quarta-feira, novembro 30, 2005

A minha alma em tons de azul




Soltar os sentimentos, é uma forma
de nos darmos a conhecer,
de extravasar ideias,
comungar pensamentos,
diluir a alma.

Não fujas da realidade,
do sol,
da vida,
da palavra oferecida.

Vem...
traz a beleza que encerras
dentro do teu pensamento,
dentro do teu coração.

Vem...
dá-me a tua mão,
e recebe de mim
o coração,
alegria,
paz,
verdade
e paixão.

Entrega-te
serenamente,
comunga
teus pensamentos,
traz magia
onde só existe
solidão.

E,
recebe na palma da tua mão,
um coração aberto à ilusão.

Vem...



(Memórias minhas...)

sábado, novembro 26, 2005

Um Sonho...





Na messe, que enlourece, estremece a quermesse...
O sol, o celestial girassol, esmorece...
E as cantilenas de serenos sons amenos
Fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves.

Flor! enquanto na messe estremece a quermesse
E o sol, o celestial girassol esmorece,
Deixemos estes sons tão serenos e amenos,
Fujamos, Flor! à flor destes floridos fenos...

Soam vesperais as Vésperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Como aqui se está bem! Além freme a quermesse...
– Não sentes um gemer dolente que esmorece?
São os amantes delirantes que em amenos

Beijos se beijam, Flor! à flor dos frescos fenos...


(Excerto de "Um Sonho", Poema de Eugénio de Castro)

sexta-feira, novembro 25, 2005

Memórias de mim...


Wassily Kandinsky

A música é algo que me completa.

Há temas musicais que lidam comigo, muito melhor que certas pessoas e, me devolvem muito daquilo que o meu corpo e espírito, necessitam.

Vem isto a propósito, uma cena que presenciei há dias, junto à Igreja do Carmo, na minha já habitual passagem diária.

Um casal de jovens encontrava-se sentado nos degraus da Igreja; mochilas pousadas no chão, estojo de um instrumento musical pousado ao lado.

Chamou-me a atenção pela forma curiosa que olhavam cada um que passava.

Continuei o meu caminho mas ao chegar à curva um som fez-me parar.

Por instantes, detive-me a ouvir de que local viria o som, até que compreendi que vinha do jovem casal, que já não visualizava, na curva da Igreja.

Voltei atrás e fiquei ali. Não conhecia a música, nem me lembro de a ter ouvido alguma vez, mas a sua harmonia, percorreu todas as células do meu corpo.

E ficámos ali.

Ele a tocar. Ela a olhá-lo, carinhosamente.

E eu encostada à parede a ouvi-lo tocar...

Não sei quanto tempo passou mas a música chegava a comover.

Fechei os olhos e deixei-me estar ali esquecida de tudo.

Quando a música parou, olhei em volta: dois estudantes de arte, sentados no chão, desenhavam o jovem tocador; a jovem sorria timidamente; retribui-lhe o sorriso e segui o meu caminho.

Há momentos mágicos que nunca poderão ser transcritos completamente.

Naquele dia vivi um desses momentos.


Imagem Google
(memórias minhas...)

segunda-feira, novembro 21, 2005

Passeando por aí...

Há dias, como o de hoje, cinzento e triste, em que me apetece “viajar”, por este mundo virtual, tendo por companhia somente a música tocando baixinho…e a leitura.
De passagem por uma “casa” onde as imagens e os textos, são um alimento da alma, descobri uma preciosidade…
Deixo-a aqui, para todos vós…

Sol do meio dia... in  Annie Hall 


O dinheiro é tão bonito,
Tão bonito, o maganão!
Tem tanta graça, o maldito,
Tem tanto chiste, o ladrão!
O falar, fala de um modo...
Todo ele, aquele todo...
E elas acham-no tão guapo!
Velhinha ou moça que veja,
Por mais esquiva que seja,
Tlim!
Papo.

E a cegueira da justiça
Como ele a tira num ai!
Sem lhe tocar com a pinça;
É só dizer-lhe: «Aí vai...»
Operação melindrosa,
Que não é lá qualquer coisa;
Catarata, tome conta!
Pois não faz mais do que isto,
Diz-me um juiz que o tem visto:
Tlim!
Pronta.

Nessas espécies de exames
Que a gente faz em rapaz,
São milagres aos enxames
O que aquele demo faz!
Sem saber nem patavina
De gramática latina,
Quer-se um rapaz dali fora?
Vai ele com tais falinhas,
Tais gaifonas, tais coisinhas...
Tlim!
Ora...

Aquela fisionomia
É lábia que o demo tem!
Mas numa secretaria
Aí é que é vê-lo bem!
Quando ele de grande gala,
Entra o ministro na sala,
Aproveita a ocasião:
«Conhece este amigo antigo?»
- Oh, meu tão antigo amigo!
(Tlim!)
Pois não!

(Poema "O Dinheiro" de João de Deus)
Imagem e Poema recolhidos no Blog Outsider da
Annie Hall

sexta-feira, novembro 18, 2005

Aproveitar o tempo...


Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha...
O trabalho honesto e superior...
O trabalho à Virgílio, à Milton...
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos — nem mais nem menos —
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)...
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil..
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos —
Imagens da vida, imagens das vidas, imagens da Vida.

Verbalismo...
Sim, verbalismo...
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça...
Não ter um acto indefinido nem factício...
Não ter um movimento desconforme com propósitos...
Boas maneiras da alma...
Elegância de persistir...
Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

(Passageira que viajavas tantas vezes no mesmo compartimento comigo
No comboio suburbano,
Chegaste a interessar-te por mim?
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter?
Qual foi a vida que houve nisto? Que foi isto a vida?)

Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,

O regato casual das chuvas que vão acabando,
O vinco deixado na estrada pelas rochas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.


"Apostila" de Álvaro de Campos
in
Todos os Poemas de Fernando Pessoa,
a págs 383 a 384