Site Meter Menina Marota

Segunda-feira, Julho 13, 2009

A um ausente...


Imagem de Ragnes Sigmond


Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o acto sem continuação, o acto em si,
o acto que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
por que o fizeste, por que te foste.

(A um ausente" Carlos Drummond de Andrade
)

Quinta-feira, Julho 09, 2009

Convite

Em 3 de Abril fazia aqui referência à satisfação pessoal que a inclusão da poesia da Amita (Fátima Fernandes) na II Antologia de Poetas Lusófonos me merecia, porque no meu entender, há muito que ela merecia este destaque.

É com verdadeira alegria no coração que vos convido a estarem presentes amanhã, sexta-feira, dia 10 de Julho, pelas 21,30 no lançamento da sua obra, Transparência de Ser, no Salão Nobre da Junta de Freguesia de Aldoar.

Conto com a vossa presença



Mãe
Escuta a brisa que meu ventre abre
Na terra dos sonhos o canto das pequeninas coisas
De braços estendidos o enlevo do sorriso que as afaga
Aquele murmurejar de água soletrando o rio
Plácido

Mãe
Sente os dois mundos que em mim trago
Saboreando o néctar das coisas invisíveis e cândidas
Entre a música e a leveza da dança
No balanço certo das outonais cores
Em folhas irisadas e suaves

Seis meses, mãe, são caminhados
Na voz das pequeninas coisas
Sob o azul da luz e o verde dos laços

Poema "As pequeninas coisas" da
Amita


Ouvir o poema na voz de Luís Gaspar
(desligar a música de fundo, p.f)


Quarta-feira, Julho 08, 2009

Pedido de casamento...

Sinto uma paz interior quando ao primeiro raiar da manhã chamo o JP que dormia ainda profundamente, para a habitual e crónica rotina hospitalar.

Confesso que nos últimos anos (já lá vão mais de nove) estes momentos eram de grande tensão para ambos, se calhar, mais para mim que para ele.

A doença avançara depressa demais e as realidades da Vida, para ele, tinham deixado de existir.

Como um menino resmungão, que não se quer levantar, barafusta para que o deixe dormir; puxo-lhe o lençol para trás e rio-me: - anda lá dorminhoco, quem te manda andar às "gatas" de noite? (a ver Tv, claro!)

Puxando a persiana completamente para cima, deixo entrar o sol que inunda o aposento, enquanto o fiel Sting, brincalhão, enceta uma gímnica vertiginosa na sua maneira pueril de mostrar a satisfação de o ver acordar.

Não é fácil falar de nós. Não é fácil falar de uma doença que, a não existir, nos teria trazido outros caminhos… Não é fácil deixar de perceber que o caminho dele não tem futuro e o meu, bem… o meu… é estar a seu lado, esquecendo que, afinal, o meu próprio caminho deixou de existir.

Deixei de existir, para ele e para mim, há muitos anos…

Existo apenas para lhe minimizar o sofrimento, para lhe dar uma vida confortável, dentro do seu próprio desconforto e que saiba e perceba, que lhe perdoei, apesar de tudo, o saber que se não fora a doença, outra já ocupava o meu lugar.

Pergunto-me, por vezes, se vale a pena anular a pessoa que sou, aquilo que sonhei, o que lutei a nível pessoal e profissional, anulando desejos e vontades, permanecendo na minha gaiola dourada.

Acho que sim. Sei que sim. Afinal, se voltasse atrás, a minha atitude teria sido exactamente a mesma.

Porque sou como sou. E não consigo ser de outra maneira.

Olho para lá da janela, onde o sol nasce, o verde da vegetação brilha ao longe, como que dando-me esperança e força.

Sinto-me em paz e a lembrança de tempos outrora felizes inunda-me e sorrio desses momentos…

O porquê destas lembranças?

No dia de hoje, há muitos anos atrás fui pedida em casamento…



Imagem de Ernst Schütz


Nada direi de ti,
nem um só pensamento.

Num assomo, lentamente,
meu peito desgasta-se de palavras
que se repetem textualmente

pacientes, de toda a matéria que
se pressente para lá do que se não vê,
nem se imagina.

Entreaberto, como uma janela, meu coração
vislumbra o ocaso, em fragrâncias
de pétalas por entre caminhos
etéreos percorridos de mão em mão.

