segunda-feira, abril 27, 2009

Amanhecer chuvoso...

Adormeci tarde. A chuva batia incessantemente no vidro da janela como que a chamar-me de mansinho.

Ainda nem sei bem se dormia quando sinto os teus passos aproximarem-se devagar… e um sorriso percorre-me como que adivinhando o bem que irias provocar…

Num rompante retiro do corpo a peça que o cobre e entrego-me aos teus prazeres, enquanto os meus dedos percorrem calmamente o teu


No meu jardim florido
um arco-íris de sonhos move,
arrebatado,
sedento do teu corpo
que se abandona ao meu,
a paixão
transmitida
no toque mágico da tua boca
na minha pele,
que ousa,
deliberadamente,
por entre palavras
inaudíveis,
saciar-me
até à exaustão,
na sede da ternura
do nosso coração.


Pintura de Adam Scott

O tempo pára cúmplice da claridade que rompeu pelo aposento e entrou nos teus olhos que me olham apaixonadamente, como se não acreditassem que ali estivesse e dou-me na seiva que escorre de mim, numa oferenda mágica de todo o meu sentir.

Um calafrio percorre-me e, ao longe, ouço o bater agitado do vento numa das janelas e ainda mal refeita do sonho de onde acabara de sair, olho o lugar vago e frio a meu lado que há muito não conhece o calor de outro corpo.

Reparo nos ponteiros luminosos do relógio e, num salto, cubro a distância entre os meus dois cãezitos que aguardavam, mais que ansiosos, pela abertura da porta do quarto… e do passeio que a chuva iria estragar.


Foi apenas um sonho num amanhecer chuvoso…

sábado, abril 25, 2009

25 de Abril - 35 anos depois...

Imagem de José Dias


Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente.

Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente.

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.

Poema "O Futuro" de José Carlos Ary dos Santos

terça-feira, abril 14, 2009

Sou quem sou...

Pintura de Cristiane Campos


Nada direi de ti,
nem um só pensamento.

Num assomo, lentamente,
meu peito desgasta-se de palavras
que se repetem textualmente

pacientes, de toda a matéria que
se pressente para lá do que se não vê,
nem se imagina.

Entreaberto, como uma janela, meu coração
vislumbra o ocaso, em fragrâncias
de pétalas por entre caminhos
etéreos percorridos de mão em mão.

Sou quem sou.

Nesta forma de ser
não há espaço para intervalos
passeados entre os sentimentos
de olhos que nada vislumbram
nas profundezas da alma.

Rasgo meus sentidos e
abro a janela de sensações flóreas
para lá de todos os laivos de vida
que se sentem nas marés perdidas.

Hoje nada direi de ti.

Porque as palavras estão caladas
sossegadas, no fundo da alma,
e aí permanecerão.

segunda-feira, abril 06, 2009

Páscoa 2009

Espero-te no cais da vida
símbolo de chegada e partida.


No coração um beijo doce
nas mãos a austeridade do desejo
que há muito permanece no ensejo
de uma percepção nunca perdida



Imagem de Fernando A. Lopes



Hoje acordei com vontade de ser quem não sou.

Talvez voltar ao ventre de minha Mãe e sair de lá diferente, insensível, dura, desapaixonada, tal como aquelas pessoas para quem está sempre tudo bem, que abanam com a cabeça e dizem sim, com um sorriso apócrifo no rosto, todos os dias
Caloroso acolhimento
nas profundezas do ser.


Lentamente, entreaberta,
a janela da vida, vive na mais
louca fantasia de todo o querer

Imagem de John Jude Palencar

Hoje, num dia que amanheceu igual a tantos outros, olhei para lá da janela e sorri… porque sei que nunca serei capaz de sorrir como quem faz um favor a alguém, abananando a cabeça e partir indiferente a tudo; que na duplicidade do ser a minha mente não colhe pensamentos dúbios, dissimulados de toda a vivência que partilho em redor de mim e aos quais me dou de alma lavada.

Nada é irrelevante no meu querer de fogo, de verdades que doem por vezes, mas às quais o meu coração não foge, porque não consegue embarcar no logro dos sentidos e dar-se como uma folha ao vento.

Hoje acordei num dia igual a tantos outros, fiz o que faço todas as manhãs e de caneca de café na mão senti a cor do mar, que entrou no meu olhar e embarquei nele flutuando no tempo e as ondas encontraram-se comigo como quem se banha na maré vaza numa noite de lua cheia.

Sinto-me em paz comigo porque não traio a minha própria capacidade de entrega, a constância de dizer não, quando todos gostariam do falso sim, do sorriso inteligível que leva ao esquecimento fácil que corre calmamente nas veias, mas que gela o coração.

Hoje, vou continuar a ser quem sou, mulher de muitas marés, de verdades e persistências, de paixão e entrega total àquilo em que acredito porque não caio na tentação fácil do era e não era, do dizer pela boca o que o coração não sente.

Hoje, aqui e agora, renasço, igual a mim própria…

Imagem recolhida na net...

sexta-feira, abril 03, 2009

Divulgação

A poesia de Fátima Fernandes a Amita do Branco e Preto há muito merecia, pelo seu carisma e qualidade, uma referência manifesta nas publicações editoriais.

Acompanhei com muita satisfação e, porque não dizê-lo, algum orgulho também, a escolha da poesia da Fátima Fernandes para integrar a II Antologia de Poetas Lusófonos porque, no meu entender, há muito que ela merecia este destaque.

O lançamento e apresentação da obra realiza-se no próximo dia 5 de Abril e terá início às 15h30, nas Capelas Imperfeitas do Mosteiro da Batalha, com a actuação da Orquestra Filarmonia das Beiras, continuando a cerimónia pelas 16h30, no Auditório do Mosteiro.

Haverá um momento de poesia com a participação de vários poetas.


Conto com a vossa presença!

Capa do Livro

Nos teus braços de palavras
Me enrolam carícias mudas
Qual rosa rubra despontada
Que seu doce aroma espalha
E pelo espaço perdura

Soltam-se pelas cidades, inter muros
Os pontos que no Tudo abarcam
Estilhaços esvaídos em leve fumo
Quando em ti me lês nos traços
Desprendidos, planos, profundos

Sob as longas raízes criadas
Me enfeitas e desnudas
A serenidade dos passos
O beijo que o vento permuta
Esse encontro inesperado
Num qualquer presente-passado
Feito de essência e candura

Assim me enlaçam palavras
Fragrâncias de rosa rubra


“Em rosa rubra”, de Fátima Fernandes (Amita)


Igualmente, amanhã...



...será o lançamento, em Lisboa, do terceiro livro de poesia de Vicente Ferreira da Silva, Interlúdios da Certeza.

A apresentação será feita pela
Maria Azenha e ouviremos poemas pela voz da
Inês Ramos.


Igualmente...

em 4 de Abril, pelas 19 horas, na Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana (Bairro Massapés - Tires ), terá lugar a apresentação do livro Papoilas de Janeiro, da autoria de M. Correia (textos) e T. C. Alves (desenhos) para o que deixo o presente convite...



(Clicar no convite para aumentar)



Contamos com a vossa presença.