domingo, outubro 30, 2005

O Beijo...


Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escaracéu.
Ainda palpitante voa um beijo.

Donde teria vindo! (não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo?

É uma ave estranha colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.

E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...



Alexandre O'Neill in, O Beijo


Um beijo, num bom domingo para todos...


(Pintura de The Kiss,  Gustav Klimt)

quinta-feira, outubro 27, 2005

Momentos...

Imagem de Eveline Weil

Ao abrir a gaveta, (re) descobri aquelas peças. Lembro-me que as comprei para te deslumbrar... Toquei em cada peça com o carinho com que me tocavas.
Espalhei-as em cima da cama relembrando cada pormenor daquele dia.
Sorrio recordando a expressão do teu rosto ao tocares nas ligas…
– Como se tira isto?
– Não sei. Descobre tu!
E tu foste descobrindo, em cada beijo que me deixavas no corpo, em cada toque das tuas mãos mágicas.
Retiraste com cuidado a primeira liga, enquanto a meia descia como cetim na minha perna macia, arrastando o teu beijo perna acima.
Um frémito percorre o meu corpo. A suavidade dos teus lábios põe-me louca. De repente, enlaças-me completamente e olhas-me nos olhos.
- Amo-te como nunca amei outra mulher.E eu acreditei. Acreditava sempre.
Entreguei-me a ti, esquecendo tudo, vivendo aquele momento.
Um latido, sobressaltou-nos…
Esquecemo-nos completamente do pequeno cachorro que, dentro do sapato, roía os atacadores.
- Deixa-o estar. Ele está com ciúmes.Rimo-nos.
Voltámos a esquecer o cachorro.
Hoje a tua cama é outra...
Guardo lentamente cada peça....

O cachorro cresceu.
Já não cabe dentro do sapato...

(Memórias minhas)

domingo, outubro 23, 2005

Passeio...

Imagem Jacqueline Bricard daqui

Lembras-te, meu amor,
Das tardes outonais,
Em que íamos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
Alegre e dos casais,
Onde só Deus pudesse
Ouvir-nos conversar?
Tu levavas, na mão,
Um lírio enamorado,
E davas-me o teu braço;
E eu triste, meditava
Na vida, em Deus, em ti…
E, além, o sol doirado
Morria, conhecendo
A noite que deixava.
Harmonias astrais
Beijavam teus ouvidos;
Um crepúsculo terno
E doce diluía,
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos…
Erravam, pelo Azul,
Canções do fim do dia.
Canções que, de tão longe,
O vento vagabundo
Trazia, na memória…


(Excerto...

 Elegia do Amor, in Vida Etérea
Teixeira de Pascoaes)

quarta-feira, outubro 19, 2005

Sinto a tua falta...

Imagem daqui

A primeira vez que o vi o prédio estava em fase de acabamento. Mas ele já lá morava porque tinham tido necessidade urgente de se mudar.


Gostei de imediato do seu olhar franco e directo. Não tinha receio de olhar os meus olhos e cumprimentava-me com uma alegria que chegava a comover-me.

O tempo que decorreu entre os acabamentos finais da minha habitação e a mudança aproximou-nos.

Ele vinha ligeiro ao meu encontro e eu parava a dar-lhe palavras de afecto.


Acho que a nossa relação começou de imediato aí.

Dia a dia íamos cimentando a nossa amizade. Eu sentia em cada demorado olhar o carinho que transbordava dele. A vida já o tinha maltratado muito e, notava-se, que ele só queria que lhe prestasse atenção.

Por vezes, nos meus passeios a pé, ele acompanhava-me. Ouvia com atenção o que eu lhe dizia, atento aos meus movimentos.

Por isso, não foi difícil para mim, quando me pediram para tomar conta dele. Ele andava adoentado e a proprietária do apartamento tinha arranjado um novo emprego pelo que não podia dar-lhe a atenção a que estava habituado.

Todos os dias, à mesma hora, passeávamos. Depois do jantar, já ele me esperava ansioso. Notava-se.

Foi assim durante algum tempo e, cada vez mais, o nosso afecto era visível.


Os moradores sorriam quando nos viam passar. Nunca fui de grandes conversas com a vizinhança, por isso a nossa amizade atraía sorrisinhos de quem não compreendia o que se estava a passar.

Contingências da minha vida pessoal levaram a que nos afastássemos durante algum tempo e, soube mais tarde, a tristeza dele durante esse tempo.

