domingo, julho 15, 2007

Cálida...

Imagem de Claude Tháberge



Cálida,
a noite vem nos teus olhos
quando a lua se descobre
e a promessa dos teus beijos
me estremece.

As tuas mãos,
que não tocaram meu corpo nestes dias sem tempo,
viajam no sonho e nas palavras,
florescendo no corpo húmido que se agita no desejo.

Desvendo os sons sentidos no silêncio
e neles quebro meu olhar que se espraia no horizonte,
como nuvem em dia de chuva.

Embalo-me como estrela cadente
ritmada em suave toque,
onde te imagino
percorrendo-me, gota a gota,
sorvida calidamente no desejo dos teus lábios
sôfregos,
que circulam em cada pedaço da minha pele…

És.
Sou.
Imaginação
e
Fim.



Ouvir o poema na voz de Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

segunda-feira, julho 09, 2007

Sabedoria infantil

Confesso que o meu rosto se abriu num largo sorriso, quando me detive aqui



Pintura de H. Fosket

"Nunca te metas com uma miúda que já te bateu uma vez".

(Pedro, 9 anos)
E recordei o Vitó meu amigo-inimigo, como o são todas as crianças na idade que tínhamos.

O Vitó era mais velho do que eu, talvez uns dois anos. Eu via no Vitó aquele irmão mais velho que não tinha e que muitas amigas “exibiam”, quando eram atormentadas pelos meninos que partilhavam as brincadeiras connosco.

É verdade que tinha primos, muito mais velhos que eu, que já não entravam nas brincadeiras de “bebés”, como eles diziam…

Voltando ao Vitó: Ele era um dos meninos que mais me martirizava. Ora me roubava o lanche, ora me puxava as tranças, ora me desfazia e roubava os laços que prendiam as ditas tranças.

Uma tarde de Outono, (como adoro as tardes de Outono) daquelas de antigamente, onde as folhas secas deslizavam pelos passeios, e sabia tão bem calcá-las e patinhar nas pocinhas da chuva, resolvi fazer uma surpresa à minha amiga Teresinha, que morava logo no quarteirão a seguir. A Rosalina, empregada da casa, tinha penteado os meus cabelos numa longa trança, presa por um laço azul, da cor do meu vestidinho.

Contente, agarrada à minha insubstituível boneca Mizé, lá fui pisando todo o folhedo que ia encontrando, no prazer de ouvir os sons que as folhas secas produziam.

Quando passei a casa do Vitó, só me apercebi que ele saltara o muro, como era habitual fazer para evitar a saída dos cães, e que vinha atrás de mim, quando senti que me agarrava no cabelo e o puxava bruscamente de tal forma, que me fez soltar lágrimas dos olhos, enquanto ele ria alarvemente.

Arrastou-me, não sei quantos metros pelo passeio, enquanto eu de lágrimas nos olhos, mas orgulhosa, não soltava um ai, tentando agarrar-me a qualquer coisa, que me fizesse parar.

Nisto, um grito fez-se ouvir:

- Victor Manuel, que estás a fazer? Larga já o cabelo da T… (o meu diminutivo)

De imediato ele largou-me o cabelo, já sem fita e sem trança, que todo desgrenhado caiu-me pelas costas abaixo; levantei-me, sacudi as folhas e a lama do vestido e corri a agarrar a Mizé, que entretanto me caíra das mãos e estava toda enlameada. Olhando para o Vitó, com toda a raiva que naquele momento sentia, disse-lhe muito claramente, na minha vozinha infantil:

- Vou-me vingar, juro que me vou vingar do que fizeste à minha Mizé...

E corri abraçada a ela, ferida no meu orgulho e dolorosamente sentida, por ver a minha boneca favorita, quase desfeita.

Não pensem que a história ficou por aqui. Matutei, onde o havia de ferir mais. E dois dias depois, tive uma ideia luminosa.

Era sabido por todos, que o Vitó adorava chocolates.

Aliás, roubava sempre o chocolate que alguém estivesse casualmente a comer, defronte dele.

