A primeira das 11 cartas de Marta para Maria e um poema que aqui vos deixo de Graça Pires,
retirados do seu novo livro "não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos"
Desenho de António Ramos Rosa
"Foram os olhos. Foram os olhos dele, quando pousaram, devagar, sobre os meus olhos, que me trouxeram esta sede até esse momento apenas pressentida. Foram os olhos dele, tão acesos nos meus, que encheram os meus olhos de estrelas e de sonhos e de lágrimas e de pássaros errantes. E juro que pensei: não me importava de ficar cega de tanto o olhar, porque a imprevisível cor de todas as madrugadas ficará, para sempre, intacta no meu peito. Desde então, os meus olhos atraem a nitidez da noite e as aves nocturnas deslizam no meu corpo, para lamber a lua escondida nos meus lábios. Cerro as pálpebras à inquietude da manhã […]"
(Excerto)
Quando a véspera
do mais prolongado sossego
me fere a solidão da infância
quero um momento,
apenas um momento,
para que o excesso de luz a prumo
amotine as palavras nos meus lábios
e as confunda com a quietude
urgente da paisagem.
De pulsos iluminados
poiso a voz no fundo da tristeza,
para expor a voz de outrora: no dia mais bonito
que vier irei, sem rumo algum, ao deus-dará,
procurar um lugar para morrer,
as vezes que eu quiser, até nascer sem dor.
Graça Pires
in "não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos"
(Págs 9 (prosa) e 38 (poema)
Para quem vive em Lisboa ou arredores, o livro poderá ser adquirido na Livraria A Buchholz ou pedido directamente à autora.