Sou quem sou.

Nesta forma de ser
não há espaço para intervalos
passeados entre os sentimentos
de olhos que nada vislumbram
nas profundezas da alma.

Rasgo meus sentidos e
abro a janela de sensações flóreas
para lá de todos os laivos de vida
que se sentem nas marés perdidas.

Hoje nada direi de ti.

Porque as palavras estão caladas
sossegadas, no fundo da alma,
e aí permanecerão.



Ouvir o poema na voz de
José-António Moreira in Sons da Escrita



(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

Sexta-feira, Julho 03, 2009

Lágrimas...

O dia amanheceu cinzento e com um aperto no coração liguei o pc; não quis dar crédito ao meu pressentimento de que algo não estava bem com o meu tão sensível coração e tentei desviar as atenções para algo a que me tenho dedicado estes dias.

Confesso que já dera pela sua falta. Por vezes pensava em lhe enviar uma palavra para saber dela, mas ia deixando para o dia seguinte…

Comentadora praticamente assídua, mas sem dia marcado, de uma forma muito especial marcava presença neste e noutro
espaço onde sentia a sua presença de uma forma muito espiritual.

Cruzámos muitos email’s, nunca lhe vi o rosto, nem fui sabedora se teria alguma página pessoal.

Catarina Buckins das Neves não mais me sorrirá através dos seus comentários.

Seu filho Ricardo Neves, por email que me enviou ontem, mas que só hoje tive oportunidade de ler, comunicou-me o desenlace e o porquê de me escrever.

Afinidades partilhadas que levam a um profundo sentimento de perda, mesmo que não nos conhecêssemos pessoalmente.

O último
comentário que deixou foi num poema que lhe dedico… porque a vida é mesmo a...

Figuração de um sonho


Pintura de Renso Castaneda


No deslumbre do amor,
vida, corpo, voz,
algodão doce, no céu azul,
que se descobre pela manhã
incutido no mesmo espelho e
esculpidos no espírito
(cumplicidade da memória)
das almas que se tocam…
bravias, sedentas, arrojadas,
por entre o cheiro da terra molhada.

Dentro da imaginação
não existem rituais,
mas ondas invisíveis
movendo portas e janelas,
sopradas nos dias de calmia,
gravadas, palavra a palavra,
na areia da vida, voando,
sem asas, através dos ventos,
como barcos que velejam ao sabor
de cada corrente…

Beijar e dormir na tua pele nua
no abraço que me fez tua,
figuração fervente de um sonho
que permanecerá na minha mente.


Para ela o meu último Abraço.

Ao Ricardo, seu filho, o meu agradecimento pelas palavras que me endereçou. Jamais a esquecerei por toda a sensibilidade que partilhou comigo ao longo destes anos.

Obrigada.

Quarta-feira, Julho 01, 2009

Verão de Vida…


Imagem de Boopsie Daisy


E surgiste assim de mansinho
como o primeiro raio de sol
que desponta ao amanhecer
nos olhos de uma criança…

Por entre a suave claridade
sorrio
escondendo o olhar
no toque leve do teu cabelo.

Embalo-me nas ondas
coloridas da imaginação
e aguardo
marés cheias de sentidos!

Deixa que meus olhos
pousem nos teus
mar calmo de ilusão
onde permanecem
no cheiro do jasmim
beijos…
e desejos meus!

Sexta-feira, Junho 26, 2009

Poema sem nome...

Não sei quando lhe perdi o caminho de casa.

Sei que ao reencontrá-lo as suas palavras brotaram como pétalas baloiçando na suave brisa do mar…

Ei-la na magia que a sua poesia nos oferece...


Pintura de Arthur Rackham


ah a cor da noite
de todos os animais
solitários. lenta aparição.
corações feridos na travessia
dos prados quietos.
sombras inclinadas ângulos
rarefeitos na treva.
o céu a tragar a treva
os ramais sem rumo.

cães acossados na nudez do lugar
atravessam a geografia do deserto
inteiro. em nebulosa romaria.

por dentro das grutas insones
pesam as pálpebras líquidas
despenhadas na ausência.

há os amantes no silêncio claro da lua.
nas peles desnudas tacteiam
um instante. um fim de solidão.

há mãos que derivam na escrita
nas sílabas crepusculares
intentando réstias de memória.

ah as vozes invisíveis
antigas no medo límpio.

