sábado, dezembro 31, 2011

Termina 2011, começa...



Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto -
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
o dia, porque és ele.
Odes de Ricardo Reis in "Obras Completas"
Fernando Pessoa, Vol. I, pág. 291



Imagens Google

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Natal - 2011


Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
'Stou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

Fernando Pessoa in Cancioneiro,
Obras Completas, Volume I, pág. 113


A TODOS

domingo, novembro 13, 2011

amanhã se tu quiseres

Imagem retirada de um PowerPoint

amanhã
se tu quiseres
vamos fazer desta terra
a nossa pátria sonhada

vamos
rasgar esta névoa
de esperança disfarçada
que não há nada a esperar
se nunca fizermos nada

vamos
quebrar o silêncio
com a força da coragem
e avançar contra o medo
que nos impede a viagem

vamos
antes que o futuro
não seja mais que a saudade
das cantigas que deixámos
pelas ruas da cidade

amanhã
se tu quiseres
vamos fazer um país
com a cor da liberdade

Poema de
Vieira da Silva



(Desligar a música de fundo para ouvir o vídeo, p.f.)

sexta-feira, outubro 28, 2011

Novos autores ou o renovar da Primavera…(reposição)

Estranhamente recebi hoje uma mensagem do Blogger o serviço que suporta o presente blogue e referente a uma postagem de 23 de Março de 2007.
Sem fazer qualquer comentário ao assunto, por tão ridículo e inesperado, aqui deixo para conhecimento de todos a mensagem referida e a reposição do texto, sem os devidos links.

"O Blogger foi notificado, nos termos do Digital Millennium Copyright Act (DMCA), de que determinado conteúdo existente no seu blogue viola, alegadamente, direitos de autor de outras pessoas. Como consequência, repusemos o estado da(s) mensagem(ns) para "rascunho". (Se não procedêssemos assim, ficaríamos sujeitos a uma reivindicação por violação de direitos de autor, independentemente do fundamento da mesma. Poderá encontrar o(s) URL(s) da(s) mensagem(ns) alegadamente infratoras no final desta mensagem) o que significa que a sua mensagem - bem como quaisquer imagens, links ou outros conteúdos - não desapareceram. Pode editar a mensagem para remover o conteúdo em questão e voltar a publicá-la.
Informação contextual: o DMCA é uma lei de direitos de autor dos Estados Unidos que contém diretrizes sobre responsabilidade dos fornecedores de serviços on-line em caso de violação de direitos de autor. Se acha que possui o direito de publicar o conteúdo em questão, pode enviar a sua contra-notificação. Para obter mais informações sobre as políticas DMCA, incluindo como enviar a sua contra-notificação, consulte o link http://www.google.com/dmca.html.
O aviso que recebemos será publicado on-line, sem qualquer informação de identificação pessoal, por um serviço denominado Chilling Effects em http://www.chillingeffects.org. Atuamos em conformidade com o Digital Millennium Copyright Act (DMCA). Pode pesquisar o aviso DMCA associado à remoção do seu conteúdo acedendo à página de pesquisa do Chilling Effects, em http://www.chillingeffects.org/search.cgi e introduzindo o URL da mensagem que foi removida.
Se tomarmos conhecimento de que voltou a publicar a mensagem sem remover o conteúdo/link em questão, procederemos à eliminação da sua mensagem e consideraremos a sua ação como uma violação adicional da sua conta. As violações repetidas dos nossos Termos de Utilização podem resultar em ações corretivas adicionais relativamente à sua conta do Blogger, incluindo a eliminação do blogue e/ou o encerramento da sua conta. Se tiver dúvidas de carácter jurídico acerca desta notificação, deverá contactar o seu próprio consultor jurídico.
Atenciosamente,
A Equipa do Blogger
URLs referidos:


Aqui


 "Novos autores ou o renovar da Primavera… (reposição do texto de 23.03.2007)


É sabido por aqueles que ao longo do tempo me acompanham, da importância que dou à poesia e ainda mais à revelação de novos poetas, por isso foi com satisfação que tomei conhecimento do Prémio de Poesia Nuno Júdice, instituído pela Câmara Municipal de Aveiro que conforme foi anunciado em vários locais, nomeadamente PROIBIDO O LINK se destinava a (e passo a citar) “fomentar o aparecimento de novos valores”.

