terça-feira, novembro 01, 2005

"Até a ti, na espera de nós"...


há mulheres na nossa vida como sítios
ancoradouros que estão lá
e nós sabemos
como casas, azimutes, orientes
como castelos distantes que indicassem
os caminhos que nunca conhecemos
ou quando
cansados da refrega
precisamos de mudar a cor do ar
vestir a vida
partir, fazer asneiras, perder noites...

- nem eu próprio sei como dizer-vos...

talvez cumprir um ritual de chegar
e de sentir
um momento sem passado nem presente
com alguém que confiamos e estimamos
com alguém que confirmamos e
 entendemos como a própria estrada de existir
 como quem nunca sequer estivesse ausente

não serão nunca
nem esposas nem amantes
serão amigas no peito
o que é diferente

a espaços são carinho e são lição ensinam a ternura
noutra dimensão
talvez grande e bastante, ou talvez não... (...)
Mas deixem-me acabar:
amiga assim
tanto como sei dizer
também é fogo
também nos é verdade

e também arde

(Excerto Poema de Pedro Barroso in "Das Mulheres e do Mundo" )
(Tema musical de Pedro Barroso: Em nome do feitiço acontecido in "Crónicas da Violentíssima Ternura")


 Imagem daqui


domingo, outubro 30, 2005

O Beijo...


Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.

Donde teria vindo! (não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo?

É uma ave estranha colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.

E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...


Alexandre O'Neill in, O Beijo

Um beijo, num bom domingo para todos...



(Pintura de The Kiss,  Gustav Klimt)

quinta-feira, outubro 27, 2005

Momentos...

Imagem de Eveline Weil

Ao abrir a gaveta, (re) descobri aquelas peças. Lembro-me que as comprei para te deslumbrar... Toquei em cada peça com o carinho com que me tocavas.
Espalhei-as em cima da cama relembrando cada pormenor daquele dia.
Sorrio recordando a expressão do teu rosto ao tocares nas ligas…
– Como se tira isto?
– Não sei. Descobre tu!E tu foste descobrindo, em cada beijo que me deixavas no corpo, em cada toque das tuas mãos mágicas.
Retiraste com cuidado a primeira liga, enquanto a meia descia como cetim na minha perna macia, arrastando o teu beijo perna acima.
Um frémito percorre o meu corpo. A suavidade dos teus lábios põe-me louca. De repente, enlaças-me completamente e olhas-me nos olhos.
- Amo-te como nunca amei outra mulher.E eu acreditei. Acreditava sempre.
Entreguei-me a ti, esquecendo tudo, vivendo aquele momento.
Um latido, sobressaltou-nos…
Esquecemo-nos completamente do pequeno cachorro que, dentro do sapato, roía os atacadores.
- Deixa-o estar. Ele está com ciúmes.Rimo-nos.
Voltámos a esquecer o cachorro.
Hoje a tua cama é outra...
Guardo lentamente cada peça....

O cachorro cresceu.
Já não cabe dentro do sapato...




(Memórias minhas)

domingo, outubro 23, 2005

Passeio...

Imagem Jacqueline Bricard daqui

Lembras-te, meu amor,
Das tardes outonais,
Em que íamos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
Alegre e dos casais,
Onde só Deus pudesse
Ouvir-nos conversar?
Tu levavas, na mão,
Um lírio enamorado,
E davas-me o teu braço;
E eu triste, meditava
Na vida, em Deus, em ti…
E, além, o sol doirado
Morria, conhecendo
A noite que deixava.
Harmonias astrais
Beijavam teus ouvidos;
Um crepúsculo terno
E doce diluía,
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos…
Erravam, pelo Azul,
Canções do fim do dia.
Canções que, de tão longe,
O vento vagabundo
Trazia, na memória…

(Excerto)

 Elegia do Amor, in Vida Etérea
de, Teixeira de Pascoaes

quarta-feira, outubro 19, 2005

Sinto a tua falta...

