quinta-feira, junho 20, 2019

Depois da chuva



Abre a janela, e olha! 
Tudo o que vires é teu.
A seiva que lutou em cada folha,
E a fé que teve medo e se perdeu.

Abre a janela, e colhe!
É o que quiser a tua mão atenta:
Água barrenta,
Água que molhe,
Água que mate a sede...

Abre a janela,
quanto mais não seja,
Para que haja um sorriso na parede!

Miguel Torga – in Diário XV




Sempre me identifiquei com este poema.  Direi até: adoro este poema!
E abro a janela. E sorrio. 
E apetece-me Verão. Dias quentes. Sol.
Os pássaros chilreiam debicando o prato de comida que coloco a meio do terraço, debaixo da mesa, ao lado de uma taça de água. 
Agora, sem o Sting a assustá-los, é vê-los empurrando-se ou, muito simplesmente, mergulhando as cabecitas na taça de água. 
Esvoaçam ou saltitam de um lado para o outro. Desisti de os fotografar. Ao mínimo movimento levantam voo. Mas... é uma delicia observá-los.
A gata Yuki de visita, em férias, em minha casa, segue-os com aqueles grandes olhos amarelos. Acho que ainda não tinha dado bem conta, noutras visitas, da existência de tais exemplares soltos no terraço, habituada que estava a ver o Pipoca na sua gaiola amarela
Até me assustei quando a deixei ir apanhar sol e uma pega, nada habituada a ter o terraço ocupado com tal ser, começou a grasnar com tal força que corri a tirar de lá a gata, não fosse ela atacar a bichana tal eram os gritos que dava. 
Aquela ave preta e branca de cauda bastante comprida é assídua visita do meu terraço. 
Primeiro uma, depois outra, agora são um par que fazem companhia aos pardais e outros pequenitos de que não sei o nome e lhes roubam os bocados de pão que coloco no prato. 
Divirto-me com estes pequenitos que alheios à minha presença saltitam de um lado para o outro na luta de migalhas para a sua sobrevivência. 
E cantam felizes.

Um visitante na hora do lanche
Que estará a dizer a Yuki ao Pipoca?
Será que o bicharoco já se foi embora?

Amanhã chega o Verão. Chegará mesmo?  

segunda-feira, março 11, 2019

Amor Canino



Adeus, meu Sting

Nunca te vou esquecer. 




Partiste 
E meu coração
Por entre lágrimas e sorrisos 
Lembra tudo que nos deste. 



Energia brincadeiras correrias. 


Partiste 
Mas fica para sempre a lembrança
Do teu entusiasmo
Lealdade
Ternura
Compreensão
Os teus sons ficam na memória 
Tua presença na imaginação. 



Partiste
Os teus passinhos pela casa
Já não se fazem ouvir. 
O som dos teus latidos 
 Não chamam a atenção. 
O teu corpo pequenino
Não se enrola nos meus pés
O calor do teu afecto
Não me enche o coração 



Partiste
As tuas pequenas asneira
Já não me fazem zangar
Os nossos passeios ficam por dar
E as escovas do teu pelo
Não mais te vão escovar. 



Partiste
Mas vais ser sempre
O meu pequenino.
O meu amor canino 
O meu Sting
A minha adoração.



Um dia, quem sabe
Nos reencontraremos. 


10-10-2002 - 09.03.2019



Até Sempre, Companheiro!


sexta-feira, fevereiro 15, 2019

Caminhando...

Ao som da música que envolve meus sentidos, recordo um episódio recente num dos meus habituais passeios diários.
Não sendo costume caminhar por aquela rua movimentada demais para meu gosto, atravessada por passadeiras (sem semáforos) que, raramente, são respeitadas pelos automobilistas.
Chego a meio do passeio onde, um jovem de altas pernas, de auriculares e, um aparelho que não distingo o que seja, numa das mãos (provavelmente tlm), atravessa em quatro passadas a larga rua sem tirar o olhar do mesmo. 
Duas jovens, de mochilinhas cor-de-rosa penduradas nas costas, risinhos cúmplices, pés dentro e fora do passeio, conversam animadamente.
Atrás delas, de mãos dadas, avó e neta, como vim a constatar.
Os automobilistas vão passando, alheios à passadeira e a quem nela quer atravessar.
A jovem que não teria mais de uns oito anos, comenta admirada:
- Viste, Vó, aquele rapaz nem olhou. Atravessou a rua daquela maneira e o carro é que teve que se desviar. 
- E depois admiram-se se são atropelados - responde a senhora. Nunca faças isso...
- Eu cá não! - responde a garota.

Os carros vão passando até que repentinamente, um desacelera e pára quase em cima da passadeira, fazendo-nos sinal para avançarmos.
As jovens avançam rapidamente entre risinhos e conversa.