O percurso poético de Nuno Júdice é do conhecimento de todos e a instituição deste prémio foi, no meu entender, uma homenagem que lhe foi prestada por aquela Autarquia, pela sua forma de estar no mundo das letras e aguardei com imensa expectativa, o resultado da escolha do júri nomeado para o efeito.

Sinto-me verdadeiramente à vontade para me pronunciar sobre este assunto, uma vez que não concorri, nem jamais concorrerei a este ou qualquer outro tipo de concurso, limitando-me simplesmente a divulgar esta iniciativa no mundo blogosférico, nomeadamente através
deste blogue.
José Jorge Letria (PROIBIDO O LINK) com quase duas centenas de títulos publicados, em cerca de 50 editoras diferentes.
Nos anos 70, foi também um activo cantor de intervenção, ao lado de nomes como José Afonso, Manuel Freire, Adriano Correia de Oliveira e Francisco Fanhais, entre outros, tendo gravado entre 1968 e 1981, cerca de uma dezena de discos. Entre 1994 e 2001 foi vereador da Cultura da Câmara Municipal de Cascais, onde se destacou a coordenar ou criar projectos como os Cursos Internacionais, cinco prémios literários ou a revista Boca do Inferno. Em 1997, foi condecorado pelo Presidente da República com a Ordem da Liberdade.


Foi distinguido em 21 de Março corrente, com o Prémio de Poesia Nuno Júdice (prémio de 2 500 €), instituído pela Câmara Municipal de Aveiro para fomentar a revelação de novos valores…
Recordo com uma certa tristeza, as palavras de meu Pai:


“… tal como na política, dar lugar aos novos é, para muita gente, continuarem os velhos…”



O que seria da Primavera se as flores não se renovassem…

Fotografia de Dionísio Leitão e autorizada a publicação pelo autor


Primavera

Nesta primavera, a chuva tem caído como se fosse
Uma primavera de Londres, húmida e mole,
E não a primavera meridional, amena e doce,
Com nuvens e vento, mas sempre com luz e com sol.

Os gatos não saem de ao pé da janela, detrás
Dos vidros, vendo as gotas escorrerem por fora,
Como se suspirassem pelo fim dessa paz
doméstica, ansiosos por saírem a qualquer hora.

No entanto, as grandes nuvens estendem-se pelo céu;
Por vezes, um trovão interrompe o pensamento.
O cinzento derrama-se como um espesso véu,
Ajudado pelo tédio que empurra este vento.

Assim, de manhã, nem abro a janela:
tão escuro é o dia lá fora como cá dentro;
E só o espírito, por inércia, o tempo revela
Se alguém pergunta onde fica o centro?



Nuno Júdice
Meditação sobre Ruínas (1994)
Poesia Reunida (1967-2000)
Publicações Dom Quixote, Lisboa 2000


domingo, outubro 23, 2011

Nas lágrimas da despedida




Já não tenho palavras
as últimas morreram no verão passado.
E num funeral cheio de sinais
sinais de uma pontuação por conseguir
as palavras, no silêncio, encontraram o seu lugar.
A terra, o chão, que tanto pisei com avidez
e num cemitério desconhecido, distante dos olhares
lá estava eu com um sofrimento imaculado
a fazer o destino, numa despedida sofrida.

Tudo agora é memória
guardada no ventre da imaginação
faltam-me as palavras que escreviam a lucidez
faltam-me as outras, que escreviam esperança
faltam-me, sem que perceba, essa sensação
com que vibrava ao ler os teus passos
as tuas tormentas ou as brincadeiras perdidas
falta-me quase tudo, que tudo é o meu fim
que enterrou a alma dessa magia em desassossego.

Já não tenho palavras
roupagem do meu caminhar
agora sou, provavelmente, memória
que no tempo, aos poucos, também morrerá!


Poema de
Paulo Afonso Ramos,
in "Passos espalhados pelo chão", pág. 74

(Clicar na imagem para aumentar)

Agradeço ao autor Paulo Afonso Ramos a dedicatória a folhas cinco de "Passos espalhados pelo chão", cuja imagem me permiti partilhar. Obrigada.

domingo, outubro 02, 2011

Convite

Foi no já longínquo 22 de Setembro de 2007 que conheci a Maria numa efeméride que não vou esquecer e que deu rosto à pessoa cuja sensibilidade de escrita descobri no seu blogue pessoal adivinhando que um dia ela ganharia coragem para ultrapassar a fronteira do virtual e colocar as suas palavras no mundo real.

