Hoje acordei com vontade de dizer que tenho saudades do teu
abraço, dos teus lábios macios tocando levemente os meus, das tuas mãos
acariciando a minha nuca, deslizando suavemente pelo decote do meu seio.
Ah… o sonho… a facilidade de tornarmos tão real pensamentos íntimos que nem a
nós próprios queremos, por vezes, confessar.
Gosto de imaginar a tocares-me e, tímida, afasto-te mas, ao mesmo tempo, o fogo
do teu corpo encostado ao meu, abre em mim desejos que não quero olvidar.
Recordo os teus olhos, malandros, plenos de vida e carícias e neles, em sonhos,
deixo-me afundar.
Existe vida para além dos muros de
silêncio em que te encerras, digo a mim própria quando me sinto sufocar nas
quatro paredes da gaiola de ouro onde me confino diariamente.
Olho o meu corpo carregado de desejos e ternuras. Sinto-me em metempsicose,
como numa outra vida, a viver aquilo que me está vedado.
O meu pensamento vagueia no infinito: pode uma mulher anular dentro de si o
apelo da natureza ou deixar que a explosão dos seus sentidos possa quebrar e
banir padrões tradicionalmente impostos?
Valerá a pena o sacrifico de deixar morrer o seu corpo carente de afectos e
desejos, incapaz de conseguir quebrar esses mesmos padrões que lhe impuseram?
Dentro da minha alma o sonho permanece … fogo, suor, caminhos por desvendar.
Nas tuas mãos me entrego. Juntos encetamos a viagem a todo o universo. Meu
coração e corpo conjugam o verbo amar em todos os tempos…
Dizer da palavra amar
falar dos sentidos da alma
dos desejos avassaladores
das noites mal dormidas
acalentando sonhos por realizar
Dizer da palavra tempo
que não existe
na nossa memória
oscilando, suavemente
à brisa do entardecer
por entre almíscares
que se colam na nossa pele
Dentro de mim
há um espaço para voar
que emerge
do oceano dos sentidos
e flutua
na consistência do ser
Porque o sonho dura
apenas um instante…
Imagem de Ragnes Sigmond