De mãos dadas, à minha frente, mais devagar, avó e neta iniciam a travessia, agradecendo com um sorriso à condutora. Eu fiz o mesmo.
- Viste, Vó? As raparigas nem agradeceram - reclama com vozita admirada a jovem. Mas deviam, não achas? 
- Talvez pensassem que era obrigação do condutor, sei lá. Nós agradecemos e é o que importa. É assim que deves sempre fazer.
- Isso sei eu, Vó. Mas tu não achas que… 

O meu passo mais apressado impediu ouvir o resto da conversa. Interiormente sorrio pela observação da jovem.

Penso no meu “papel” de automobilista e peã. 
No quanto é agradável ver o sorriso na cara de alguém quando se dá passagem. 


Por isso sorrio quando sou peã.
(Inicialmente escrito no FB)


Imagem Google


quarta-feira, janeiro 02, 2019

E já estamos em 2019!



ESPAÇO SIDERAL

Um dia
somos crianças,
irreverentes,
audazes, corajosas.


Um dia
descobrimos,
a real virtude do mundo,
ou a irrealidade das coisas 
que o compõem. 


E o sonho? 
Onde fica o sonho
de tudo o que esperamos? 


E a dor
de tudo o que perdemos?
Do que sentimos?


Importa?
Sorrimos para a dor.
Quem a vê?
Quem a sente no nosso íntimo?


Inolvidável a cicatriz aumenta. 
Uma a uma. 
Invisível. 


A vida continua. 
No espaço sideral
nada se perde.
Tudo se recria e permanece. 


Ontem que já é hoje. 
A infância lá longe 
curva-se ao instante que 
antecede o amanhã. 


Somos o tempo. 
A roda gira 
e, nela,
todos nós. 



Que 2019 seja repleto de felicidade! 

segunda-feira, dezembro 24, 2018

Falavam-me de Amor

Presépio pessoal


Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas, 
menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.


Natália Correia
 in, "O Dilúvio e a Pomba"


segunda-feira, julho 30, 2018

Quando o Verão nos passa pela cara...

Finalmente... segundo os entendidos... ele está a chegar: o Verão. 
O Verão de sol resplandecente e calor abrasador a apetecer mergulhar na água fresca...
Ele está a chegar... O Verão!🌞
Bom dia! 
 🌻

Pintura de Carolina Landea

Como quem num dia de Verão abre a porta de casa 
E espreita para o calor dos campos com a cara toda, 
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa 
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber 
Não sei bem como nem o quê...

Mas quem me mandou a mim querer perceber? 
Quem me disse que havia que perceber?

Quando o Verão nos passa pela cara
A mão leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo...


Alberto Caeiro, "O Guardador de Rebanhos”,
 in Obras Completas, Vol. I, a págs. 195


Em dia do meu aniversário flores para vós que me acompanham ao longo dos anos.
Obrigada!

segunda-feira, maio 07, 2018

Pássaro.

Pintura Jaroslaw Kukowski


Abraço o pássaro 
que carrega nas penas
a força do vento
e transporta em si
o mistério infindável
das nuvens 
e das gotas de chuva
que tecem o firmamento.

Voa pássaro
que adejas sobre as ondas
e nelas vês sereias
a cantar no imo do mar.

E ao longe 
entre rios e lagos
planícies e montanhas
nas asas do tempo
não te detenhas.
Voa. Voa.

quinta-feira, abril 26, 2018

Escrito no Muro

Tinharé Sunset (Brasil) - tirada pela filhota Sandra V.

Procura a maravilha.

Onde a luz coalha
e cessa o exílio.


Nos ombros, no dorso,
nos flancos suados.


Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.


Ou a sombra espessa.

Na laranja aberta
à língua do vento.


No brilho redondo
e jovem dos joelhos.


Na noite inclinada
de melancolia.


Procura.

Procura a maravilha.


de, Eugénio de Andrade
in, Obscuro Domínio 




terça-feira, abril 17, 2018

O teu aniversário

Hoje é o dia do teu aniversário. 

Sempre será assim lembrado este dia, tal como nesta fotografia.

Tenho ainda presente a lista dos pedidos que me fizeste no ultimo que passámos juntos. 

Sabias que eu ia refilar com tudo o que pedias à excepção do cd do Carlos Paredes.

Foi a única coisa que, de boa vontade, te ofereci. 

Tudo o resto sabias que eu não concordava e que te fazia mal. 


Tal como fumares ou comeres o que pediste. 


Mas fiz-te a vontade.


Pudera. Depois de tanto me azucrinares o juízo acabei por condescender.


E ficaste feliz a fumar o cigarro proibido, de copo na mão, ouvindo a guitarra de Carlos Paredes.


Não sei se pressentias o fim. Não sei se a tua lista foi o derradeiro pedido antes do final.


Fui apanhada de surpresa. O choque foi brutal.


Durante estes anos tenho-me armado em forte mas ainda não consegui superar.  Às vezes dá-me a sensação de ouvir as rodas da cadeira e volto-me. E deixo-me ficar quieta alheia a tudo o resto.


Hoje é o dia do teu aniversário.

Como há quatro anos. Uma quinta-feira, lembras-te?

Três dias depois, deixaste-nos. Era Domingo. Domingo de Páscoa.

Não te digo até já. Nem até breve.