É pois com enorme alegria que vos convido a estarem presentes no próximo dia 8 de Outubro (Sábado) para o lançamento do seu livro de contos com prefácio da Poeta
Graça Pires no Hotel Real Palácio (rua Tomás Ribeiro, 115, Lisboa) pelas 18 horas





"Outubro é o mês mais doce", repito em cada ano que passa.

Eu não sei porque amo assim Outubro, por que razão, neste mês de Outono, me sinto particularmente amada e feliz, por que gosto de tudo e de todos como se do primeiro, ou do último, mês da minha vida se tratasse. A verdade é que, invariavelmente, quando chega esta época, sinto uma vontade imperiosa de o assinalar, de o deixar registado, para a posteridade, não vá algum dia esquecer-me de que sempre assim senti.

de, Maria Carvalhosa




Um grande abraço e parabéns por este momento

segunda-feira, setembro 26, 2011

In Memoriam

Como Ognid o conheci.

Despeço-me com tristeza do
Dionísio Leitão.
Até Sempre.






Fotografia tirada e gentilmente oferecida pelo Ognid...


No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;

no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta.


(Poema de Cecília Meireles)




...e, a quem dedico este poema por toda a sua sensibilidade artística


(Este post é de 1 de Agosto de 2005 e coloco-o em reposição com o meu obrigada.)

quarta-feira, setembro 14, 2011

Entre mundos... Navia e Ana...

Pintura de Freydoon Rassouli


"…Neste século onde se fazem tantos acordos de paz, pactos de estabilidade, Associações de protecção a isto e aquilo e a mais qualquer coisa, atendimento por telefone de protecção às vítimas, voz amiga, SOS criança, é possível deixar uma pessoa em estado de agonia. Na realidade, nos momentos de maior dor psicológica, parece que não existe ninguém. Existem estatísticas sobre o assunto mas não há memória de alguma vez terem ajudado alguém num determinado momento. A dor vem pela noite quando o silêncio é maior e ninguém quer ser perturbado. A dor não passa com antibióticos, nem com uma chamada telefónica, nem a horas marcadas. Talvez a confiança ajude mas num século onde a vida foi programada até aos sessenta e cinco anos, a depressão é vista como uma fraqueza humana e falta de lucidez.
Talvez os potenciais suicidas não confiem muito nos recursos às tecnologias existentes para pedidos de ajuda e as estatísticas vejam-se atrapalhadas a descobrirem os critérios das causas. Os efeitos são óbvios. Pelo menos a segurança social não precisa de pagar a baixa por doença. Há sempre vantagens, apesar do peso significativo em termos económicos: o desperdício do dinheiro investido na educação, a perda de um trabalhador activo e de um contribuinte. É necessário refazer a contagem para identificar o que sai mais benéfico – a prevenção ou a morte.
…"
(excerto, Capítulo XIII - Ana)


Tenho de ir.
O meu amor espera-me.

De passo em passo
Enquanto o pé se ergue
Enquanto o pé se firma
Encontrei-te

Passos sem rasto
Vens também?

