Sinto uma paz interior quando ao primeiro raiar da manhã chamo o JP que dormia ainda profundamente, para a habitual e crónica rotina hospitalar.
Confesso que nos últimos anos (já lá vão mais de nove) estes momentos eram de grande tensão para ambos, se calhar, mais para mim que para ele.
A doença avançara depressa demais e as realidades da Vida, para ele, tinham deixado de existir.
Como um menino resmungão, que não se quer levantar, barafusta para que o deixe dormir; puxo-lhe o lençol para trás e rio-me: - anda lá dorminhoco, quem te manda andar às "gatas" de noite? (a ver Tv, claro!)
Puxando a persiana completamente para cima, deixo entrar o sol que inunda o aposento, enquanto o fiel Sting, brincalhão, enceta uma gímnica vertiginosa na sua maneira pueril de mostrar a satisfação de o ver acordar.
Não é fácil falar de nós. Não é fácil falar de uma doença que, a não existir, nos teria trazido outros caminhos… Não é fácil deixar de perceber que o caminho dele não tem futuro e o meu, bem… o meu… é estar a seu lado, esquecendo que, afinal, o meu próprio caminho deixou de existir.
Deixei de existir, para ele e para mim, há muitos anos…
Existo apenas para lhe minimizar o sofrimento, para lhe dar uma vida confortável, dentro do seu próprio desconforto e que saiba e perceba, que lhe perdoei, apesar de tudo, o saber que se não fora a doença, outra já ocupava o meu lugar.
Pergunto-me, por vezes, se vale a pena anular a pessoa que sou, aquilo que sonhei, o que lutei a nível pessoal e profissional, anulando desejos e vontades, permanecendo na minha gaiola dourada.
Acho que sim. Sei que sim. Afinal, se voltasse atrás, a minha atitude teria sido exactamente a mesma.
Porque sou como sou. E não consigo ser de outra maneira.
Olho para lá da janela, onde o sol nasce, o verde da vegetação brilha ao longe, como que dando-me esperança e força.
Sinto-me em paz e a lembrança de tempos outrora felizes inunda-me e sorrio desses momentos…
O porquê destas lembranças?
No dia de hoje, há muitos anos atrás fui pedida em casamento…
Nada direi de ti,
nem um só pensamento.
Num assomo, lentamente,
meu peito desgasta-se de palavras
que se repetem textualmente
pacientes, de toda a matéria que
se pressente para lá do que se não vê,
nem se imagina.
Entreaberto, como uma janela, meu coração
vislumbra o ocaso, em fragrâncias
de pétalas por entre caminhos
etéreos percorridos de mão em mão.
Sou quem sou.
Nesta forma de ser
não há espaço para intervalos
passeados entre os sentimentos
de olhos que nada vislumbram
nas profundezas da alma.
Rasgo meus sentidos e
abro a janela de sensações flóreas
para lá de todos os laivos de vida
que se sentem nas marés perdidas.
Hoje nada direi de ti.
Porque as palavras estão caladas
sossegadas, no fundo da alma,
e aí permanecerão.