domingo, junho 20, 2010

Sentidos de Vida

Pintura de Jacob Collins


Se tenho dois pés
para caminhar por caminhos floridos
ou serras agrestes e sinuosas

duas mãos para segurar tudo aquilo que quiser,
menos o tempo que passou,
mas que delas me sirvo,
para afagar, comer e escrever

um coração a bater,
num corpo que estremece, a cada lágrima que vejo
nas crianças sem sorrir, nos pobres a pedir,
nas mulheres maltratadas, nos animais abandonados,
nos cegos que caem nos passeios por arranjar
que, de tão estreitos serem,
nem uma cadeira de rodas lá pode permanecer

se tenho uma alma que acredita
num Deus que criou um dia o Universo,
e o fez à sua imagem e semelhança,
dando-nos as quatro estações do ano,
para que tirássemos o proveito de sentir a música da natureza,
as cores das flores, o sabor dos frutos,
a sensação do mar no nosso corpo a bailar

se tenho dois olhos e com eles vejo o bem e o mal,
o poder destrutivo, a complacência de muitos,
o povo amordaçado das palavras que não diz,
os que sobem por caminhos errados
e os que descem aos infernos
por não serem seus aliados

se tenho uma boca que tanto serve para beijar
como para observar num grito de revolta
aquilo de que não gosta nas gentes egoístas
que, sem conta nem medida, oprimem os seus pares

se tenho um nariz que detecta o odor  
e me diz ser bom ou mau
o produto que eu quis

faço do ouvir o que quiser
e com ele ouço somente os sons da natureza,
a música das almas singelas,
a melodia que o vento traz em palavras amenas,
verdadeiras, livres de hipocrisias e cinismos
e com elas desenho a pauta dos sons
que a música me oferece
na junção de sentimentos e poemas
e louvo o génio bendito daqueles que,
na grandeza serena da vida, viveram.


Nota: Escrito ao som das Quatro Estações de Vivaldi,
na tarde de Sábado, 19 de Junho de 2010

quarta-feira, junho 16, 2010

Bloco de gelo...


Imagem de Marta Dahig


Ao início da tarde coloquei
um bloco de gelo no coração.

Deu-me fome e sede
recolheu-se a inspiração.

Fui ao frigorífico
peguei nos morangos
passei-os pela água gelada
que escorria do meu peito.

Numa taça de cristal os coloquei.

Reguei-os com champanhe
decorei-os com chantilly
e percebi, afinal, porque tinha colocado
a tal pedra de gelo a derreter
num local que habitualmente está a ferver.

Era um apetite voraz de sentir na boca,
não um beijo apaixonado, mas o saboroso paladar
de uns belos morangos carnudos e vermelhos.

sexta-feira, junho 11, 2010

Lançamento de novo livro...

As minhas palavras seriam pobres demais, porventura, para falar de Isabel Mendes Ferreira e do seu novo livro.
Por isso, partilho as palavras de quem nos poderá falar com a convicção de quem conhece em profundidade a sua obra…

"As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar"

"É minha firme opinião, que a Isabel Mendes Ferreira, para além de uma excelente artista plástica - representada em várias colecções particulares, na Europa e nas américas, é a nossa melhor Poeta contemporânea. Já o disse, redisse, escrevi e rescrevi, que "ler Isabel Mendes Ferreira é como assistir ao descerrar de auroras, cantando e reinventado palavras de diferentes paladares por detrás dos fiapos da memória e da respiração das manhãs", e continuarei a dizer e a escrever o mesmo, enquanto não aparecer no actual panorama literário português, alguém que altere esta convicção, formada desde o dia em que a descobri e de que não esqueço a forte impressão que senti ao lê-la: uma pedrada na "modorra" instalada.

Ninguém actualmente escreve como a Isabel Mendes Ferreira: nem com a profundidade nem com o estilo, nem com a qualidade que lhe advém do domínio absoluto da escrita e de um jogo de palavras soberbo.
Como se pode ler no posfácio, “O sentido ambíguo da sua escrita, converte-se no que o excede e onde ser o mesmo é ser outro de si (é outrar-se, como diz Fernando Pessoa), o que apela à desconstrução do discurso tradicional”.

Para mim, é pois, extremamente gratificante falar do novo livro de uma escritora e poeta, despojada de falsas crenças da unidade da consciência identitativa, de uma escritora que transporta os verbos que ainda não estão corroídos, pervertidos, subvertidos, gastos, e que com ela voltam fantásticos, imortais, castos e vestidos de denso sentir.

Este, o seu décimo terceiro, é um livro que me fascina, aprecio-lhe o cheiro das areias do deserto e a cor do cair da noite quantas vezes ruborizada de pudor e aureolada de luminosidade divina, um livro para ler e reler, uma instância de retemperação. Um livro com chancela da Arcádia, onde voltaremos amiúde e que está a partir de hoje à venda em todas as livrarias Babel.

"As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar", integra uma novíssima colecção de poesia, iniciada por David Mourão Ferreira e onde é o terceiro título. "

de, José Pires F



Capa do Livro


e volto. com outro silêncio mais loba mais árabe menos faca antes farpa
outro vestido a mesma capa.
fui ao deserto. nasceu-me um filho. da terra vermelha. da terra sanguínea. da pele vestal
sou agora outra muralha desabituei-me da planície. fiz-me à montanha. galopei-me.
voltei.
mais secreta. menos incerta. menos asa. mais de areia. menos perguntas. menos respostas. de esporas.
quero menos. quero agora.
só agora voltei.
muitas mortes muitas viagens depois. para lembrar o que não esqueço. tudo o que trago
nos traços da pele. lama. perfume. finitude que me cega claridades de cal. e me afoga todos os afagos
e cala as palavras e descola os gritos. como placenta como raiz.
voltei para acordar do automatismo. do esboço. do risco. do retrato. do adjectivo.
voltei. estou aqui. igual. diferente. menos macia. mais árida. menos ávida. como se ao contrário.
redonda. aguda. crua. menos gata mais gasta bruta dupla contra o vento.
metade dionisíaca. metade socrática. e volto.

de,
Isabel Mendes Ferreira