de, Teresa Durães in Navia pág.s 80/81 e 163

terça-feira, setembro 13, 2011

Obviamente…


Imagem oferecida por uma Amiga

- És tão obvia!E sorriu com aqueles grandes olhos esverdeados, maliciosos, meios trocistas, que mantinham a vivacidade de outros tempos.
Dei uma sonora gargalhada como há muito não me saía do peito.
Ela riu também.
- Continuas na mesma! Essa tua alegria interior nasceu contigo.Sorri.
Há anos que nos conhecíamos. E apesar de não ter sido fácil ganharmos a confiança uma da outra, talvez por sermos tão diferentes, a nossa Amizade perdurou no tempo e na distância.
A sua profissão levava-a por caminho duros, dissera-me um dia.
Médica por paixão, cansou-se dos hospitais, dos consultórios privados e partira com uma associação humanitária regressando duas a três vezes por ano para "recarregar baterias" e voltava a partir de novo.
O tempo, o sofrimento dos outros, estavam marcados no seu rosto mas mantendo a beleza que a caracterizava.
Não tinha filhos nem familiares próximos. O casamento há muito que acabara, por isso, quando partiu, levou no seu coração aquilo que mais prezava: os Amigos e a sua Vida.
Não gostava de compromissos; o único que tinha, como o afirmara muitas vezes, era com a Vida e com os Amigos: "manter-se viva e conservar a amizade dos amigos era o seu compromisso", dizia-me tantas vezes.
Olhei o seu rosto que, como o de qualquer um de nós, acusava o passar dos anos e, igualmente, tempos duros que a sua profissão a tinham feito passar em países desconhecidos mantendo contudo o seu sorriso infrangível.
Quis saber tudo o que no decorrer desta sua última ausência me tinha acontecido e que, nos emails que trocávamos, eu não dissera.
Sorriu quando me explicou porque motivo fechara o perfil do Facebook onde entrara a meu convite mas que “um dia destes me fazia uma visita” se calhar colocando até muitas das fotos que se encontravam nos cartões de memória da sua máquina fotográfica.
- Seria interessante ou achas que ninguém se interessaria? Pergunta-me num tom de voz em que a dúvida se notava.
- Claro que sim; a diversidade de pensamentos, comportamentos e opiniões dos utentes do FB é muita, tal como na vida real. Não te esqueça que o FB espelha muito da multiplicidade existente entre todos os géneros de pessoas que o compõem. Só temos que canalizar essa variedade - respondo-lhe sorrindo.
Falar dos acontecimentos de mais de dois anos de ausência na Pátria que a viu nascer e do que ocorrera, entretanto, a ambas, levou-nos por conversas mais íntimas onde o sorriso morreu muitas vezes no olhar.
A situação actual do País, vista lá fora com preocupação por muitos, segundo as suas palavras, entristece-a. Coabitara a luta dos Pais por um País de melhores condições e via, com tristeza, que muitos dos seus sonhos não se confirmavam.
Quando nos abraçámos os nossos olhos sorriam.
Não houve tristeza na despedida porque a Amizade que nos une é tão óbvia que perdurará para além do tempo e da distância.

Hoje quis falar dela.





(texto de 17.11.2010 "Minhas Notas Facebook" )

sexta-feira, setembro 09, 2011

Um Homem... Um Político... Um Verdadeiro Ser Humano...


Imagem de Pedro Moreira


O Coronel Mário Pinto Simões foi um dos Presidentes da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia.

Homem de princípios rígidos, militar por vocação, não mudou o seu estilo de vida pelo facto de ter subido ao mais alto cargo do Concelho.

Homem de trato fácil, apesar da sua aparente rudeza, transmitia uma simplicidade de costumes que até comovia.

Lembro-me dele com um enorme respeito, maior respeito ainda, nos dias de hoje, pelas atitudes públicas que tomava.

Possuía um usadíssimo Renault 5 quando entrou em funções. Com ele terminou o seu mandato.

Mas o que mais me impressionava, naquela altura e, ainda hoje me impressiona, foi a sua atitude enquanto no exercício de Presidente de Câmara.

Ele conduzia o seu próprio carro nas deslocações diárias; ao almoço deslocava-se a casa nas mesmas condições, o mesmo se passando à saída. Foi assim durante todo o mandato presidencial.

Só admitia motorista e carro da autarquia quando, efectivamente, saía em serviço oficial.

Um dia intrigada com o seu comportamento, interroguei-o sobre o assunto e ele muito simplesmente me disse:

- "Que moral posso ter em mandar um motorista a casa buscar-me para vir para o meu "trabalho" quando os demais funcionários, que ganham muito menos que eu, vêm pelos seus próprios meios?

Apesar de já contar com a resposta, porque assim imaginei ser, surpreendeu-me o ar calmo e tolerante dele.

Quando já no final do cumprimento do seu mandato, foi surpreendido com algumas falsas declarações que dele fizeram para o prejudicar, apesar de ter oportunidade para contratar um gabinete jurídico de renome, foi comigo que falou para preparar a sua defesa.

Sentado num dos sofás da sala da minha anterior casa, expôs-me com toda a honestidade, os acontecimentos que tinham gerado a tal confusão.

Não dormi nessa noite na preparação do documento que no dia seguinte lhe entreguei e que bastou para se defender e sair de cabeça bem levantada no final do seu mandato.

Políticos como este, creio, já não existem.

Hoje em dia, a despesa pública é cada vez mais aumentada com superficialidades e luxos a que os políticos se dão ares… e depois exigem que seja o mais pequeno a entregar os seus magros recursos, para os sustentar.