Quando nos encontrámos novamente, ele correu para mim como louco e saltou para o meu colo. “Lambuzou” o meu rosto de beijos que, diga-se a verdade, me encheu de alegria.


Recordei este episódio hoje, ao abrir de manhã a janela, e o meu coração disparar ao aperceber-me do vulto que estava no estacionamento.

Nem esperei pelo elevador. Galguei os três andares e corri para ele.

Mas a alegria deu lugar à decepção. O olhar que eu esperava encontrar não era o dele.
Senti uma lágrima correr-me pelo rosto e, metendo as mãos nos bolsos, comecei a percorrer o caminho que tantas vezes partilhámos.

Recordei aquela vez em que ele se atirou do primeiro andar e quase ficou cego.
Tratei dele com tanto carinho: levantava-me bem cedo para lhe colocar as gotas nos olhos e o antibiótico sempre a horas certas. Grande foi a minha alegria quando, finalmente, o deram como curado!

E daquela vez em que foi atropelado e o seu choro me fez correr feita tola até à Clínica subindo as escadas com ele ao colo? Como ele pesava!

Mais tarde, quando tudo parecia estar sanado, outra aflição. Que seria aquele papo enorme que ele tinha quase do tamanho de uma maçã? Um tumor?!

Não, felizmente! Como poderia imaginar que ele pudesse sofrer da próstata?

- É da idade. Acontece por vezes. A força da pancada no atropelamento provocou-lhe uma inflamação.Ele tudo consentia, com aquele olhar meigo que me enchia o coração.

Assim se passaram meses… cinco, seis? Nunca os contei. Mas era feliz por ele estar feliz.

Até que um dia não o vi na porta da entrada.

A proprietária do apartamento, regressada entretanto, resolvera dar-lhe outro encaminhamento porque, segundo ela, não podia ter aquela responsabilidade.
Arranjara-lhe uma quinta... iria ficar bem…

Olhei-a nos olhos. Ela desviou o olhar. Percebi que estava a mentir.

A partir d
aquele dia, olho com tristeza para o parque de estacionamento, esperando o seu regresso.


Sinto a tua falta, Raposo… estejas onde estiveres, permanecerás vivo no meu coração.

segunda-feira, outubro 17, 2005

Do meu livro de Memórias...


Um impulso fez-me dar uma guinada no volante e virar para a rua estreita, enquanto me buzinam furiosamente (mas que coisa, eu dei o pisca...tento "desculpar-me" da minha asneira).

Vorazes são os meus sentimentos.

Parecia que tudo estava na mesma mas, olho atentamente: Pequenas vivendas em banda, substituíam as casitas baixas que quase ocupavam a rua...

O velho bar de madeira, tinha sido modernizado... amplas vidraças banhadas pelo sol, enquanto as ondas tão perto, diluem-se na areia fina.

Que impulso me tinha levado ali? Olho o mar enquanto caminho devagar, pela passadeira de madeira... Tanta recordação...

Quanto tempo estive assim? Não sei dizer.

Repentinamente, sinto uma presença atrás de mim. Mesmo sem olhar, pressenti... Será possível? Estarei a sonhar? Ao fim destes anos?

Aquele olhar matreiro... Não evitei um sorriso.

-Estás na mesma - diz numa voz rouca (seria da emoção?).

- Continuas com o mesmo sorriso lindo. Não mudaste nada. Estás linda.

Abano a cabeça, em ar de discordar:

-E tu, com o mesmo charme de sempre - respondo baixinho

-Sim... as mulheres sempre me acharam charmoso- responde com aquele sorriso matreiro de sempre.

- Convencido, estás mais velho... ( ele sabia, como me deixava furiosa, quando dizia aquilo)

O teu perfume é o mesmo, sinto o cheiro. Agrada-me - diz maliciosamente.

Olho aqueles cabelos, cujo branco das têmporas, se tinham espalhado, dando-lhe uma cor de prata
que ainda lhe acentuava mais o charme.

Sinto o sangue ferver...

Meu Deus, como amo este homem - penso - seria possível? O meu amor por ele estava intacto ao fim de tantos anos.

Mantive-me serena, com aquela serenidade que o tempo de espera, a ausência prolongada, a falta de notícias, provoca em nós...

Ao longe ouço música, que cada vez mais se aproxima.

