quinta-feira, março 31, 2016

Foi num Domingo de Páscoa...

Foi num Domingo de Páscoa que partiste. 
Parece que foi a semana passada e já faz dois anos. Não interessa o mês. O dia. Foi no Domingo de Páscoa e assim, até ao meu fim, o recordarei. 
Nada foi esquecido. De entre dor e sofrimento também houve momentos de grande felicidade.  
Dizer que esqueci o mau, era estar a mentir. Mas relembro, sobretudo, os dias bons. O amor que nos uniu. A nossa cumplicidade. 
O riso que entoava dentro de nós.  A felicidade que sentia quando te sentia bem.
Partiste de repente.  E não consigo recuperar dessa partida.
Há quem diga que as redes sociais não são para desabafos. 
Não fica bem mostrarmos a nossa sensibilidade, em suma, a nossa fraqueza.
Que importa isso?  
Sou como sou e não me importa o que os outros pensem. 
Preciso de soltar a minha alma. Especialmente nestes momentos. 
Quem me ouvirá nestes dias que acordam cinzentos? 
A quem dizer dos sentimentos controversos que me abalam em dias de tempestade espiritual?
Contigo, sofri, chorei, mas também tivemos belos momentos que tento preservar. 
Não porque partiste. Mas porque sou assim mesmo. Nos catorze anos da tua doença nunca te abandonei. Mesmo nos momentos de maior sofrimento não abandonei o barco. 
Fui boa capitã, não fui? Era assim que me chamavas, naqueles dias de bom humor que tanto me faziam sorrir.
O dia acordou cinzento. Tal como a minha alma.
Tu partiste no Domingo de Páscoa. 

E depois de todas as tempestades que nos assolaram é assim que NOS quero recordar.  
Estejas onde estiveres, recebe o meu sorriso.



terça-feira, fevereiro 02, 2016

QUERIA

Vincent van Gogh (Sunflowers)


Queria ser um girassol. 
Rodar ao sabor do sol.

Queria ser o mar 
de altas ondas verdes 
nos braços do firmamento 
o vento abraçar. 

Queria ser toda a ternura do mundo 
e num abraço fraterno 
mil rostos beijar.

domingo, dezembro 20, 2015

NATAL UP-TO-DATE




Em vez da consoada há um baile de máscaras
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos estes pastores são jovens tecnocratas
que usarão dominó já na próxima década

Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
enquanto se não sabe ao certo o resultado
dos que vêm sondar a reacção do público

Nas palhas do curral ocultam microfones
O lajedo em redor é de pedras da lua
Rainhas de beleza hão-de vir de helicóptero
e é provável até que se apresentem nuas

Eis que surge no céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado
onde se vende pão já transformado em cinza
para que o ritual seja muito mais rápido

Assim a noite passa. E passa tão depressa
que a meia-noite em vós nem se demora um pouco
Só Jesus no entanto é que não comparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco

David Mourão-Ferreira

segunda-feira, dezembro 07, 2015

Graça Pires


Um final de tarde memorável. 
Uma apresentação brilhante de Lídia Borges.
Um livro para ser lido devagar e com o coração.
A simpatia e a serenidade comovida de Autora tornou ainda mais bonito o momento.
"Tarde de afectos e de reencontros. Poesia em carne e osso.", nas palavras de  Virgínia Do Carmo sobre a apresentação, no Porto, de UMA CLARIDADE QUE CEGA, de Graça Pires, na passada sexta-feira, 4 de Dezembro.

Grata a todos

Traço na areia uma linha em movimento 
de onda e rodo sobre mim mesma
quando as marés me bailam nas ancas.
Esta dança é em mim errática sedução.
O interlúdio da seda perfumada
em que me envolvo.
O jogo sensual no chão do peito,
como grito erguido sobre a língua.
Vem, cadência da música!
Suspende o silêncio que escorre
em pausas onduladas como água.
Encena-me em rituais profanos.
Acrescenta-me à partitura 
ou ao gesto ensaiado e cerzido
nas rugas do meu corpo.
Vem e desliza inteira no êxtase da luz!

de Graça Pires, em "Uma claridade que cega”
 a págs. 13


segunda-feira, novembro 30, 2015

CONVITE



Comemorando 25 anos de edição, Graça Pires apresenta, na livraria Unicepe, no Porto, dia 4 de Dezembro, a sua mais recente obra "Uma Claridade que Cega".
Apresentação a cargo de Lídia Borges.
Contamos com a vossa presença.


(clicar na imagem para aumentar, p.f.)

sábado, setembro 26, 2015

Liberdade


Nos meus cadernos da escola
Na minha carteira nas árvores
Sobre a areia e sobre a neve
Escrevo o teu nome

Em todas as páginas lidas
Em todas as páginas em branco
Pedra sangue papel ou cinza
Escrevo o teu nome

Na selva e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
Na memória da minha infância
Escrevo o teu nome

Em cada raio da aurora
Sobre o mar e sobre os barcos
Na montanha enlouquecida
Escrevo o teu nome

Na saúde recuperada
No perigo desaparecido
Na esperança sem lembranças
Escrevo o teu nome

E pelo poder de uma palavra
a minha vida recomeça
Eu renasci para conhecer-te
Para dizer o teu nome

