quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Dispersões em espiral.

Como estão recordados resolvi partilhar autores que fui lendo através da blogosfera e que editaram as suas obras.
Alguns deles editaram em prosa, pelo que irei referir, aleatóriamente, aqueles que me deram a honra de partilharem comigo as suas publicações.

Fotografia de José Alberto Mar




A memória em espirais.Baús de teias e segredos. Desafios. Homens, mulheres, pessoas em mistificas idiossincrasias, papéis bolorentos, com cheiro a pergaminhos e nudezas atiradas para os sótãos onde tudo se guarda. Apenas a vida se esvai neles.

O mais profundo silêncio ouve-se.
[Os silêncios são a forma mais barulhenta de alguém se fazer ouvir]

Cores e sons do âmbito do alucinogéneo fazem-se também sentir. E ver.

[A ausência é a forma mais presente de alguém se manifestar]

Por isso estás tão perto. Pelo silêncio e pela ausência.

Como se de um redemoinho se tratasse, o pensamento espiral, ou em espiral atira-me para terras quentes, agora frias em busca de ti.

Sentes-me porque sinto que me sentes.
Eu adivinho-te nesta ausência. Sei-te aqui.

[Este saber não é apenas intuição. Palpa-se.]

Sabores de seios, aromas de peles, desígnios feitos olhos. Verdes/azuis. Ou cobaltos.
Ametistas de todas as cores povoam-me pensamentos e sentires.

[Sabes que as ametistas têm as cores que lhes quisermos dar?]

Sabes.

A Lua banha-me e banha-te. Estamos afinal à distância de uma Lua. Apenas.

[As Luas, todas as luas não têm distâncias. Estão dentro de nós]

Lábios desenhados (bem) carmesins/desejo buscam-me. E buscam-te.


[Sinto o calor do teu corpo]

Pudera. Está encostado ao teu!

[Sinto o teu desejo]


Vais senti-lo.


António José Pinto Correia in Insónias e afins (Pág. 57)



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sábado, fevereiro 17, 2007

Paisagens da mesma solidão

Imagem Daniel Coelho in Olhares.com


Ninguém me disse, um dia,
No escuro
Que há palavras que são sítios por dentro.

Ninguém me disse, um dia,
Que há noites que são quase lugares.
Paisagens da mesmo solidão,
Plena de outros lados:
As lágrimas principais.

Como ruas assim,
Que se existissem de tanto silêncio,
Seriam planícies de mais frias
E despovoadas,
Morrendo com tanta força que nunca
Se encontrariam no mesmo medo.

Porque no silêncio,
Há sempre o perigo de palavras às escuras
(onde tenho todas as ruas do mundo
À minha espera)

Duarte Temtem in o poema insone (Pág.29)

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segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Um Eu Feito de Tudo

Imagem de Jorge Castro


Nem eu sei bem que tenho em mim
que jeito tenha
neste querer de tudo querer levar a peito
e dou por mim ao rés do mar
contemplativo
num só instante embevecido de abandono

O que me turba nem é tanto a brisa leve
que me chega ao fim da tarde
redentora
É mais a cor
a invadir o ar que sorvo
quase-gracejo mesclado em sol e nuvens
e o mar
ventos de sal
em meu redor
um manifesto ou paleta de vontades
que a mim me fazem pertencer ao mundo todo

Assim me sei feito de tudo
junto ao mar
que nos traz sonhos reais como marés
e traz com elas conchas
algas
e até
o resto antigo de algum leme naufragado.


Jorge Castro(Orca) in "Contra a Corrente"(Pág.19)


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quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Alegria...

Imagem de Isabel Filipe


Hei-de comer a alegria às dentadas.
De manhã saboreá-la-ei
lentamente,
degustando.

e o seu gosto inebriante
desfar-se-á na boca e espalhar-se-á
por todo o corpo
com o gosto das penas de um pavão.
Cintilante.

Dar-lhe-ei dentadas
até a fazer rir às gargalhadas
com cócegas
e finalmente toda minha
e de todos
repô-la-ei, inteira
e esfuziante.

TMara (Conceição Paulino 
in,"As Tarefas Transparentes!(Pág. 18)



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sábado, fevereiro 03, 2007

Dois mundos...

"Partilhar para mim, não é só a dádiva de receber. É também oferecer aos outros, aquilo que me oferecem a mim.

Assim sendo, e porque é justo fazê-lo, vou prestar o meu agradecimento público a todos aqueles que tiveram a gentileza de, ao longo de dois anos, enviarem-me as suas publicações. 


A escolha é puramente aleatória. Depois de já os ter lido, empilhei-os em cima da secretária e vou-os referindo.", dizia num outro local, a propósito da partilha que vos oferecia.

Continuando com o propósito a que me dispus no início deste ano, partilho mais uma poeta…

Imagem de autor desconhecido

Em cada dia,
Vivo dois mundos.
O da claridade:
Onde a escuridão me abraça,
Presa que me sinto
A tudo que me é imposto.
O da escuridão:
Neste, sinto a claridade
Liberto-me,
Abraça-me apenas,
A transparente liberdade
De ser…


Maria do Céu Costa
in, "Sentimentos no Silêncio"(Pág.15)


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