Imagem daqui


A primeira vez que o vi o prédio estava em fase de acabamento. Mas ele já lá morava porque tinham tido necessidade urgente de se mudar.


Gostei de imediato do seu olhar franco e directo. Não tinha receio de olhar os meus olhos e cumprimentava-me com uma alegria que chegava a comover-me.

O tempo que decorreu entre os acabamentos finais da minha habitação e a mudança aproximou-nos.

Ele vinha ligeiro ao meu encontro e eu parava a dar-lhe palavras de afecto.


Acho que a nossa relação começou de imediato aí.

Dia a dia íamos cimentando a nossa amizade. Eu sentia em cada demorado olhar o carinho que transbordava dele. A vida já o tinha maltratado muito e, notava-se, que ele só queria que lhe prestasse atenção.

Por vezes, nos meus passeios a pé, ele acompanhava-me. Ouvia com atenção o que eu lhe dizia, atento aos meus movimentos.

Por isso, não foi difícil para mim, quando me pediram para tomar conta dele. Ele andava adoentado e a proprietária do apartamento tinha arranjado um novo emprego pelo que não podia dar-lhe a atenção a que estava habituado.

Todos os dias, à mesma hora, passeávamos. Depois do jantar, já ele me esperava ansioso. Notava-se.

Foi assim durante algum tempo e, cada vez mais, o nosso afecto era visível.


Os moradores sorriam quando nos viam passar. Nunca fui de grandes conversas com a vizinhança, por isso a nossa amizade atraía sorrisinhos de quem não compreendia o que se estava a passar.

Contingências da minha vida pessoal levaram a que nos afastássemos durante algum tempo e, soube mais tarde, a tristeza dele durante esse tempo.

Quando nos encontrámos novamente, ele correu para mim como louco e saltou para o meu colo. “Lambuzou” o meu rosto de beijos que, diga-se a verdade, me encheu de alegria.


Recordei este episódio hoje, ao abrir de manhã a janela, e o meu coração disparar ao aperceber-me do vulto que estava no estacionamento.

Nem esperei pelo elevador. Galguei os três andares e corri para ele.

Mas a alegria deu lugar à decepção. O olhar que eu esperava encontrar não era o dele.Senti uma lágrima correr-me pelo rosto e, metendo as mãos nos bolsos, comecei a percorrer o caminho que tantas vezes partilhámos.

Recordei aquela vez em que ele se atirou do primeiro andar e quase ficou cego.
Tratei dele com tanto carinho: levantava-me bem cedo para lhe colocar as gotas nos olhos e o antibiótico sempre a horas certas. Grande foi a minha alegria quando, finalmente, o deram como curado!

E daquela vez em que foi atropelado e o seu choro me fez correr feita tola até à Clínica subindo as escadas com ele ao colo? Como ele pesava!

Mais tarde, quando tudo parecia estar sanado, outra aflição. Que seria aquele papo enorme que ele tinha quase do tamanho de uma maçã? Um tumor?!

Não, felizmente! Como poderia imaginar que ele pudesse sofrer da próstata?

- É da idade. Acontece por vezes. A força da pancada no atropelamento provocou-lhe uma inflamação.Ele tudo consentia, com aquele olhar meigo que me enchia o coração.

Assim se passaram meses… cinco, seis? Nunca os contei. Mas era feliz por ele estar feliz.

Até que um dia não o vi na porta da entrada.

A proprietária do apartamento, regressada entretanto, resolvera dar-lhe outro encaminhamento porque, segundo ela, não podia ter aquela responsabilidade.
Arranjara-lhe uma quinta... iria ficar bem…

Olhei-a nos olhos. Ela desviou o olhar. Percebi que estava a mentir.

A partir daquele dia, olho com tristeza para o parque de estacionamento, esperando o seu regresso.



Sinto a tua falta, Raposo… estejas onde estiveres, permanecerás vivo no meu coração.