Poema de
Maria M in blog com palavras ao fundo

Sábado, Junho 20, 2009

Olhos das palavras...


Pintura de Ana Muñoz


Ao amanhecer um raio de sol
trouxe uma rosa branca
que ofereceu à lua e, lentamente,
entre os olhos das palavras,
esconde-se no céu da minha afeição.

Nas gotas do orvalho da manhã
as lágrimas dissipadas
são sementes do poema
endurecidas no desânimo de quem espera
o seu primeiro beijo de luz

Encarcerada na raiz do sentimento
a palavra é o sol desabado
o espelho sem reflexo
caído em pedaços na dureza dos sons…

Uma palavra esvaída na garganta da razão
a página branca de um buraco sombrio
onde a poesia é a fragrância que deixa entrar o Sol
e ilumina o meu coração…

(in Menina Marota Um Desnudar de Alma,
de Otília Martel, pág. 54)


Na voz de
José-António Moreira in Sons da Escrita



(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)


Este poema lido por José-António Moreira no Sons da Escrita 229, finaliza um ciclo de quatro programas dedicado a Otília Martel e, igualmente, ao seu livro Menina Marota, Um Desnudar de Alma.

A
José-António Moreira pelo privilégio que concedeu à minha poesia o meu mais profundo agradecimento.

Domingo, Junho 07, 2009

Momentos...


Imagem de Isabel Filipe


Tocar o céu
na bruma do desejo
infinito…

Tocar o mar
nas ondas salgadas
da tua boca

Tocar a terra
no chão molhado
do teu corpo

E perder-me
nos teus braços
como quem perde
o último fôlego
de Vida…


(Poema de Otília Martel)

Na voz de
José-António Moreira in Sons da Escrita



(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)


Quarta-feira, Maio 27, 2009

Sons da Escrita...


Aqui onde tudo começou


De asas abertas na imensidade,
pássaro faminto de liberdade,
voa, voa…
és viajante, cruza o espaço
que o teu voo não tem cansaço
voa… voa…

Sentido sonho o que sonhaste
sobre os campos, águas e flores,
fala de sentires e amores
e, voa como os falcões
contornando os furacões.

Pássaro que sentes a tempestade
quando ela ao longe vem,
voa nessa claridade
do puro azul que nos faz bem!


É com este poema que José-António Moreira dá início ao Sons da Escrita 226, onde por entre as vozes de Caetano Veloso e Marianne Faithfull são lidas mais poesias, destacando a maravilhosa canção de Emi Fujita “True Colors” que, sinceramente, me encanta. (Em tempo: já on line o 227)
Confesso que foi com emoção que ouvi e li um programa onde me sinto uma gota no oceano, entre os grandes nomes que lá são igualmente partilhados.

A
José-António Moreira pelo privilégio que concedeu à minha poesia o meu sincero


Obrigada!

Sábado, Maio 23, 2009

Em Maio de 2005...

Convidava aqui e aqui para um passeio através das minhas palavras...

Decorridos estes anos, apesar do cansaço da Vida que me força, por vezes, a algumas ausências, o convite mantém-se porque é para vós, os que aqui permanecem fiéis, os que passam mas voltam, os ausentes mas sempre lembrados, que esta página é feita.

Muitas memórias, muito da minha alma… foram aqui partilhadas. É convosco que muitas vezes rio, outras choro, outras me deslumbro, mas sempre com a convicção de que partilhando sensibilidades e afectos é o caminho que devo prosseguir.

A todos os que me têm acompanhado neste e noutros espaços o meu carinhoso

Obrigada



Imagem Google


Todas as pessoas são pássaros livres
o segredo é não se deixar prender
voar rasteiro por sobre as estrelas
é a melhor forma de se viver.

Cantar para aquele que quer ouvir
contar para aquele que quer saber
a sensação de estar liberto
a melhor forma de ter prazer.

E quando encontra a pessoa amada
não sabe o que há-de dizer
rir, chorar e descobrir a custo
a melhor forma de se querer.

E se a tristeza lhe bate á porta
muito há a fazer,
limpe as lágrimas, abra o seu coração
e deixe o amor vencer...