Se cada um se privasse do carro ou dos carros e respectivos motoristas com que se "passeiam" bem como, as suas famílias tantas vezes, e só mesmo em actos oficiais os utilizassem, isso sim, seria uma pequena amostra do respeito que tinham por aqueles que os elegeram e que neste momento, muitos, atravessam situações dramáticas.

Isto não falando de outras benesses luxuosas que se permitem ter.

E o Povo continua a pagar os seus "vícios".






(texto de 25.05.2010 originalmente nas "Minhas Notas" do Facebook)

quarta-feira, setembro 07, 2011

Sentimentos e Sensibilidades...

A morte é uma libertação, dizem.

Do corpo e do espírito; a matéria se dissolve no universo ou, segundo a forma de quem poeticamente a sente, é mais uma estrela que se juntou a todas as outras que iluminam as nossas noites.

A leveza do espírito que nos acompanha é a nuvem branca que nos céus derrama a sua magia e orientação; a fragilidade dos sentidos que leva à comoção na transmutação de todo o sentimento que inclui a dor e desilusão, é um fio tão leve, que tantas vezes transpõe a margem como os rios que a chuva fez transbordar.

É no universo dos sentidos e sentimentos que banhamos a nossa alma, nesse rio imenso condutor das fragilidades humanas.

Mas se a morte é a libertação do espírito e da matéria, viver a vida e os sentimentos de uma forma convicta e positiva, também o é. E o sentimento recolhe toda a sensibilidade que cada indivíduo tem dentro de si, revelando-se em todas as horas do dia, na ciência comportamental perante si e os outros.

Samuel Johnson disse um dia que “A gratidão é um fruto de grande cultura, não se encontrando entre gente vulgar”, onde que no universo dos sentidos a gratidão é o reconhecimento que a par do amor e amizade colhe seus frutos na espiritualidade da comunhão entre os seres.

Ser grato a alguém e mostrar essa gratidão de uma forma pueril a todos, não é humilhação e muito menos demonstração de falta de carácter. O contrário, provavelmente, é que o será.

Há um caminho que temos que percorrer, navegando na forma comportamental que assumimos perante o universo que gere os nossos sentidos; na forma como navegamos nesse universo é que existe a diferenciação que torna cada um de nós únicos.

Saint-Exupéry diz no seu livro O Principezinho: "…Navegar é preciso, reconhecer o valor das coisas e das pessoas é mais preciso ainda”…

É este o valor que me faz continuar a permanecer neste local de grande comunhão e pensamentos, onde cada um revela a forma mais poética dos seus sentidos.
(excerto)




Imagem de autor desconhecido


Releio com curiosidade o fragmento das minhas palavras difundidas num email, o ano passado, quando resolvi manter-me afastada do mundo virtual e que agora serviu de pretexto a pessoa amiga para me perguntar quando regressava “em força” (foram estas as suas palavras) à blogosfera.

Confesso que me surpreendeu a pergunta até porque, não com a frequência de antigamente, fui mantendo os blogues mais ou menos actualizados.

O “projecto” que abracei no Clube dos Poetas Vivos e no meu próprio perfil do Facebook de divulgação de Poesia retiraram-me todo o tempo disponível, nunca esquecendo, contudo, todos os outros locais que me mereceram, sempre, imenso carinho, por isso nunca me retirei completamente.

Os pedidos para regressar à blogosfera na forma da partilha anterior têm sido constantes e leva-me a crer que o internauta se cansou das redes sociais e regressa, aos poucos, aos locais primitivos ou seja à Blogosfera o que me levou a reabilitar o meu primeiro blogue (que tinha abandonado há anos por dificuldades técnicas de postagem) por entender ser essa a forma de corresponder ao anseio daqueles que gostam de Poesia e ao procurar a sua leitura encontram, quem sabe, uma satisfação para a sua alma.

Não sou de promessas fáceis, mas dentro do possível vou tentar corresponder àqueles que procuravam aqui, tantas vezes, uma forma de ler as palavras dos outros, continuando a partilhar aquilo que me vai chegando ou que eu descubro por mim…
Este é e será sempre um local de partilha e são todos bem vindos aqui.

