quinta-feira, maio 10, 2007

A FEIRA

A versatilidade de Helena Domingues não pára de surpreender-me. Senhora de uma veia poética de excelência, alia a sensibilidade ao humor…por isso não resisti a “roubar-lhe” este poema …


Imagem recolhida da internet por Helena Domingues



Venha, menina, venha
Quem aqui vem
Não se acanha.
Venha que tudo é barato
Desde o chapéu, ao sapato.

Venha aqui à minha venda
Tenho pratas, candeeiros
Vestidos de fina seda
Brincos falsos, verdadeiros
Se não houver, encomenda.

Venha, que tudo lhe dou:
Chita ao metro, ao desbarato
Desde o moderno ao antigo
Cuidado aí com o prato!
Que é do século que passou

Olhe-me aqui estes livros!
De poetas, prosadores
Alguns não são conhecidos
Outros são grandes doutores
(ou tal se julgam) coitados.

Espere aí, não vá embora!
Pois mais tenho p’ra mostrar:
Este espelho biseauté
É rara oportunidade;
Mire-se nele você
Que lhe ofereço essa vaidade

Feira da Ladra (seu nome)
Ela é de todos nós
Que tal, dar-lhe um cognome?
Da vaidade?
Vacuidade?
Que importa?
Se no final
Tudo é inicial
Mais não seremos que pós.

(Poema de
Helena Domingues)

terça-feira, maio 08, 2007

Lugar aos Outros 52



Há precisamente oito meses, dizia aqui expressamente, a propósito do Lugar aos Outros 20, o seguinte:

“São decorridos pouco mais de quatro meses que através do audioblog do Luís Gaspar se iniciou o primeiro programa do Lugar aos Outros, um espaço especialmente criado e nas palavras do seu autor “…onde se divulga a escrita de quem ainda não chegou ao estrelato”.
Hoje cumpre-se o vigésimo programa, onde na voz inconfundível do
Luís Gaspar se lerá mais uma vez, textos e poemas de, na sua maioria, autores de Blogues.
A disponibilidade e o carinho que se verifica em cada programa, de temas diversificados, traduzem o encantamento com que o autor do programa dialoga com as palavras.
É esse incentivo altruísta que quero hoje deixar aqui bem expresso, no agradecimento que faço ao Luís Gaspar, por todo o trabalho e empenho tido na divulgação dos trabalhos daqueles que a maioria das vezes e, como é o meu caso, “escreviam para a gaveta”.”
Decorrido que é o primeiro aniversário ou seja, perfaz cinquenta e duas semanas sobre a primeira edição, de um programa que, na sua essência, se dedicou a divulgar a poesia de autores da blogosfera, quero expressar aqui o meu agradecimento em nome da dedicação demonstrada a todos nós, desejando que nos continue a proporcionar as belas leituras com que nos tem brindado. Parabéns e


Obrigada


segunda-feira, maio 07, 2007



Em mês de aniversário deste blogue cuja inauguração aconteceu, precisamente neste dia... quero agradecer a todos os que por aqui passam deixando um pouco de si, com os seus comentários e afectos.

Alguém me chamava a atenção um dia deste, que o contador acusava a entrada de 120 000 visitantes, sem que tivesse sido referido o facto e porque não usava este blogue, o famoso "site meter" para saber quem eram os visitantes...

A verdade é que, é muito mais importante para mim, a partilha que comungo, os afectos que dedico e me dedicam, que os números do contador e até do tal "site meter", que nunca tive nem terei, neste ou noutros blogues, por uma questão muito simples: a minha ligação aos blogues, está mais na partilha que faço, do que na preocupação de saber, quem entra ou sai.

Mas hoje e para satisfazer o meu prezado amigo que se assina J.N (não quer que divulgue o seu nome e respeito isso) que quer saber, quantas postagens tenho ao longo deste blogue, direi que em 24 meses, 240 postagens é mais que suficiente para me deixar muito feliz pela partilha que aqui consegui, não obstante os interregnos que tenho feito pelo meio.

Já por diversas vezes tenho partilhado, aquilo que por vezes me vão deixando despretensiosamente nos comentários, mas que engloba num todo, todo o carinho que sinto, vindo daqueles que por cá passam.

Partilho hoje um poema que foi “construído”, tendo por base palavras minhas e que foi deixado, anonimamente, num comentário.

Ao seu autor, os meus agradecimentos.