Sabes que amo a vida. Sempre soubeste. Tenho ainda por quem querer viver.  Os filhos. O neto. Vê-lo crescer é um bálsamo, uma força indescritível, onde me agarro quando o desanimo toma conta de mim.

Confesso que não foram fáceis os catorze anos que estiveste doente. Mas agarrei-me a tanta esperança. Lutei tanto por ti. Que agora a tua ausência é muito mais penosa do que foi a tua doença.

Por vezes nem acredito que já passaram quatro anos desde a tua partida.

Foi no Domingo de Páscoa.

Hoje era o teu aniversário. 

  
Quero assim recordar-nos.  Felizes.

Tenho memórias floridas 
do encanto dos teus olhos 
nos meus.

Tenho memórias floridas 
das tuas mãos no meu ventre
pela manhã.

Tenho memória das memórias
que o tempo faz permanecer
como rosa das areias no deserto

Tenho memórias de ti,
de mim, de nós.



quarta-feira, abril 11, 2018

Os Pássaros Brancos



Quem me dera que fôssemos, amor, 

pássaros brancos sobre a espuma do mar!
Cansarmo-nos da chama do meteoro 
antes de ele fugir e se extinguir;
E a chama da estrela azul do crepúsculo, 
suspensa sobre a orla do céu,
Despertou nos nossos corações, amor, 
uma tristeza que não pode morrer.

Humedecido de orvalho chega o desengano
daqueles que sonharam o lírio e a rosa;
Oh, não sonhes com eles, amor, 
a chama do meteoro que passa,
Ou a chama da estrela azul que se detém suspensa 
na queda do orvalho,
Pois que bom que era que fossemos pássaros brancos 
sobre a espuma errante: eu e tu!

Estou assombrado por inúmeras ilhas 
e muitas praias de Danann
Onde o tempo certamente nos esqueceria 
e a Tristeza não mais se aproximaria de nós;
Em breve estaríamos longe da rosa e do lírio 
e seríamos consumidos pelas chamas,
Se ao menos fôssemos pássaros brancos, amor, 
flutuando na espuma do mar!

William Butler Yeats
in, Poemas de Amor
a págs. 62/63


quarta-feira, abril 04, 2018

POEMA PARA A PRIMAVERA


Fotografia  pessoal


As estrelas chegaram com a noite
de mansinho.
 O coração ficou sonhando
com a beleza de cada pôr-do-sol 
que existe na vida, 
mesmo em dias tristes, 
quando a alma chorando 
se quer feliz.

A noite adormeceu na esperança
que o dia se faça amor
e com ele toda a tristeza
desapareça no raiar do sol 
em cada amanhecer.



FELIZ PRIMAVERA! 

domingo, abril 01, 2018

A uma cerejeira em flor



Acordar, ser na manhã de Abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, ou o quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja


Eugénio de Andrade in,  As mãos e os frutos

quarta-feira, março 28, 2018

Páscoa 2018




Todo o poema começa de manhã, com o sol. Mesmo
que o poema não esteja à vista (isto é, céu de chuva)
o poema é o que explica tudo, o que dá luz
à terra, ao céu, e com nuvens à mistura – a luz incomoda
quando é excessiva. Depois, o poema sobe
com as névoas que o dia arrasta; mete-se pelas copas das
árvores, canta com os pássaros e corre com os ribeiros
que vêm não se sabe de onde e vão para onde
não se sabe. O poema conta como tudo é feito:
menos ele próprio, que começa por um acaso cinzento,
como esta manhã, e acaba, também por acaso,
com o sol a querer romper.

Nuno Júdice in, Gênese


quarta-feira, março 21, 2018

DIA DA POESIA

A todos vós, neste Dia, deixo estas flores e o meu muito OBRIGADA por ao longo deste tempo terem-me acompanhado com a vossa presença e palavras.

O meu ABRAÇO🌻❤️





DIA DA POESIA


Sonhei que escrevia
um poema nas ondas do mar 
e as letras docemente 
espraiavam na areia fina 
formando as estrofes da minha memória 
saudando a Poesia 
neste seu Dia.

segunda-feira, março 12, 2018

Sorria...


"Só me dirijo às pessoas capazes de me ler e essas poderão ler-me sem perigo."
Marquês de Sade

sexta-feira, fevereiro 23, 2018

Mar vibrante



Sacudo o nevoeiro que trilha meu corpo.   
Fixo o mar prateado onde apetece mergulhar 
e nas suas ondas, 
perigosamente vibrantes, 
deixo-me embalar.

Vigilantes gaivotas
em rodopio ousam voar,
alertas de um tempo biológico 
que não pára de girar.

Cativa do som das ondas, 
do mar que ouve meu canto, 
embalo-me madrugada dentro 
no murmúrio do fascínio 
que me quer despertar.


quarta-feira, janeiro 24, 2018

Absoluto

Claudia Lucia McKinney

Receber o sol 
como quem recebe
o primeiro beijo.

Dádiva de deuses 
limpando nuvens 
abrindo horizontes 
no azul infinito.

íman em mar refulgente
calma do absoluto ausente.