sábado, dezembro 24, 2016

Natal 2016




HISTÓRIA ANTIGA



Era uma vez, lá na Judeia, um rei.

Feio bicho, de resto:

Uma cara de burro sem cabresto

E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças. 

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.  

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Poema de Miguel Torga.


O Sting e eu desejamos que o espirito Natalicio se estenda em todos os corações.
Dia 25 de Dezembro é a data do Nascimento do Menino Jesus.

Feliz Natal

Foto pessoal com o Sting a tomar conta do Presépio. 

sábado, junho 18, 2016

"Para um amigo cujo trabalho deu em nada” W.B. Yeats



Agora sabe-se toda a verdade,
Sê reservado e aceita a derrota
De qualquer garganta sem vergonha,
Pois como podes tu competir,
Sendo educado na honra, com alguém
Que, se se provasse que mente,
Não se sentiria envergonhado nem aos seus
Olhos nem aos dos vizinhos?
Educado para uma tarefa mais dura
Do que o Triunfo, afasta-te
E como uma corda sorridente
Tocada por dedos loucos
No meio de um lugar de pedra,
Sê misterioso e exulta,
Porque acima de tudo
Isso é o mais difícil.


in, "Os pássaros e outros poemas"


terça-feira, maio 24, 2016

APELO


Noell S. Oszvald


Quem quer que sejas, vem a mim apenas
De noite, quando as rosas adormecem!

Vem quando a treva alonga as mãos morenas
E quando as aves de voar se esquecem.

Vem a mim quando, até nos pesadelos,
O amor tenha a beleza da mentira.

Vem quando o vento acorda em meus cabelos,
Como em folhagem que, ávida, respira...

Vem como a sombra, quando a estrada é nua,
Num risco de asa, vem, serenamente!

Como as estrelas, quando não há Lua
Ou como os peixes, quando não há gente...

Pedro Homem de Mello, in "e ninguém me conhecia", 
a págs.73 (2004)


quinta-feira, março 31, 2016

Foi num Domingo de Páscoa...

Foi num Domingo de Páscoa que partiste. 
Parece que foi a semana passada e já faz dois anos. Não interessa o mês. O dia. Foi no Domingo de Páscoa e assim, até ao meu fim, o recordarei. 
Nada foi esquecido. De entre dor e sofrimento também houve momentos de grande felicidade.  
Dizer que esqueci o mau, era estar a mentir. Mas relembro, sobretudo, os dias bons. O amor que nos uniu. A nossa cumplicidade. 
O riso que entoava dentro de nós.  A felicidade que sentia quando te sentia bem.
Partiste de repente.  E não consigo recuperar dessa partida.
Há quem diga que as redes sociais não são para desabafos. 
Não fica bem mostrarmos a nossa sensibilidade, em suma, a nossa fraqueza.
Que importa isso?  
Sou como sou e não me importa o que os outros pensem. 
Preciso de soltar a minha alma. Especialmente nestes momentos. 
Quem me ouvirá nestes dias que acordam cinzentos? 
A quem dizer dos sentimentos controversos que me abalam em dias de tempestade espiritual?
Contigo, sofri, chorei, mas também tivemos belos momentos que tento preservar. 
Não porque partiste. Mas porque sou assim mesmo. Nos catorze anos da tua doença nunca te abandonei. Mesmo nos momentos de maior sofrimento não abandonei o barco. 
Fui boa capitã, não fui? Era assim que me chamavas, naqueles dias de bom humor que tanto me faziam sorrir.
O dia acordou cinzento. Tal como a minha alma.
Tu partiste no Domingo de Páscoa. 

E depois de todas as tempestades que nos assolaram é assim que NOS quero recordar.  
Estejas onde estiveres, recebe o meu sorriso.



terça-feira, fevereiro 02, 2016

QUERIA

Vincent van Gogh (Sunflowers)


Queria ser um girassol. 
Rodar ao sabor do sol.

Queria ser o mar 
de altas ondas verdes 
nos braços do firmamento 
o vento abraçar. 

Queria ser toda a ternura do mundo 
e num abraço fraterno 
mil rostos beijar.