sexta-feira, junho 03, 2005

Hoje...

Pintura de Tori Richards



Acordei com vontade de fazer amor. 
Não comeces a divagar já... não, não é aquela vontade louca de sexo, de fazer amor desenfreado, de ir à lua e voltar...
Não...
É sentir o carinho da tua mão percorrendo o meu cabelo, a maciez dos teus lábios, carinhosamente na minha pele. O teu cheiro a inflamar o meu sentir.
Olhar os teus olhos, percorrer-me neles, perder-me no teu amor.
Hoje acordei com vontade de um afago, de sentir a tua pele de encontro à minha...
Olhei em meu redor...a cama vazia, fria...imaginei-me envolta naqueles lençóis, cabelos espalhados no teu regaço, cobrindo o teu corpo de beijos...
Os ecos de um poema ocorrem à minha mente…

"Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser sua,
Tenho outras de ser sozinha
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu "

Esta diversidade de pensamento que tão bem nos disse Cecília Meireles na sua "Lua Adversa"... ecoa em mim...
Tive-te no pensamento e ... esta vontade louca de me dar, de sentir o teu carinho, fome de te ter... de te possuir.
Hoje acordei com vontade de fazer amor.
Mas não passou de vontade...a minha vontade.

sábado, maio 28, 2005

Estrela da Tarde

Ragne Kristine Sigmond
Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!


(Poema de José Carlos Ary dos Santos)


Andei com este poema o dia todo na ideia...Cantei-o mentalmente, recordei a voz que o cantava também... partilho com todos para que a Estrela da Tarde nunca deixe de brilhar...

sábado, maio 21, 2005

Quem há-de abrir...

Imagem de Rosina Wachtmeister

Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?


Sempre que pode
foge prá rua,
cheira o passeio
e volta para trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.

Quando abro a porta corre para mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.
Repito a festa,
vagarosamente.
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas.
e rosna.
Rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.


Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?


António Gedeão

segunda-feira, maio 16, 2005

Para lá do horizonte...



Anoitece em mim
o desejo de te ter;
olho para lá do horizonte
e nada resta de um louco querer.

Saudades que não se têm,
sem se querer,
palpitando um desejo de liberdade,
sem sentir mágoa,
de um amor que passou.

Resta o amor à vida,
liberdade de me sentir querida,
porque, na secura das palavras,
morreu pouco a pouco,
um amor que foi puro,
um louco desejo inspirador,
de sorrisos do tamanho
do Mundo.

Hoje, para lá do horizonte,
existe um arco-íris
à minha espera,
uma promessa de quimera,
porque voltei a sorrir.



Pintura de Stephanie Pui-Mun Law

sábado, maio 14, 2005

Flores e... Poesia...

Imagem Google

Quando a ternura 
parece já do seu ofício fatigada, 

e o sono, a mais incerta barca, 
inda demora, 

quando azuis irrompem 
os teus olhos 

e procuram 
nos meus navegação segura, 

é que eu te falo das palavras 
desamparadas e desertas, 

pelo silêncio fascinadas. 

Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"