Existia lá em casa, uma caixinha que eu estava proibida de mexer, que tinha umas tabletes de chocolate (não recordo o nome), mas que segundo os meus Pais, era para os intestinos, que fazia mal à barriga das meninas.

Peguei na caixa e resolvi nessa tarde, mostrá-la ao Vitó, consciente que ele não resistiria e ma roubaria. E foi o que aconteceu. Arrancou-a da minha mão e correu para o jardim de casa dele, soltando aquelas gargalhadas que tanto me enervavam.

Quando os cães começaram a ladrar, muito antes da sineta do portão tocar, eu nem me mexi. Esperava o resultado.

A Rosalina, de cara muito espantada disse aos meus Pais:
- Está ali a Mãe do menino Vitó, para falar com a menina. Quer saber que chocolate lhe deu, porque o menino está muito mal e até já chamaram o médico.

Bem… não vou entrar em pormenores, do que se seguiu… do raspanete que levei, das imensas desculpas que os meus Pais tiveram que pedir pela minha "ignorância", de que aquilo não era chocolate verdadeiro, mas se o Vitó não o tivesse roubado de mim, não estaria doente, etc...etc…

A partir daquele dia, o Vitó nunca mais se aproximou de mim. Algum tempo depois, viajei com os meus Pais e estive bastante tempo ausente.

Quando regressei e me cruzei com o Vitó na rua, ele mudou de passeio e sorriu-me timidamente…

Sorri também, feliz… A Mizé e eu estávamos vingadas! Afinal, ele tinha aprendido a lição…

sábado, julho 07, 2007

Passar o tempo

É uma página que gosto de ler. Que se tornou um hábito, agarrada a uma caneca de café, vou-a lendo, enquanto ouço a música de fundo. Hoje resolvi partilhá-la, porque me revi neste tempo de que fala… Eis um excerto que vos deixo, o restante… acedam, que vale a pena.


Portugal, my love! - Imagem de Mikolaj Kawa


"O tempo, a decomposição do tempo, a fragmentação do tempo, o tempo cronológico, o tempo virtual, a poeira do tempo, o tempo, então, que tal está o tempo? o tempo de chuva, o tempo de ananases e o das cerejas e melões, o tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem, travar o tempo, movimento perpétuo, competir, conseguir, os livros, claro, o amor é um estupor de palavra que serve para tudo e nada, brincar sem parar, espreitar, comparar, arquivar, deitar fora, o lixo, os livros nas estantes arrumados por cores de lombadas, perder o norte de cada livro, procurar sem encontrar, Deleuze, Shakespeare e alguns mais, não muitos, olhe que não, olhe que não o quê? não muitos e ponto. perguntar pelo que sabe, se não sabe por que raio pergunta? mudar, o cheiro da neve e o som dos passos na neve, palavras novas, o francês, flamengo, limpar, varrer, o telefone móvel e o fixo, gps, mapas, vozes, filmes, espreitar a vida dos outros, puzzles, janelas sem cortinas, ondas de calor na areia, o deserto, homens, desenhos, a temperatura, os meus, os vossos, brincos, colares, cintos, música não toda a música mas a música toda, qualquer coisa que se leia, cartazes de rua, café, chá, supermercados, claro, sim, sim, jornais, sim, televisor e televisão, le petit robert, le grand robert, cadernos, canetas, lápis, afiar lápis, ouvir com atenção, a rede, envelopes e papel de carta, postais, viajar de carro, a bicicleta, a pen, gifs, tipografia, óculos sem óculos não escrevo, não leio mas consigo ver, distinguir, 212, cidades, ruas, automóveis, blogs, livrarias, falar, as árvores, os pássaros, as aves, os tamanhos, a comida, observar os mais pequenos movimentos, apanhá-los no ar, a intuição com ouvidos e sem ouvidos um desastre, a mulher e o homem, religião, igrejas, Deus me perdoe, deus me perdoe, as minhas aprendizagens, o vento e a ventania, l’envol, papelada, carga térmica, palavras que não digo nem escrevo, penas, ervas, comprimidos, morder a língua, responder sempre, não responder sem pensar, ..."
(Excerto daqui
Esta imagem foi-me enviada pela Joana A. que me pediu que a publicasse, com esta frase que a dedica a sua amiga Paula Rodrigues, porque sabe que me lê e que sofreu um acidente de automóvel.
Têem ambas dezasseis anos.

