quarta-feira, maio 10, 2006

O Gato...

Em homenagem ao meu Gato Tareco, que está desaparecido...
Óleo de Sandra Bierman


Vem cá, meu gato, aqui no meu regaço;
Guarda essas garras devagar,
E nos teus belos olhos de ágata e aço
Deixa-me aos poucos mergulhar.

Quando meus dedos cobrem de carícias
Tua cabeça e o dócil torso,
E minha mão se embriaga nas delícias

De afagar-te o eléctrico dorso,
Em sonho a vejo. Seu olhar, profundo
Como o teu, amável felino,
Qual dardo dilacera e fere fundo,

E, dos pés à cabeça, um fino
Ar subtil, um perfume que envenena
Envolvem-lhe a carne morena.


Poema de Charles Baudelaire
(Trad. de Ivan Junqueira)


O Tareco...Procura-se...

segunda-feira, maio 08, 2006

O canto do melro...


O sol entra esplendoroso pela janela envidraçada do meu quarto, dando um tom misterioso ao aposento… afasto o lençol e deixo-me estar assim quieta.
Uma verdadeira sinfonia entoa através da clarabóia aberta, produzindo em mim um efeito maravilhoso.
De um salto, corro a abrir as portadas do terraço e descalça, percorro o espaço e deito-me na cadeira de repouso.
O trinado do melro continua muito mais alto, que qualquer outro.
Parece que ele percebeu que estou ali para o ouvir…De repente, atrevido, pula de telha em telha e, aproxima-se do beiral.
Eu continuo quieta. A cor clara do meu pijamita, parece chamar-lhe a atenção. Ou seriam as minhas pernas nuas? Ele deixa-se estar a cantar para mim. E eu deixo-me estar, a ouvi-lo.
O sol continua a sua rotação, embalada pelos trinados, divago nos meus pensamentos.
A calma do amanhecer liberta os meus sentidos e revejo-me como num filme a cores… o passado já não me dói… o presente apesar de tudo sorri-me, e o futuro está ali, no prazer de apreciar as pequenas coisas que a vida me proporciona.
Um poema, que li recentemente povoa o meu espírito…



“Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só a metade
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado
O logro da aventura
És Homem, não te esqueças!
Só é a tua loucura
Onde, com lucidez, te reconheças."


Poema de Miguel Torga

É hora de recomeçar o dia a dia… sorrio para o melro, que levanta voo, como percebendo que tinha cumprido a sua missão…serenando o meu espírito…corro liberta, sentindo-me feliz…

(memórias minhas...)

domingo, maio 07, 2006

Só por isso, Mãe...

 
 
Neste Dia... a todas as Mães...

Gustav Klimt

 
Mesmo que a noite esteja escura,
Ou por isso,
Quero acender a minha estrela.
Mesmo que o mar esteja morto,
Ou por isso,
Quero enfunar a minha vela.
Mesmo que a vida esteja nua,
Ou por isso,
Quero vestir-lhe o meu poema.
Só porque tu existes,
Vale a pena!

(Frei Lopes Morgado in Mulher Mãe)

sábado, maio 06, 2006

Neste mundo de magia…

Brevemente fará um ano o EternamenteMenina.
Um Blog que alimentei com carinho, mas que me é impossível continuar a manter e permanecerá para memória futura…
É desse meu “refúgio” que partilharei convosco algumas das minhas “loucuras”…



 


No beiral da vida, docemente,
debruço, às vezes serena, 

o meu olhar,
para no meio do sol poente
ver o Mundo por mim passar.

Já fui menina e moça

 e ergo, contente,
os meus olhos castanhos para o ar
e, ao clarão do luar adolescente,
como todos, 

um dia aprendi também a amar.

E fui princesa 

de sonhos estonteantes,
heroína de mil baladas 
e poemas, 
nos braços do meu cavaleiro andante
descobri os prazeres de ser terrena.

Desfolha-se na areia mais um dia:
uma dor, uma esperança, 

uma alegria.
O dia morre. 

Uma saudade vem
na magia que este Mundo tem.



(memórias minhas...)

terça-feira, maio 02, 2006

A arte de ser feliz...


Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Às vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

(Cecília Meireles)

No dia do primeiro aniversário desta "casa", tenho uma palavra a dizer a todos, porque são a razão da minha existência aqui…
Obrigada