quarta-feira, dezembro 30, 2009

sábado, dezembro 19, 2009

Feliz Natal.




Para muitos é Festa de alegria,
Gulodices na mesa da fartura;
É feira de presentes, euforia,
É calor, é convívio, é ternura.

Para alguns é pesar, melancolia,
Miséria, sofrimento, desventura,
Solidão, desamparo, e agonia,
Vividos no Presépio da amargura.

Tivesse eu tal condão, que por magia,
Descobria um Natal, em cada dia,
Para qualquer indigente ou desgraçado.

Não tenho esse poder, mas o que faço,
É deixar-te aqui hoje um forte abraço
Com votos de um Natal abençoado.




"Bom Natal" de João Manuel Oliveira

terça-feira, novembro 24, 2009

Partilhando sensibilidades...

A maioria de quem me conhece ou me foi conhecendo no decorrer destes anos, quer no mundo real ou virtual, já percebeu a importância que é para mim a Amizade, porque não a considero uma palavra vã, bem como na partilha dos afectos que se vão gerando por estes meios. Há muito que a divulgação de tudo aquilo que me enche a alma é uma das minhas grandes prioridades não obstante os variados obstáculos que tenho encontrado pelo caminho.

Partilhar os momentos de disponibilidade, carinho e afecto que no decorrer destes últimos dias me foram prestados é, sem dúvida alguma, muito especial para mim.

Teresa Cunha é, sem dúvida, Gente com um G enorme. Uma mulher extraordinária, que assume de uma forma sui generis todos os seus sentimentos e motivos de Viver.

A sua obra “Por Tentativa e Erro” (que espero que tenha continuação) é um exemplo vivo da sua especial vivência e da forma como a sua alma de artista cresceu no meio de um Mundo que, muitas vezes, nem sequer lhe foi favorável.

“Por Tentativa e Erro” é o símbolo de uma visão feminina, num mundo do poder que se pensa masculino, de uma Mulher que tem orgulho de o ser e, não nega, de forma alguma, essa forma de estar.

Foi pois, na intimidade da residência desta força da natureza, rodeada de pinturas extraordinárias da sua autoria, que eu passei estes três últimos dias; a Amizade, solidariedade e força de viver, foram uma constante: não tenho palavras para descrever tudo o que me vai na alma ao lembrar, minuto a minuto, todos os acontecimentos da alegria que foram estes últimos dias.

Teresa Cunha e Lígia Moreno (minha parceira de viagem de ida e volta Norte/Sul) proporcionaram-me um fim-de-semana prolongado dos mais fantásticos dos últimos tempos! Obrigada!

A Amizade não se agradece, diz-se muitas vezes…mas eu sou uma pessoa de afectos, para quem uma simples palavra, um gesto de ternura, tem cada vez maior significado. Por conseguinte, agradeço do fundo do coração a generosidade de todos os que partilharam comigo estes dias maravilhosos…

Obrigada, Teresa Cunha, Lígia Moreno e todos os que fizeram destes dias, momentos tão encantadores, diria mesmo… únicos, nestes últimos tempos, em que por tantas provações passei!

Um xi-coração no maior Abraço que te possa dar, Teresa Cunha e desculpa, se vou aqui partilhar algumas fotos destes dias…



E o descanso depois de um dia de emoções...

terça-feira, novembro 17, 2009

"Por tentativa e erro" - Convite

Capa do Livro - pintura de Teresa Cunha


Onde meu coração naufragar
Estarás tu,
De novo,

E um princípio,
E um fim,
Ainda,

E luz,
E treva,
Concordarão de repente,

Vida minha,
Tu és minha hora tranquila,
Meu paraíso,
Minha pena,

Tu és a minha casa,
O meu país,
És tu.

(*)Teresa Cunha


(*) Após longos anos no exercício de uma carreira profissional no Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), Teresa Cunha relata as muitas atribulações de uma Trabalhadora Humanitária na luta diária para cumprir os seus objectivos no decurso de uma década. A narrativa é factual e contribui para a desmistificação de algumas concepções erróneas sobre este trabalho e as heróicas criaturas que o cumprem.
Sendo a autora cidadã luso-canadiana, as experiências combinam não só duas culturas de base muito diferentes, nomeadamente a Europeia e a Norte-Americana, mas também todas as culturas que visitou no decorrer de vários anos de serviço enquanto Funcionária-Pública Internacional, sobretudo em África e nos Balcãs durante as mais recentes guerras.
Trata-se dum relato leve, humorístico e por vezes comovedor das experiências de vida de muita gente diversa, de muitas nacionalidades diferentes, e essencialmente focado sobre o chão comum que partilhamos enquanto cidadãos deste planeta.






Será com muita alegria que me deslocarei a Lisboa no próximo fim-de-semana para estar presente a este lançamento cuja apresentação está a cargo do Poeta Casimiro de Brito .
O evento realizar-se-á pelas 17 horas do dia 22 (domingo), no Bar-livraria “Les Enfants Terribles” do Cinema King, situado na Avenida Frei Miguel Contreiras, 52 A (junto à Av. de Roma).

Contamos consigo.

quinta-feira, novembro 12, 2009

Gineceu...





