sexta-feira, janeiro 30, 2009

Convite...

Pintura de Susan Bourdet

Descendo estas escadas
Do Templo e do Destino,
Nesta infinitude de sacadas,
Que seguram o meu tino.

Nesta visão o que não vejo,
Neste ver que não olho,
Vejo-me que sou o que não sou,
Por entre desejo,
E não sou o que não sou,
Por entre aquilo que suou,
Desde longo viver.

Destes meus impulsos,
Que me fazem somente,
Mas somente, não ser

(Poema de
Rogério Freitas Sousa in “Enleias-me?” pág. 124)




(Clicar na imagem para aumentar, p.f.)


Sábado 31 de Janeiro, pelas 17h00, na Fnac de Santa Catarina,
(antigas galerias Paladium) no Porto


A tua presença é importante para o Autor...

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Os dias do Amor – Um poema para cada dia do ano

Divulgação

e

C O N V I T E






Recolha, selecção e organização de: Inês Ramos
Prefácio de: Henrique Manuel Bento Fialho

365 vozes que se erguem em 365 poemas de amor em todas as formas, em várias nacionalidades, um para cada dia do ano.
Desde Shakespeare, Hölderlin, Edgar Allan Poe, entre outros, a poetas portugueses contemporâneos como Ramos Rosa, Vasco Graça-Moura, Amadeu Baptista, E. M. de Melo e Castro, Alice Vieira, entre muitos outros, unidos para celebrar o Amor.

“Porque por amor enlouquecem os amantes, por amor se suicidam e matam (...), por amor o sacrifício, a entrega mística e a obstinação carnal, ou a entrega da carne e a obstinação mística, por amor os duelos reparados pela conciliação, por amor os territórios transfronteiriços, a abolição das fronteiras, o fim das dicotomias, por amor a paixão, por amor a morte, tudo isso num poema.”
Henrique Manuel Bento Fialho
(do Prefácio)
Capa do Livro


Primeiro poema que consta desta
Antologia de Poesia:


Cântico dos Cânticos
(excerto)

IV

Como és bela minha amiga
como és bela
teus olhos quase pombas

por trás do véu
Teus cabelos feito um bando de cabras negras
debandando pela montanha de Galaad

Teus dentes feito um bando de ovelhas brancas
que vêm saindo do lavadouro
Aos pares como gémeos
e nenhum cordeiro a menos

Feito um fio escarlate teus lábios
e tua boca beleza pura
Feito metades de romã
tuas faces por trás do véu

Feito a torre de David teu pescoço
construída pelas altivas seteiras
Centenas de escudos pendentes de seu topo
todas as aljavas dos valentes

Teus dois peitos como dois filhotes
gémeos de uma corça
Que vão pastando entre rosas

Antes que assopre o dia
e se afugentem as sombras
Terei ido para a montanha de mirra
e para a colina do incenso

Tu és toda graça minha amada
e nenhuma jaça em ti

Comigo do Líbano esposa
Comigo do Líbano virás
(Salomão, Séc. X a. C.Israel)(Tradução de Haroldo de Campos)


Lisboa: Fnac do Colombo, 29 de Janeiro, 18h30m
Vila Nova de Gaia (Porto): El Corte Inglés, 5 de Fevereiro, 19h30mViseu: Fnac Palácio do Gelo, 6 de Fevereiro, 21h
Faro: Livraria Pátio de Letras, 14 de Fevereiro, 17 horas
Évora: Bibliocafé Intensidez, 14 de Fevereiro, 21h30m



Contamos com a vossa presença!

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Cumplicidades

Pintura de Eric Drooker

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário.
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

(Poema de Eugénio de Andrade in "Antologia Breve", págs 16/17)

terça-feira, janeiro 13, 2009

Memórias...



Um dia voltarei
à casa da minha infância,
cenário de princesas e cavaleiros,
que a minha memória perpetua.

Um dia
alguém tocará o piano
que geme a angústia
do desaparecimento
dos dedos que o acarinhavam,
invariavelmente, de
Schumann a Boulez,
enquanto meus olhos
os seguiam amorosamente.

Um dia
as janelas se abrirão
deixando entrar
o sol da minha emoção;
sorrirei para as
rugas do meu rosto
fecharei o espelho
da minha memória
e deixarei a casa partir.
Um dia…



Pintura de Francis Day

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Sonhos...

Todos nós sabemos que nem todos os sonhos se realizam; uns demoram uma infinidade de tempo a concretizarem-se, outros…irão vaguear eternamente em sonhos.

Pintura de George Frederic Watts


Mas num desses sonhos, de um momento para o outro, encontrei-me a sós com o próprio sonho…para quê negá-lo: há muito desejava este encontro.

O meu corpo vibrava ansiosamente enquanto nos cumprimentávamos num beijo cândido que não traduziu o fogo que o seu corpo, encostado ao meu, provocou em mim.

Conversámos, mergulhámos nos olhos um do outro, as mãos tocaram-se...

Absorvemos o perfume de cada um, sentimos que as nossas peles se entendiam.

De súbito, convida-me a sair dali, para podermos estar sozinhos; ia jurar que não lhe respondi que sim...nem que não.