O meu abraço e o meu grande afecto e a todos dedico, estes dois anos de vida do Menina Marota…


Pintura de Washington Maguetas

Oh, meu Amor, nas noites de insónia..É vão o teu desejo, quente, do meu beijo...e, igualmente vão o desejo,de eu ficar indiferente, ao chamamento,
ardente do coração!Calada, magoada...os sentimentos em turbilhão...
O nosso amor, jamais esquecido,o meu amor...o teu amor, nesta teia que nos une...Nos funde e confunde ...
Foi doçura, é plenitude.Amadureceu...Foi loucura. É loucura!O (re)encontro de um "EU"
Frenético, tantas vezes patético,alucinante!... delirante...Soube há aragem, algo selvagem,de pinheiros, agrestes, da selva...
À brisa do mar, à seiva das plantas...À velocidade da distância, ao lugar...que percorreste sem pensar...Sem saber... que existia, sequer!
Esquecer-te? Não ouso!Esqueceres-me? Jamais!...Jamais será possível!Quem ama não esquece!...
Reconhece...
O homem do espelho... à noite, ao luar!

Quer queiras ou não, a verdade aparece...Viverás na saudade de - de nós...
Um Amor feito de palavras,de nós, e amarras,de sons... de doces afagos, nos gestos vagos...parados, na ética imposta ...
E...
Do meu olhar, de negrume,no teu olhar...maresia.. perfume.De corpos suados, de tão desejados...de beijos molhados...calados... não dados.
Do teu corpo, em pensamentos,dentro do meu... colado!Fundido... Um só.
Sexto sentido..
(Re)encontrado de si...
De vidas passadas... de outros momentos.
Esquecer-te não será fácil. Não ouso tentar!Esqueceres-me também não! Não queres ...
E, sempre que a luz do poente,vermelha se acender, lá longe no final do dia,vais pensar que sou eu, (e sou)...Porque o teu coração, conhece...quer queiras ou não, aquele que ama ...
Lembrará sempre, o encantamento,desta paixão, e de cada momento,de um Amor que foi teu!...Que jamais se perdeu...
Porque habita para além do Céu....
Na Montanha mais alta da convicção.

(Sinfonia a Quatro Mãos)
Autores: MM e anónimo


Adaptação do poema… e por falar de Amor…(As cores correspondem a cada autoria…)

sábado, maio 05, 2007

Apetece...


Fotografia de Howard Schatz


apetece por vezes com os dias morrer por um pequeno
instante e deixar os fogos soltos na areia. acrescentar
água à face e perturbar os sentidos em busca da única
luz ou então sentir os movimentos e escrever a uma

amiga. dizer assim como quem fala: que espécie rara
de deus é o teu? a vida é ficar abraçado às dunas
apenas se há dois braços de areia por quem sonhar.

vir então aos poucos contando os mastros do verão
cumprindo o desejo das cartas de mar e assim mesmo
confundir todos os relógios da rota apenas para ter

mais tempo para ficar. o resto é saber o alfabeto de
cor até ao fim para que as palavras vão nascendo
devagar até ser sonho no sono dos dias ou ser sono
dentro de mim

(Poema de João Luís Barreto Guimarães)

terça-feira, maio 01, 2007

E no olhar jorra a alma do Poeta...

Apesar da chuva torrencial que se fez sentir durante toda a viagem, o sol brilhava quando cheguei ao meu destino, como que a dar-me as boas vinda, feliz com o meu encontro com a Helena Domingues .

O encontro com o Poeta, foi algo que não mais vou esquecer. O brilho do seu olhar, realçado pela brancura cor de neve dos cabelos, só era realmente ultrapassado, pelo sorriso e pela forma carinhosa como nos recebeu e falou da sua obra.

Fomos surpreendidas pela chegada de Eugénio Montejo, um dos principais poetas venezuelanos de finais do século XX, que animou ainda mais o Poeta.

Foi vê-lo a ler e explicar a sua poesia de olhos brilhantes, com uma mente assaz lúcida e uma memória incrível. De um humor fino, galanteador, foi uma estrela que brilhou durante a tarde, com a alegria expressa no rosto, enquanto lia poesia com voz suave ou nos mostrava os desenhos que fez questão de oferecer amavelmente, a cada um de nós.

António Ramos Rosa, com toda a simplicidade, falou-nos do que achava da política actual, dos seus poemas, dos escritores que o influenciaram, da ajuda que gostava de dar às jovens editoras, do relacionamento com o mundo exterior...

Uma tarde, em que a alegria e a boa disposição imperaram e na hora da despedida, fez-nos prometer que voltaríamos.

Até um dia destes, Poeta…








O teu canto vem da raiz das lágrimas
e embora plangente é uma coluna de ouro
que reúne o fogo e a água
e respira o azul do céu
propagando a alma do desejo e a sua luz submersa

Arde porque atinge a altura viva
e treme na sua nudez como uma estrela
adolescente
que descobre ascendendo a sua trémula fidelidade
e um misterioso centro onde as ondas são asas
e as sombras levantam as mãos para o puro espaço
da correspondência visível a um coração imerso
na invisível matéria sob uma chuva errante
que reúne as idades entre o meio-dia e a meia-noite
numa profunda rosa ou numa lua selvagem
que exala o odor dos antiquíssimos segredos de
um reino submerso



Poema de António Ramos Rosa


António Ramos Rosa e MM