sexta-feira, janeiro 16, 2009

Cumplicidades...


Pintura de Eric Drooker


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário.
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

(Poema de Eugénio de Andrade in "Antologia Breve", págs 16/17)

26 comentários:

Graça Pires disse...

Que podemos dizer deste poema do Eugénio, senão que já tantas vezes o lemos e sentimos que o sabemos de cor dentro de nós.
Um beijo MM.

José disse...

Muito bonito...tudo de bom

Paula Raposo disse...

Este poema do Eugénio de Andrade é uma realidade e é fantástico como se transmite tanta emoção...beijos de bom fim de semana para ti.

Pena disse...

A genialidade de Eugénio de Andrade a "falar" de forma enternecedora e fabulosa.
As minhas palavras também "estão gastas", que hei-de dizer perante tanto encanto e beleza em palavras doces deste poema que fascina...!
Bem-Haja, amiga!
Beijinhos de imenso respeito.
Excelente escolha. Perfeita!

Cordialmente e com simpatia

pena

☆Fanny☆ disse...

Olá, minha querida amiga!

Passei apenas para te dizer que te deixei no meu "Suaves Murmúrios", um selo (BLOG DE OURO) com muito carinho e dedicação. Gostaria que o fosses lá buscar por aquilo que ele representa.

Muitos beijinhos iluminados pelo brilho que emana das tuas palavras.

Fanny

Branca disse...

Lindo demais...
Visitando seu espaço...gostei muito!

bjo,
Branca.

Anónimo disse...

as despedidas são sempre tristes e este poema se Eugénio de Andrade deixa-me sem palavras. a música liga muito bem. nostálgico este teu post!!
beijos
João

Delfim Peixoto disse...

Onde estou eu???
Bom FDS

Maria Clarinda disse...

Um dos muitos poemas de Eugénio de Andrade que me marcaram.
Obrigada por partilhares comigo, obrigada pelo momento lindo.
O desenho lindo!
Beijos grandes

tulipa disse...

TENHO ESTADO AUSENTE...
Os problemas com a m/sobrinha têm sido a causa do meu afastamento.
Ela tem estado muito mal, no início da semana teve uma paragem cardíaca e teve que ser operada, com apenas 26 anos!!!
Agora está um autêntico vegetal, ligada a tudo que é máquina...

Mas, hoje decidi visitar alguns dos blogues amigos e cá estou.

Aquando da minha viagem à Índia (estava lá há 2 meses atrás) houve tempo para aventuras, turismo e Solidariedade, como podes constactar no meu ultimo post.

Bom fim de semana.

Apenas eu disse...

Este poema é um dos meus "eleitos" diz tanto...
preciso é saber ouvir...
quando os teus olhos... agora tudo está gasto...
resta o Adeus. que ás vezes não se dá. mas já aconteceu. e as pessoas permanecem juntas depois de já não se verem a cores...
assim me sinto muitas vezes.

Obrigada pela partilha é sempre muito bom ver-te aqui.

(um dia vamos tomar um café, que me dizes?)

pin gente disse...

este poema faz-me sentir triste apesar de tanto gostar de o ler


um beijo

Hercília Fernandes disse...

Lindo "adeus". O poeta toca-nos com delicada intensidade os afetos.

Obrigada pela leitura, Menina Marota.

Beijos,

H.F.

mfc disse...

Um fantástico poema sobre um adeus inevitável.

heretico disse...

nada resiste aos desgaste do tempo. nem as palavras...

no entanto, há poemas (in)temporais. muito belos.

beijo

Maria de Fátima disse...

vai lá dar uma forcinha
http://intervalos.blogspot.com/2009/01/convite.html

Maria de Fátima disse...

vai lá dar uma forcinha
http://intervalos.blogspot.com/2009/01/convite.html

abração

Ana Oliveira disse...

Menina

De Eugenio de Andrade nada posso dizer que não tenha sido dito e muito melhor do que eu diria...
A ti agradeço o ter relido um poema tão significativo!!!

Boa Semana

Beijos

Ana

Vieira Calado disse...

Obrigado pela partilha.


Beijoca

Elise disse...

Minha linda, continuas, sem descansar, a revelar o que de melhor temos e tivemos em portugal. Obrigada!

convido-te a passares aqui e responderes a esta corrente caso queiras:

http://lettersfromelise.blogspot.com/2009/01/desatando-os-ns-da-corrente.html

beijos grandes

Dan disse...

Oi, existe um prêmio para você em meu blog. Passe lá e veja.
http://dan-poucodetudo.blogspot.com/
Abraços

Lucinha disse...

Oi Menininha que lindas palavras.. amei.. passando pra desejar uma terça feira cheia de carinho e amor..."Não ser ninguém a não ser você mesmo,
num mundo que faz todo o possível, noite e dia,
para transformá-lo em outra pessoa, significa travar a
batalha mais dura que um ser humano pode enfrentar;
e jamais parar de lutar."
(E.E. Cummings)

Beijos.......

Mar Arável disse...

Eugénio de Andrade

sempre

sempre

Teresa Durães disse...

adoro este poema!

Teresa Lopes disse...

Tive o privilégio, há uns anos, de ouvir o poeta, ele próprio, a ler a sua poesia.
Poucas coisas me arrepiam e comovem até às lágrimas - coração marcado por dores da vida :) - mas nesse momento houve lágrimas.

Um dos mais belos poemas de amor de sempre.

Abraço*

o passageiro disse...

Que bonito ...