"Há pessoas que nos falam e nem as escutamos. Há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam, mas há pessoas que simplesmente aparecem na nossa vida e nos marcam para sempre."

(Cecília Meireles)

quinta-feira, julho 05, 2007

Companheiros

* Gravura de Albano Neves e Sousa



quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho

e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados

deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros

mas não lego
mapa nem bússola
porque andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver
hei-de inventar
um verso que vos faça justiça

por ora
basta-me o arco-íris

em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço

companheiros

(Poema de Mia Couto)


* Albano Neves e Sousa (1921/1995) poeta e pintor nascido em Matosinhos, soube retratar como ninguém as belezas do povo e da terra de Angola, a sua grande paixão. A sua obra pode ser vista em países como Portugal, Brasil, Espanha, África entre outros. O seu espólio irá estar patente, num futuro próximo, em Oeiras.


Este vídeo formatado a partir de um texto de  Veronica A. Shoffstall   (e não como se indica no vídeo a Shakespeare) é dedicado a um Amigo muito especial…(desligar a música de fundo, p.p.)

terça-feira, julho 03, 2007

Mistérios da Vida...

Imagem Google


"…és realmente inocente! Não vês que aquele post de suicídio, só pode ser falso? Achas que alguém se suicida, porque o namorado vai casar com outra pessoa? Não viste logo que aquilo era gozo que te estavam a dar? …" 
(excerto de um email recebido em resposta a um meu pedido de ajuda, sobre um texto de suicídio, em que inicialmente acreditei)

Respirei fundo e pensei, lendo mais uma vez o email, quão "inocente" era quem me escrevia, se assim pensava.

E pela minha mente passaram vários episódios de que já tive, pessoal ou por interposta pessoa, conhecimento…

Aquela jovem vizinha do quarto andar do prédio pegado ao meu, que se atirou da varanda da sala e não morreu na altura, porque o tolde do café do rés-do-chão lhe amparou a queda, mas meses mais tarde, pegou na espingarda do pai e atirou nela, deixando uma família completamente desfeita, porque preferiram aceitar a primeira tentativa, como um acidente?

Ou aquele jovem, meu amigo de adolescência, que os pais exigiam dele que fosse o melhor em tudo e o mais perfeito, que não aguentando a pressão, tomou não sei quantos comprimidos e nunca mais acordou?

E daquela minha Amiga que cansada dos maus tratos do marido, numa manhã de sol, meteu-se ao mar e não voltou. Dizem que morreu afogada…

Ou aquele industrial meu conhecido, que não aguentando o decair dos negócios, se enforcou no elevador do próprio prédio?

Poderia estar aqui a tentar lembrar-me de tantos e tantos casos, que talvez pudessem ser evitados, se alguém lhes tivesse dado o apoio e compreensão devida.

Apesar de muita coisa já ter mudado, falar de suicídio ainda é tabu para muita gente. Falar das tendências suicidas de pessoas que não suportam as pressões da vida ou os desgostos de amor, é sinal de fraqueza.

Não sei se fui "inocente" ao levar a sério e agir de boa fé, perante o texto que li. Agi segundo a minha consciência e, mesmo que fosse "brincadeira de mau gosto", voltaria a fazer o mesmo. O meu sentimento pela Vida é demasiado sério, para o levar a brincar, mas por vezes, a brincar, resolvem-se situações sérias…

Não é a primeira vez que num dos meus blogues alerto para este assunto. No
Eternamente Menina do Sapo, em Dezembro de 2004 tinha dedicado um post a este tema, impressionada que fiquei pelo texto da Joana, uma jovem bloguista de dezoito anos…

Sou uma pessoa de boa fé, não brinco com coisas sérias, mesmo que possa imaginar que, alguém possa brincar com elas…e acredito, que em qualquer momento, quem pensa em suicidar-se fez um pedido de ajuda, mesmo que involuntário.