Obrigada.

sexta-feira, agosto 26, 2011

Prosaria

Premiado com o Primeiro Lugar no Passatempo Viver a Poesia, do Clube dos Poetas Vivos do Facebook que conta actualmente com 5 600 Membros registados, o texto que apresentamos de Heduardo Kiesse recebeu como prémio de participação o seguinte:- Vídeo elaborado e gravado por José-António Moreira do Sons da Escrita e publicado no Youtube;- Romance, "Não de brinca com as facas", de José António Barreiros;
- Livro de poemas
"Coimbra ao som da água", de Xavier Zarco.

Com permissão do autor aqui fica o vídeo e respectivo texto.





(Desligar a música de fundo para ouvir a gravação, p.f.)

Prosaria


Apago com luz estrelas que aguardam que o sol friolentamente se dilua no céu e faça luar o teu nome. Apago com palavras aquelas noites em que o sono não pega em ti e adormecemos de abraços dados cada um com o seu lugar marcado. À hora da poesia. Não faças distância perto de mim. Já não temos juízo nem idade para mastigar saudades.

À hora da poesia.

És tu o poema. Engole estes versos que te dou sob a forma de tranquilizante para curar a arritmia dos dias feitos de sonhar. Negra-me a pele. Endireita o caminho enquanto atraverso o poema de um lado ao outro e dá-me tempo para temperar a impaciência.

À hora da poesia.

Farei silêncio grelhado com pedaços de lua cheia. Farei carícias enlatadas e cachos de manga com sabor a fruta. Se restar fôlego. Farei crepúsculo cozido com fragmentos de nevoeiro. Não. Tudo menos crepúsculo. A última vez que fiz deixei queimar as horas dentro da panela. Quando destapei o tempo já não havia minutos que chegassem para namorar prazeres.

À hora da poesia.

É o teu alguém que acontece em mim como se não tivesse acontecido nada. É o idoso que vou sendo cada vez que a idade celebra mais um ano. É despertar com os teus sorrisos os sorrisos que ainda não ousas. São antídotos fora do alcance da fala. São botões de emergência preguiçosos. São braços entrelançados no peito.

À hora da poesia.

Escrever-te-ei em prosa para que possas tomar cada verso como um banho de cascata no coração. Respirar profundo o mar de hoje rente à linha do horizontem. Descascar a loucura ao ritmo de um grito definitivo e descalçar ilusões antes que seja tarde para recuperar a realidade.

À hora da poesia.

Quem te mandou a ti ensaboar o corpo com insultos de amor? Quem te rasgou poemas nos olhos apenas pelo simples facto de serem cascas de relâmpago colados à pele? À hora de bater asas na cara de outros voos. Quem te mandou assaltar trapézios com a altura de um céu? Quem me virá acudir se me acontecer um poema e tu não tiveres mais poesia para encher versos? Quem sacudiu lençóis de água à varanda da minha sede? Quem te vai emprestar os meus lábios quando os teus já não tiverem mais beijos para gastar?

Eu. Eu que te julgava um poema? Não! Tudo menos poemas.

Hoje sei que à vista desarmada a poesia é realidade que acontece quando não se tem outra ilusão. Mas. O que importa escrever assim ou assado se conservo em mim a dádiva de ser alado como um pássaro voando na direcção correcta?





terça-feira, agosto 16, 2011

"Músicas sobre água" (reposição)




Sob minha pele, eflúvios de mar, ondas de loucura,
dança rítmica que crio no meu universo de fantasia.
Meus olhos, como o teu sorriso, brilham de ternura.
Palavras que não ouso, ciciam a paixão que te pertencia.

Do silêncio ao silêncio música, em tons de maresia
floresce a respiração e não diz a fusão do pensamento.
Esquece proibições, condenações num toque de poesia,
sente o calor na intensidade e beleza deste momento.

Voando, danço em marés de azul transparente
horas de amor, de dúvidas e de prazer,
ao som do violoncelo que toca veemente.

Dois mundos olham-se, únicos e profundos.
Lentamente, morrem raios de sol no poente.
A música meu corpo enlaça e o sonho continua!



Imagem: Pintura de Victor Ribeiro "Músicas sobre Água", na exposição inaugurada no Reservatório da Patriarcal (Praça do Príncipe Real), cuja pintura inspirou-me este poema.

sexta-feira, agosto 05, 2011

Momentos de vida

Imagem de Haleh Bryan




Na minha face há a serenidade
de dias calmos baloiçando ao vento
entre o mar e as gaivotas 
que pululam o firmamento.