Liberdade

 (Liberté) de Paul Éluard

Imagem de Tomasz  Pluciennik

Moisés Rabinovici, jornalista brasileiro nos seus textos sobre o pintor pernambucano Cícero Dias alude a um acto histórico que envolve o poema Liberté de Paul Éluard e que passo a citar:

"Eu Vi Cícero Dias…
por Moisés Rabinovici

(…) Cícero Dias protagonizou uma obra histórica que lhe valeu a medalha azulada estelar da Ordem Nacional do Mérito da França, recebida das mãos do então primeiro-ministro Edouard Balladur, em 1998, na Unesco. A obra foi uma chuva do poema Liberté, de Paul Éluard, disparado por aviões ingleses sobre a Europa ocupada por tropas nazistas, em 1943. “Se os alemães me pegassem, pá!, me matavam” — então ele sorve mais um gole de uísque, empolgado com as lembranças que ainda o deixam orgulhoso. Para começar sua “missão”, ele cortou a primeira e a última palavra-chave escrita na muamba, Liberté. Era um perigo de morte, liberdade. Depois, a salvo, as reescreveria.

O poema ficou guardado dentro de uma mala na prateleira de bagagens vazia de um vagão de trem com refugiados espanhóis e portugueses. Dias sentou-se distante. Se a revistassem, não saberiam a quem pertenceria. Veio a Gestapo. Um soldado lhe pediu o passaporte. Gritou para outro, na frente: “Brasília!” Mas o devolveu. E não revistaram o maleiro. Já na Espanha, um susto: “A polícia quis saber como eu, brasileiro, tinha cruzado a fronteira”. Não havia o que discutir, só lembrar que “o Brasil não está em guerra com a Espanha”. E assim ele chegou a Lisboa, de onde a embaixada britânica despachou o poema direto para o poeta surrealista Roland Penrose, piloto da Royal Air Force, a RAF. Alguns dias depois, caía poesia das nuvens em todo o front europeu. (…)"


Fontes: pesquisa efectuada pela Internet em sites fidedignos.


terça-feira, agosto 04, 2015

ESPAÇO PARA CANTAR




Nesta aldeia
de mares imperecíveis
e sábios tristes
íntegro um pássaro do alto
entendeu por bem
atiçar o fulgor dos timbres
regressar ao cais
soltar os barcos
e partir
nas cordas vocais 
de uma guitarra

Nesta aldeia
refúgio
à flor das águas

ainda há espaço para cantar
 

Eufrázio Filipe (Mar Arável)

quarta-feira, junho 03, 2015

Momentos

Arthur Braginsky

Não é o tempo magoado 
da tua ausência

Não é o vento percorrendo 
o meu corpo solitário

Não são as palavras que sibilam baixinho
no meu pensamento

Não é o cheiro de maresia
nos meus cabelos revoltos

Não é o orvalho que sinto escorrer
pelo rosto embaciando-me o olhar.

É o tempo das manhãs claras.
Da gargalhada solta.
Das tuas mãos nas minhas.
Da tua voz sussurrante na minha boca.
Da magia que me empurra para ti.

São estes momentos que me fazem falta.



quarta-feira, maio 13, 2015

Convite


Com ilustrações de Catarina Lourenço "Olhos de Vida" é uma reflexão íntima sobre algumas das circunstâncias que germinam à nossa volta: o amor, a amizade, os problemas sociais, a doença, a fome, o petróleo (que nos conduz à guerra), a saudade, a dor, o erotismo, enfim... todos os cambiantes que, de uma forma ou outra, o ser humano passa e ultrapassa, sem dúvida, nas suas vidas.
Com chancela da Modocromia, será apresentado em Lisboa no espaço cedido gentilmente pela Inês Ramos.

 Espero por vós, dia 23 de Maio pelas 17 horas, na Rua Professor Sousa da Câmara, 156, em Campolide.

Apresentação a cargo de Zica Caldeira Cabral 


A todos o meu agradecimento.

sábado, abril 04, 2015

Páscoa 2015

Não sei se algum dia encararei a Páscoa com os mesmos olhos de anos anteriores.

Educada num ambiente cristão a Páscoa para mim tinha um significado associado a todas as coisas que, provavelmente, as crianças vêem nela. Não somente a parte religiosa mas aquela parte pagã de festa e guloseimas.

A Páscoa era associada à Ressurreição que desde a catequese me tinham ensinado apesar de, confesso, muitas vezes a ter contestado em jovem, mas isso são outros assuntos.

Hoje a Páscoa tem um outro significado e sempre a associarei à morte física de alguém com quem comunguei os últimos anos de vida.

Faz um ano que o JP (meu marido) faleceu. Precisamente no Domingo de Páscoa.

Se não foi fácil falar da doença, muito menos o é da morte. Mas ela aconteceu. E eu pouco a pouco fui-me capacitando disso. Páscoa para mim já não é a morte de Cristo e a sua Ressurreição. Páscoa para mim é o desaparecimento físico da pessoa a quem jurei um dia, num acto solene, cuidar dela até que a morte nos separasse.

Nos meus sentimentos, parece que foi ontem. Mas já passou um ano. E, a vida, nem parece que continuou, mas continuou.

Que a vida vos proporcione, em cada Páscoa, um continuar da Felicidade que todos desejam.