pelo perigo que poderia ser, quando ia cheio, como naquela altura do ano.
Do outro lado, um grupo de miúdos, desafiava-nos para atravessar o local.
Alguns pedregulhos no ribeiro, tornava a travessia possível, mas só os adultos a faziam.
Perante as nossas negativas, os miúdos começaram a chamar-nos “mariquinhas” e todo aquele rol de palavras tão comum na rapaziada.
O orgulho feminino começou a crescer em mim e mesmo perante os pedidos das minhas amigas para que o não fizesse, decidi-me a atravessar o ribeiro.
Descalcei-me e em meias preparei-me para atravessar, apanhando um varapau que por lá vi caído, para apoio e não só…
Não foi fácil a travessia, até porque os pedregulhos eram escorregadios, mas por entre os gritos de pavor das minhas amigas e dos de desafio dos rapazes, lá me aguentei, não querendo que o meu orgulho fosse por água abaixo.
E não é que consegui atravessar?
Ah meus amigos e com que prazer corri atrás dos moçoilos, para os desancar pelas palavras feias e “ofensivas” que nos tinham chamado. A nossa honra foi defendida: afinal não éramos nenhumas “mariquinhas”…
Claro que os miúdos desandaram logo e eu vi-me com o problema do regresso, que foi conseguido gloriosamente.
No final, as meias estavam tão sujas e molhadas que as descalcei, acabando por ir para casa descalça, de sapatos na mão, mas de sorriso vitorioso nos lábios…

Imagem de Pierside Gallery


Hoje recordei este momento…
Os desafios da Vida… quantos já não foram ultrapassados?

Um beijo e bom feriado…

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Abraçando as palavras

Desde que descobri o mundo da Internet há aproximadamente vinte anos (uma vida!), muita coisa aconteceu no mundo e na minha vida. Umas boas, outras más.
Descobrir o mundo ilimitado da net, deu-me perspectivas e conhecimentos que, de outra forma só obteria com o tempo.
Numa tarde posso entrar num vasto mundo de diferentes culturas.
Durante muitos anos e na minha própria adolescência vi de "longe” alguns escritores e poetas que admirava.
Lembro-me, nos meus treze catorze anos, estando de férias com os meus Pais, tive oportunidade de no Rio de Janeiro assistir pela primeira vez a uma palestra seguida de uma sessão de autógrafos de Jorge Amado. Os meus Pais eram grandes admiradores da sua obra e, por casualidade, a palestra acontecia no próprio hotel onde nos hospedávamos pelo que não perderam a oportunidade de o reencontrar e, acima de tudo, que eu começasse a sentir de perto aqueles acontecimentos.
Recordo, comovida ainda, quando Jorge Amado com aquele sorriso que o caracterizava, me perguntou o nome para o escrever no livro que lhe apresentara “Gabriela, cravo e canela”. Emudeci. Foi meu Pai que lhe respondeu porque não consegui falar, tal a comoção que se apoderou de mim.
Actualmente navegar e visitar blogues de poetas é uma coisa tão normal como ligar o próprio computador.
E aqueles nomes que até há pouco tempo só via em capa de livros numa qualquer livraria estão actualmente à distância de um clique.
Presentemente, à tal distância de que falava, posso encontrar num blogue de denominação tão simples, como por exemplo o
A a Z de Nuno Júdice que, com a maior simplicidade, partilha a sua poesia num blogue de comentários abertos.
Vem esta “conversa” a propósito de, no poema anterior, tendo como mote um poema de
João Batista do Lago deixado em comentário no Portal de Mhário Lincoln do Brasil e que resolvi partilhar no post anterior, se deslocar a esta minha “casa” dedicando-me com toda a simplicidade este poema:

Frutação
(Para Otília Martel, Menina Marota.)
Por João Batista do Lago

Sinto que a árvore plantada no meu coração,
Não flora mais em espinhos da juventude.
Hoje, frondosa, consciente e voluptuosa,
Cobre de boa safra a superfície do meu chão.
São tão doces estes frutos em nascediço,
Que não tenho direito de os ter só para eu.
É preciso distribuí-los a todos em morrediço,
Para salvar o demos da miséria e da corrupção.
..........
São frutos de amores densos de canção,
Que singram mares e se vão plantar
Nos pomares de sentimento e de paixão.

"Partilha" óleo sobre tela de Nela Vicente

Estes são momentos únicos.

Aqueles que são os nossos ídolos deixam o seu pedestal e vêm ao nosso encontro abraçando-nos!

O meu abraço para si, João Batista do Lago