Nos meus braços há a ternura de sentimentos 
partilhados dia a dia 
na lembrança de um amor
vinculado e relembrado que, 


na encruzilhada do tempo, 
entre sonhos e memórias, 
vive gravado na areia da nossa praia secreta, 
escultura sólida,
onde escrevo o alvorecer do amanhã
que comigo permanece 
na lhaneza da Vida.

sexta-feira, julho 29, 2011

Memórias de um olhar

Imagem Google (sem indicação de autor)


A chuva parou de repente dando lugar a um sol brilhante. Avancei pelo passeio da Praça, de olhos semicerrados, cabeça levantada, sentindo o calor no rosto.

Um grito fez-me parar bruscamente:
Cuidado!...


Abri os olhos e deparei-me com a gaivota. Planava a escassos centímetros de mim, batendo as asas com firmeza.


O espanto paralisou-me. O primeiro pensamento foi: vai atacar-me!


Mas não. Ela ficou ali parada de olhar fixo na minha direcção.  Senti-lhe o olhar e, de repente, levantou voo e rasou a minha cabeça, quase tocando, com as pontas das patas, o meu cabelo.


A cena foi, no mínimo, surrealista!


Respirei fundo e olhei em volta.


Um homem (penso que o grito terá vindo dele) olhava para mim, risonho.


Um casal oriental (talvez chinês), com um sorriso indefinível no rosto, abanava a cabeça. Algumas pessoas tinham parado a olhar a cena.


Uma jovem pergunta-me com voz doce:


- Está bem? Está pálida! Achei que a gaivota a fosse atacar.


Sorri, dizendo estar tudo bem, nem sequer me tinha assustado. O espanto foi tamanho que nem tivera tempo para isso.


Mas estremeci. Um pressentimento de que algo estava para acontecer.


Vejo os olhos da gaivota fixos no meu olhar. Impressionante. Nunca nada parecido me tinha sucedido!


Costumo dizer que nada acontece por acaso. Porque me terá isto acontecido?


Um pensamento maluco ocorre-me: - Será que a morte me vem buscar?


Sorrio.


Que disparate. Pensar na morte num dia de sol.


Prossigo o meu caminho.


Na Rua de Ceuta paro na montra de uma velha livraria. Apetece-me comprar um livro. Talvez aqui encontre aqueles que emprestei e nunca me foram devolvidos. Tenho sorte!


Tento distrair o pensamento e a conversa recai, precisamente, no tema dos livros emprestados e nunca devolvidos. Afinal, não é só a mim que isso acontece!


As funcionárias da livraria eram uma simpatia e, por momentos, esqueci o ocorrido.


Eram horas de voltar ao corredor do Hospital.


Acordei hoje, com a imagem da gaivota… os olhos dela, nos meus olhos.


Estremeço...

Amanhã... Nasci.


(29/07/2006...véspera do meu aniversário)

domingo, junho 19, 2011

Apenas um instante...



Hoje acordei com vontade de dizer que tenho saudades do teu abraço, dos teus lábios macios tocando levemente os meus, das tuas mãos acariciando a minha nuca, deslizando suavemente pelo decote do meu seio.

Ah… o sonho… a facilidade de tornarmos tão real pensamentos íntimos que nem a nós próprios queremos, por vezes, confessar.

Gosto de imaginar a tocares-me e, tímida, afasto-te mas, ao mesmo tempo, o fogo do teu corpo encostado ao meu, abre em mim desejos que não quero olvidar.

Recordo os teus olhos, malandros, plenos de vida e carícias e neles, em sonhos, deixo-me afundar.


Existe vida para além dos muros de silêncio em que te encerras, digo a mim própria quando me sinto sufocar nas quatro paredes da gaiola de ouro onde me confino diariamente.


Olho o meu corpo carregado de desejos e ternuras. Sinto-me em metempsicose, como numa outra vida, a viver aquilo que me está vedado.

O meu pensamento vagueia no infinito: pode uma mulher anular dentro de si o apelo da natureza ou deixar que a explosão dos seus sentidos possa quebrar e banir padrões tradicionalmente impostos?

Valerá a pena o sacrifico de deixar morrer o seu corpo carente de afectos e desejos, incapaz de conseguir quebrar esses mesmos padrões que lhe impuseram?

