sexta-feira, outubro 18, 2019

Marés

Pintura de Ana Teresa Fernandez



Tiveste-me a teus pés
servi-te de tapete
afoguei-me em mil marés 
fruto de sentimentos

No caminho percorrido, 
passo a passo, 
o calor de cada momento 
 
Nas memórias que me seguem
permanece a saudade 
entre o amor e o pensamento.

quinta-feira, junho 20, 2019

Depois da chuva



Abre a janela, e olha! 
Tudo o que vires é teu.
A seiva que lutou em cada folha,
E a fé que teve medo e se perdeu.

Abre a janela, e colhe!
É o que quiser a tua mão atenta:
Água barrenta,
Água que molhe,
Água que mate a sede...

Abre a janela,
quanto mais não seja,
Para que haja um sorriso na parede!

Miguel Torga – in Diário XV




Sempre me identifiquei com este poema.  Direi até: adoro este poema!
E abro a janela. E sorrio. 
E apetece-me Verão. Dias quentes. Sol.
Os pássaros chilreiam debicando o prato de comida que coloco a meio do terraço, debaixo da mesa, ao lado de uma taça de água. 
Agora, sem o Sting a assustá-los, é vê-los empurrando-se ou, muito simplesmente, mergulhando as cabecitas na taça de água. 
Esvoaçam ou saltitam de um lado para o outro. Desisti de os fotografar. Ao mínimo movimento levantam voo. Mas... é uma delicia observá-los.
A gata Yuki de visita, em férias, em minha casa, segue-os com aqueles grandes olhos amarelos. Acho que ainda não tinha dado bem conta, noutras visitas, da existência de tais exemplares soltos no terraço, habituada que estava a ver o Pipoca na sua gaiola amarela
Até me assustei quando a deixei ir apanhar sol e uma pega, nada habituada a ter o terraço ocupado com tal ser, começou a grasnar com tal força que corri a tirar de lá a gata, não fosse ela atacar a bichana tal eram os gritos que dava. 
Aquela ave preta e branca de cauda bastante comprida é assídua visita do meu terraço. 
Primeiro uma, depois outra, agora são um par que fazem companhia aos pardais e outros pequenitos de que não sei o nome e lhes roubam os bocados de pão que coloco no prato. 
Divirto-me com estes pequenitos que alheios à minha presença saltitam de um lado para o outro na luta de migalhas para a sua sobrevivência. 
E cantam felizes.

Um visitante na hora do lanche
Que estará a dizer a Yuki ao Pipoca?
Será que o bicharoco já se foi embora?

Amanhã chega o Verão. Chegará mesmo?  

segunda-feira, março 11, 2019

Amor Canino



Adeus, meu Sting

Nunca te vou esquecer. 




Partiste 
E meu coração
Por entre lágrimas e sorrisos 
Lembra tudo que nos deste. 



Energia brincadeiras correrias. 


Partiste 
Mas fica para sempre a lembrança
Do teu entusiasmo
Lealdade
Ternura
Compreensão
Os teus sons ficam na memória 
Tua presença na imaginação. 



Partiste
Os teus passinhos pela casa
Já não se fazem ouvir. 
O som dos teus latidos 
 Não chamam a atenção. 
O teu corpo pequenino
Não se enrola nos meus pés
O calor do teu afecto
Não me enche o coração 



Partiste
As tuas pequenas asneira
Já não me fazem zangar
Os nossos passeios ficam por dar
E as escovas do teu pelo
Não mais te vão escovar. 



Partiste
Mas vais ser sempre
O meu pequenino.
O meu amor canino 
O meu Sting
A minha adoração.



Um dia, quem sabe
Nos reencontraremos. 


10-10-2002 - 09.03.2019



Até Sempre, Companheiro!


sexta-feira, fevereiro 15, 2019

Caminhando...

Ao som da música que envolve meus sentidos, recordo um episódio recente num dos meus habituais passeios diários.
Não sendo costume caminhar por aquela rua movimentada demais para meu gosto, atravessada por passadeiras (sem semáforos) que, raramente, são respeitadas pelos automobilistas.
Chego a meio do passeio onde, um jovem de altas pernas, de auriculares e, um aparelho que não distingo o que seja, numa das mãos (provavelmente tlm), atravessa em quatro passadas a larga rua sem tirar o olhar do mesmo. 
Duas jovens, de mochilinhas cor-de-rosa penduradas nas costas, risinhos cúmplices, pés dentro e fora do passeio, conversam animadamente.
Atrás delas, de mãos dadas, avó e neta, como vim a constatar.
Os automobilistas vão passando, alheios à passadeira e a quem nela quer atravessar.
A jovem que não teria mais de uns oito anos, comenta admirada:
- Viste, Vó, aquele rapaz nem olhou. Atravessou a rua daquela maneira e o carro é que teve que se desviar. 
- E depois admiram-se se são atropelados - responde a senhora. Nunca faças isso...
- Eu cá não! - responde a garota.

Os carros vão passando até que repentinamente, um desacelera e pára quase em cima da passadeira, fazendo-nos sinal para avançarmos.
As jovens avançam rapidamente entre risinhos e conversa.

De mãos dadas, à minha frente, mais devagar, avó e neta iniciam a travessia, agradecendo com um sorriso à condutora. Eu fiz o mesmo.
- Viste, Vó? As raparigas nem agradeceram - reclama com vozita admirada a jovem. Mas deviam, não achas? 
- Talvez pensassem que era obrigação do condutor, sei lá. Nós agradecemos e é o que importa. É assim que deves sempre fazer.
- Isso sei eu, Vó. Mas tu não achas que… 

O meu passo mais apressado impediu ouvir o resto da conversa. Interiormente sorrio pela observação da jovem.

Penso no meu “papel” de automobilista e peã. 
No quanto é agradável ver o sorriso na cara de alguém quando se dá passagem. 


Por isso sorrio quando sou peã.
(Inicialmente escrito no FB)


Imagem Google


quarta-feira, janeiro 02, 2019

E já estamos em 2019!



ESPAÇO SIDERAL

Um dia
somos crianças,
irreverentes,
audazes, corajosas.


Um dia
descobrimos,
a real virtude do mundo,
ou a irrealidade das coisas 
que o compõem. 


E o sonho? 
Onde fica o sonho
de tudo o que esperamos? 


E a dor
de tudo o que perdemos?
Do que sentimos?


Importa?
Sorrimos para a dor.
Quem a vê?
Quem a sente no nosso íntimo?


Inolvidável a cicatriz aumenta. 
Uma a uma. 
Invisível. 


A vida continua. 
No espaço sideral
nada se perde.
Tudo se recria e permanece. 


Ontem que já é hoje. 
A infância lá longe 
curva-se ao instante que 
antecede o amanhã. 


Somos o tempo. 
A roda gira 
e, nela,
todos nós. 



Que 2019 seja repleto de felicidade!