sábado, outubro 31, 2009

Homenagem…

Ao amigo, poeta, escritor, historiador, encenador, político, professor, ao Homem que incorporou tudo numa só pessoa: Fernando Peixoto.

Porque se o corpo parte a lembrança e as memórias permanecem.

Hoje os Amigos vão marcar presença numa Homenagem que em sua honra vai decorrer no Auditório Municipal de Gaia organizado pela Associação das Colectividades de Gaia






AMIZADE

Penso em ti: sinto em mim a nostalgia
desse abraço que fica tão distante
e, mesmo assim, nos liga dia-a-dia
e nos aproxima a todo o instante.

Penso em ti: sinto em mim essa tremura
que se espalha ao longo dos meus braços
e te envolve comigo na ternura
com que te aperto a mim, em mil abraços.

Penso em ti: e respiro bem melhor
por saber que te tenho ao meu lado
e que o ar que respiro é o calor
da aragem da amizade em duplicado.

Penso em ti: e pensar é já viver
contigo residindo no meu peito
aprendendo, afinal, a conviver
contigo, tal qual és, desse teu jeito.

E sinto que afinal valeu a pena
sentir como tu sentes a vontade
de viver assim, de forma plena,
este sabor intenso da Amizade.

("Penso em Ti", poema de Fernando Peixoto

domingo, outubro 25, 2009

Chuva Oblíqua...

Imagem de Marcin Nawrocki


I
Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar do porto é transparente

E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvores, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver essa paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...
(...)
(Fernando Pessoa, in "Cancioneiro",
Obras Completas, I Vol. Pág.67)

segunda-feira, outubro 12, 2009

Dizem...

Imagem de Josephine Wall

"Dizem que as palavras não prendem, mas que envolvem, em cor e se misturam no sentir; Dizem que uma palavra é um beijo, um afecto que traça o destino;" (Almaro)
(Mote)

Dizem
o vento seca a flor colorida
o mar liberta o castelo qu’a criança
construiu.

as lágrimas secam
no rosto que
sorriu

a chuva
baila
entre a flor que
floriu

amizade,
esperança,
força que traz
bonança,
na beleza do olhar
que sinto dentro de ti

no beijo
que te deixo
há alento, o desejo
meu Amigo
neste olhar sentido, que
as flores te perfumem,
meus braços
te cinjam
nas palavras que se
pintam
em aguarelas de
cor!


Dizem
palavras
aladas
perpetuas
de amor.

quinta-feira, outubro 08, 2009

Afabilidades...

Confesso, que é com uma certa alegria no coração que recebo as comunicações do Jornalista Mhário Lincoln, do Portal de informação que possui. Já nem me recordo há quantos anos dura esta colaboração. 

É sempre um gáudio enorme para mim, muito embora, por vezes, nem o divulgue como deveria e mereceria, já que ainda não consigo vencer a minha timidez natural de divulgar os meus próprios trabalhos.

Mhário Lincoln tem sido um amigo atento que, altruistamente, tem levado alguma da minha obra e a de muitos outros poetas, incluindo um dizeur conhecido, igualmente muito divulgado nos meus blogues, que tem partilhado no seu Portal com muita regularidade e esse facto merece todo o meu respeito e amizade.

Mas o meu contentamento de hoje ultrapassou essa alegria crescente que em mim se instala sempre que recebo uma comunicação sua, porque a que recebi hoje tinha uma especial referência que me deixou extremamente sensibilizada, por não esperada.

Partilho convosco a alegria das palavras que recebi…





ESTA FOTO

Um sorriso, uma menina
Perfil santo, um santuário,
Estuário de sereias do arco-íris
As cores fortes que te vestem, Ísis.
São as cores do coração pulsante
Egoísta e único, Amante
Sem manchas passadas.

Óculos escuros me privam
De ver a tua verdade, me crivam,
Mesmo que dos óculos se enxergue
Tuas virtudes, tua fidelidade
Teu banzeiro quebrando na praia
Das melodias cancioneiras do tempo, a raia,
Dos sorrisos marotos, tua brisa.

O que te ornamenta o pescoço
Ornamenta teus sonhos e tua vida.
O ouro da virtude. A prata da bem-querença
O soluço de quem reinventa o amor
A todo instante; minha grande amiga.

(*)Mhário Lincoln



Uma homenagem a minha amiga portuguêsa
com respeito e admiração.



(*) Mhário Lincoln é jornalista e advogado. Tem livros de Direito e Jornalismo publicados. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão. Possui larga experiência em rádio, tv e jornalismo impresso

segunda-feira, outubro 05, 2009

A Lição de Poesia

Imagem de Anne Magill


Estamos sentados num banco todo branco
Sob o busto de Lenau

Abraçamo-nos
E entre dois beijos falamos
De poesia
Falamos de poesia
E entre dois versos abraçamo-nos

O poeta olha para longe através de nós
Através do banco branco
Através do saibro da alameda

Ele cala magnificamente
Os seus belos lábios de bronze

No jardim público de Verchatz
Aprendi pouco a pouco
O que é essencial num poema


(Poema de Vasko Popa in "Cem poemas de amor de outras línguas", pág. 45)

sexta-feira, outubro 02, 2009

Coisa simples...

Este Poema foi colocado em 18 de Julho e posteriormente retirado.
Mas há ocasiões da nossa Vida que não se apagam com um simples gesto por isso resolvi recolocar este momento e deixá-lo ficar.
Há memórias que devem permanecer no seu estado puro tal como aconteceram.





Quero dizer-te uma coisa simples: a tua ausência dói-me.
Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma;
mas que não deixa, por isso,
de deixar alguns sinais -
um peso nos olhos, no lugar da tua imagem, e um vazio nas mãos.
Como se as tuas mãos lhes tivessem roubado o tacto.
São estas as formas do amor,
podia dizer-te; e acrescentar que as coisas simples
também podem ser complicadas,
quando nos damos conta da diferença entre
o sonho e a realidade.
Porém, é o sonho que me traz a tua memória;
e a realidade aproxima-me de ti,
agora que os dias correm mais depressa,
e as palavras ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de mim -
e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói.




(" Ausência", de Nuno Júdice)



Imagem: Google