Sei que me pegou na mão e, conversando com a maior naturalidade, voámos para local onde povoam os sonhos e pelas brechas do entendimento que o meu coração permitia, dado o estado de êxtase em que estava pela realização de algo que nunca imaginara possível, ainda percebi da horrível demora em chegarmos.

A ansiedade tomava conta de mim quando, com gentileza, convidou-me a segui-lo e daí a abraçar-me, foi o tempo que o tempo não mede.

Foi um longo, longo abraço. Não pronunciámos palavra, apenas nos apertámos, corpo contra corpo e voámos.

A imaginativa abertura de uma garrafa de champanhe foi o ponto alto que comemorou o nosso encontro e diante um do outro, olhos nos olhos, enlaçámos o braço que segurava o copo e bebemos ao mesmo tempo que selámos a nossa condição de... apaixonados.

Se até aí eu tinha dúvidas neste gesto ficou a certeza para a vida: eu seria dele, para sempre, no imaginário que povoa os meus sonhos…

O seu corpo aperta-se contra o meu e tomando o meu rosto nas suas mãos beija-me demoradamente os olhos, enterrando os dedos nos meus cabelos; leva a sentar-me num pequeno maple e coloca-se a meus pés, pousando a cabeça no meu colo serenamente, enquanto as suas mãos tacteavam o meu corpo.

As minhas, lentamente, afagavam o seu cabelo macio, enquanto ele, ousadamente, continuava em peregrinação tocando-me delicadamente a pele, detendo-se no seio visível por debaixo do fino tecido.

Os seus lábios, macios, tocam os meus num beijo que sorve o hálito um do outro. Sem resistir, deixo-me acariciar, enquanto penso que sonho me transportou para aquele momento…

Sentou-se a meu lado e, de súbito os meus sentimentos explodem numa vertigem inimaginável… estamos nos braços um do outro e, como um raio, esse gesto entrou-me na alma a dizer: ele tomou-te, serás dele…. Já não é ele, apenas, que te possui; agora és tu que o vais tomar para ti.

A excitação apodera-se de todo o meu corpo; a respiração, cada vez mais apressada, provoca-o, eu solto a minha paixão: a minha boca procura-o, primeiro suavemente, depois com o frenesim que já não consigo ocultar.

Os meus lábios sugam a sua pele e os seus beijos dominam-me. Deixo-me levar pela ardência do desejo e as minhas mãos procuram-no com ímpeto.

Ainda não sei porque parei nesse momento único. Estava ofegante, feliz, nas nuvens da paixão. O meu corpo era uma explosão de sentimentos há muito não percebidos.

Nada parecia crer que iria descer à terra. Mas desci. E o sonho terminou ali, naquele breve instante em que os nossos corpos mal se tocaram. O seu rosto povoa-me os sonhos. A fantasia inunda-me a alma...

Quando abri os olhos, ainda com a mente povoada de doces ilusões, nada restava… a não ser a realidade, a minha tão terna realidade… porque sonhos… serão eternamente sonhos.

Nos sonhos nada se consubstancia... são, apenas, uma mera ilusão… imaterial.


No eterno sonho dourado
dos teus olhos, longe de tudo,
a madrugada passou,
a água esculpe na montanha
rios límpidos e transparentes.

O crepúsculo partilha os teus momentos
e a espera da manhã,
colhe as flores do amor
que existe no coração
em suave brisa
que acaricia o
o sol e sente
a ternura do
vento.

terça-feira, janeiro 06, 2009

A coincidência das deambulações…

Para além da poesia, sou uma apaixonada por fotografia e, muitas vezes, nas minhas deambulações pela internet, descubro verdadeiras pérolas.

Gostaria de começar o ano de uma forma positiva e encantatória, iludindo, assim, as premonições do pessimismo instalado em todas as vertentes, até porque, confesso, acabei mal o ano; uma malfadada gripe que teima em não me largar (mas quem me manda a mim ser inquieta e, mal tenha um cheirinho de ânimo, salto logo para fora do ninho?) tem-me impedido de fazer aquilo que gosto: partilhar momentos, palavras e imagens.

Foi por um mero acaso que descobri a página da
Luísa Abreu, nessas tais deambulações pela net e, fiquei, revelo, presa ao sorriso e ao poema desta…

Menina Marota

Fotografia de Luisa Abreu




Menina marota, tu és a estrela mais garota
Que no espaço quer navegar,
Menina marota, tu és a palavra mais solta
Que sai sem pensar...

Os teus olhos saltam de felicidade
E dançam na alegria dos teus desejos
Uma alegoria de liberdade,
Onde são permitidos cuidados e beijos,
Estímulos, verdades e gracejos
Para que conheças um novo luar,
Para que nele nunca te esqueças de saber amar.

Menina marota, tu és o pensamento mais belo
Que um dia a tua boca pôde gritar,
Menina marota, tu és o momento singelo
De uma simplicidade de beleza ímpar...

As perguntas caem sem as segurares
Numa curiosidade natural de quem abriu a janela
Para saber contemplar outros lugares,
E como é mágica essa aurora tão bela...



Poema "Menina Marota" de Luisa Abreu
(31/10/08)



Nas ondas do sonho encantado o olhar cristalino das crianças deverão dar-nos força para continuar a lutar para que elas possam, verdadeiramente, ter um futuro melhor.

É essa a minha esperança. 
É esse o meu sonho…