Estamos em frente um ao outro e sinto a sua mão no meu cabelo...a pressão do seu corpo.


Até que ouço claramente uma voz feminina dizer: -
"a esta hora João? Mas são duas da manhã. E uma voz masculina a responder: Mas... para tomar café Nicola..."

De um salto, levanto a cabeça e espanto dos espantos: Os olhos verdes do meu gato, estão quase encostados a mim, enquanto no rádio o locutor da RFM diz que faltam não sei quantos minuto para as seis horas da manhã.

Sacudo-o repentinamente. A mania dele cheirar o meu cabelo, enquanto durmo... O locutor continuava a falar e cheia de fúria desligo o despertador.

Tão real tinha sido o meu sonho. Ainda revia o seu olhar. Ainda sentia o meu corpo a tremer.

Bem... o melhor é não pensar. Amanhã não deixo entrar o "raio" do gato no meu quarto.

O passado não volta. Só mesmo em sonhos...





(Memórias minhas e dedicadas ao meu gato Farrusco...)

Imagem Google

sábado, outubro 15, 2005

Retrato

Imagem daqui


Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?


Poema de Cecília Meireles in "Retrato"

terça-feira, outubro 11, 2005

Posto que...

Pintura de Irina Kupyrova


Evoca a gente, lamentando
o passado que morreu,
e fica triste, cismando,
sem saber como nem quando
a ventura se perdeu.

E o coração padece
num suspiro sem par;
toda a tristeza se esquece
todo o mal se desvanece,
como que nasce o luar.

Nas almas suavemente
uma alegria perpassa,
a dor está ausente,
nem sempre o mal é patente,
foi para longe a desgraça.


(Memórias Minhas - 08.01.2004)

quarta-feira, outubro 05, 2005

No sítio onde estás... recebe um girassol, nesta manhã...



Aí, no local onde estás, invisível aos meus olhos, costumas falar-me de ti... sinto as tuas palavras, os teus temores, a tua "realidade" e descubro uma alma pronta a transmitir toda a doçura que a invade.

A única realidade da vida é a sensação. A única realidade da amizade é a consciência da sensação que a mesma produz: de paz, de serenidade e de força de viver... e a capacidade de a transmitir aos outros...


A luta pela vida cria metamorfoses em nós capazes de sentirmos, cada vez mais, quão belo é o mundo que nos rodeia e a capacidade de amar que todos temos.


Tu és uma dessas pessoas. A tua capacidade de transmitires carinho e amizade, é como um campo de flores, que perfumam o nosso caminho, mesmo que algumas tragam dores, na ponta dos seus espinhos...


Tu transformas a dor em vida, num viver permanente, porque viver por viver não te basta, mesmo que sintas a indiferença dos outros, porque a indiferença é mal que não nos pode afastar de todo o amor que temos para dar. E isso é uma lição. Uma lição que eu retiro todos os dias, e que me dá força para ultrapassar momentos menos bons em que o desânimo toma conta de mim.


Porque o sofrer não são só as lágrimas que caiem do nosso rosto, são também a dor que as esconde e dentro da alma as sentimos. Liberta a alma da dor e vive o teu momento. Transmite aquilo que sentes no teu coração, um viver com sentires, com carinho, com amargura e verdades...


A força do sentir está em ti. Mas nem tudo são rosas, nem tudo são espinhos... talvez girassóis...

No Sol desta manhã, deixo a energia do girassol para ti...a minha amizade e o meu sorriso também...


...a todos vós...



*Ao encontro das minhas memórias - (17.01.2004*


Imagem Google

segunda-feira, outubro 03, 2005

A todos e a cada um dos meus amigos

Imagem de Persida Silva
Por um por todos por nenhum
faço o meu canto canto a minha mágoa
num desencanto aberto pelo gume
deste pranto tão limpo como a água.

Por nenhum por todos ou por um
eu dou o meu poema o meu tecido
de palavras gravadas com o lume
do medo que na voz trago vencido.

Por nenhum por um mesmo por todos
sou a bala e o vinho sou o mesmo
que pisa as uvas os versos e o lodo
num chão onde a coragem nasce a esmo.


Poema de Joaquim Pessoa


Ainda não me sinto com forças, na fragilidade do meu ser, para aqui estar.
Estou grata pelos vossos afectos e, pelas vossas palavras.
Elas são, realmente, o incentivo que me trazem aqui novamente...