Dentro da minha alma o sonho permanece … fogo, suor, caminhos por desvendar.

Nas tuas mãos me entrego. Juntos encetamos a viagem a todo o universo. Meu coração e corpo conjugam o verbo amar em todos os tempos… 


Dizer da palavra amar

falar dos sentidos da alma

dos desejos avassaladores
das noites mal dormidas
acalentando sonhos por realizar

Dizer da palavra tempo
que não existe
na nossa memória
oscilando, suavemente
à brisa do entardecer
por entre almíscares
que se colam na nossa pele

Dentro de mim
há um espaço para voar
que emerge

do oceano dos sentidos
e flutua

na consistência do ser


Porque o sonho dura
apenas um instante…




Imagem de Ragnes Sigmond

domingo, maio 29, 2011

À MESA DO AMOR


Bebo este café que as tuas mãos
me oferecem. Sabor de todas as mães ainda grávidas,
leite de lava vegetal, esplendor negro
no fruto branco do olhar.
Hoje é um dia igual a dias tão iguais,
café nos lábios, sol lavado, uma leitura,
jornal e poema. Oposição clara dos olhos à celebração
do corpo. Tomo este café
num tempo de obscuras certezas, de claríssimas dúvidas,
o tronco inclinado para o dia,
a voz merecendo-se, o peito em busca de respostas.
Uma palavra jovem, imediata, livre,
reúne todos os meus ossos. A língua desce
os degraus do açúcar. Sorvo a sorvo,
identifico-me, saúdo-te.
À mesa do amor.



Poema de Joaquim Pessoa in À Mesa do Amor (1994)
Ilustrações de
Isabel Mendes Ferreira


Imagem de Alaya Gadeh

sexta-feira, maio 13, 2011

Manuel António Pina é o vencedor do Prémio Camões 2011.

Há muito que sigo os passos de Manuel António Pina na escrita. Esta crónice este poema publicados em épocas alternadas nos meus blogues são uma pequeníssima amostra da imensidade da sua obra e que eu já divulguei, igualmente, noutros locais.

O Prémio Camões é o maior prémio literário de língua portuguesa e foi atribuído por unanimidade por um júri constituído por seis elementos num tempo de atribuição record, já que a decisão, ao cabo de pouco mais de meia hora, foi consensual.


Parabéns, Manuel António Pina!



O Pássaro da Cabeça


Sou o pássaro que canta
dentro da tua cabeça
que canta na tua garganta
canta onde lhe apeteça

Sou o pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
mesmo as que julgas que não

Sou o pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada

E esta é a canção sem razão
que não serve para mais nada
senão para ser cantada
quando os amigos se vão

E ficas de novo sozinho
na solidão que começa
apenas com o passarinho
dentro da tua cabeça.

(Poema de Manuel António Pina

in "Carta a um jovem antes de ser Poeta")


Art de Youji Takeshige

sábado, maio 07, 2011

Sentires

Desenho-me
rosto rubro do sentir
átomo da existência
mar aberto
de ondas calmas

meu encantamento.

Desenho-me
na foz do entendimento
algas marinhas
entre corais e
pedras brancas
submersas de espuma
meu pensamento.

Desenho-me
na brisa do poente.


(desligar, por favor a música de fundo, para ouvir o vídeo)

terça-feira, abril 26, 2011

Identidade...


(imagem pessoal)


Poema

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

O quadrado da janela
O brilho verde de Vésper
O arco de oiro de Agosto
O arco de ceifeira sobre o campo
A indecisa mão do pedinte
São minha biografia e tornam-se o meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas

Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento
E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada

Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen in "Geografia"

sábado, abril 23, 2011

O olhar descoberto...



(Desligar, p.f. a música de fundo do blogue para ouvir o poema)

Nesta Páscoa, deixo-vos um poema do Pe. José Tolentino Mendonça, num trabalho realizado por José-António Moreira do Sons da Escrita


quarta-feira, janeiro 12, 2011

Divagando

Fotografia de Eliana Reis

Passo
lentamente
como vulto
de sal e areia,
envolta no luar
que permanece
em meu olhar.

Passo
lentamente
por entre
mares e marés
de palavras
entregues
ao som da maresia.

E nesta viagem
em que sou vulto,
onda e areia,
mulher,
palavra,
aqui permaneço
estrela cadente
em noite de
lua cheia.