"…É outra vez sexta à noite. De novo a campainha. O nosso filho abraça-te. Tu ergues o olhar e olhas-me um breve instante. Eu fecho as cortinas. Tu ergues o olhar e olhas-me um breve instante. Eu fecho as cortinas. Não suporto esse olhar sem culpa. O carro afasta-se e eu fico só. Insuportavelmente só. Eu só te queria pedir que o não levasses. Para que eu não me sinta mais uma vez suspensa nessa solidão a que me condenaste. A minha dor tem contornos de capricho aos teus olhos. Enfado-te. Saturo-te. Odeio-te. És execrável. Um sacana de merda, que se fica a rir das minhas lágrimas. Mas não regozijes, que ainda não é hoje que me mato ou desapareço. Eu vou ficar cá. Sou a tua memória. O cheiro fétido que te lembra o passado que queres esquecer. Eu vou ficar aqui, à espera que sofras. Eu sou a prova do teu logro, da tua vida miserável. Essa dor não passa, nem vai passar. Esse é o pequeno consolo deste meu presente árido e desolado. Ergo-te a taça do meu despeito. Que ela te faça chafurdar na solidão e desespero como o teu me fez. É o brinde que faço a mim mesma."
Termina assim a história de Laura, uma das quinze mulheres que o livro Gineceu retrata.
No final do prefácio assinado por Andreia F. S. Varela lê-se: “… Gineceu treme, grita, chora e comemora numa só língua; faz-nos pensar que somos, todos, fragmentos de uma mesma criatura que vale a pena a qualquer hora: de manhã, à tarde, de noite… Esteja a solidão aqui, ou a bater à porta, do lado de fora.

(in, “Gineceu” de Cristina Nobre Soares, pág. 13 a 15)

domingo, novembro 08, 2009

Palavras partilhadas...

Pintura de Dawood Henry McGuire


É na palavra partilhada
alegre, sol no coração
que o poeta sente a brisa 

correndo lés a lés, 
movendo-se
em ditongos de oração.

Entre palavras voa uma gaivota
seduzida pela aragem
nascida das ondas
(brisa marinha com aroma a jasmim)

face a face com a lua 
que envergonhada
se esconde numa nuvem
e a deixa passar.

É na palavra partilhada
ousada
inebriante de anseios
que os enamorados
lado a lado
caminham entre sulcos de desejos
na demora de um tempo audacioso, 

que transmita o tumulto dos seus corações
bravios, sedentos, 

ardentes de mil afectos
e se unem 

no desejo incontido
corpo, pele, suor,
e mitiguem a sede abrasadora
dos seus lábios.

É a palavra
partilha de sentimentos
que se cruzam na vida
e no coração.



(Desligar, por favor, a música de fundo para ouvir o vídeo)

sábado, outubro 31, 2009

Homenagem…

Ao amigo, poeta, escritor, historiador, encenador, político, professor, ao Homem que incorporou tudo numa só pessoa: Fernando Peixoto.

Porque se o corpo parte a lembrança e as memórias permanecem.

Hoje os Amigos vão marcar presença numa Homenagem que em sua honra vai decorrer no Auditório Municipal de Gaia organizado pela Associação das Colectividades de Gaia






AMIZADE

Penso em ti: sinto em mim a nostalgia
desse abraço que fica tão distante
e, mesmo assim, nos liga dia-a-dia
e nos aproxima a todo o instante.

Penso em ti: sinto em mim essa tremura
que se espalha ao longo dos meus braços
e te envolve comigo na ternura
com que te aperto a mim, em mil abraços.

Penso em ti: e respiro bem melhor
por saber que te tenho ao meu lado
e que o ar que respiro é o calor
da aragem da amizade em duplicado.

Penso em ti: e pensar é já viver
contigo residindo no meu peito
aprendendo, afinal, a conviver
contigo, tal qual és, desse teu jeito.

E sinto que afinal valeu a pena
sentir como tu sentes a vontade
de viver assim, de forma plena,
este sabor intenso da Amizade.

("Penso em Ti", poema de Fernando Peixoto

domingo, outubro 25, 2009

Chuva Oblíqua...

Imagem de Marcin Nawrocki


I
Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar do porto é transparente

E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvores, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver essa paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...
(...)
(Fernando Pessoa, in "Cancioneiro",
Obras Completas, I Vol. Pág.67)

segunda-feira, outubro 12, 2009

Dizem...

Imagem de Josephine Wall

"Dizem que as palavras não prendem, mas que envolvem, em cor e se misturam no sentir; Dizem que uma palavra é um beijo, um afecto que traça o destino;" (Almaro)
(Mote)

Dizem
o vento seca a flor colorida
o mar liberta o castelo qu’a criança
construiu.

as lágrimas secam
no rosto que
sorriu

a chuva
baila
entre a flor que
floriu

amizade,
esperança,
força que traz
bonança,
na beleza do olhar
que sinto dentro de ti

no beijo
que te deixo
há alento, o desejo
meu Amigo
neste olhar sentido, que
as flores te perfumem,
meus braços
te cinjam
nas palavras que se
pintam
em aguarelas de
cor!


Dizem
palavras
aladas
perpetuas
de amor.

quinta-feira, outubro 08, 2009

Afabilidades...

Confesso, que é com uma certa alegria no coração que recebo as comunicações do Jornalista Mhário Lincoln, do Portal de informação que possui. Já nem me recordo há quantos anos dura esta colaboração. 

É sempre um gáudio enorme para mim, muito embora, por vezes, nem o divulgue como deveria e mereceria, já que ainda não consigo vencer a minha timidez natural de divulgar os meus próprios trabalhos.

Mhário Lincoln tem sido um amigo atento que, altruistamente, tem levado alguma da minha obra e a de muitos outros poetas, incluindo um dizeur conhecido, igualmente muito divulgado nos meus blogues, que tem partilhado no seu Portal com muita regularidade e esse facto merece todo o meu respeito e amizade.

Mas o meu contentamento de hoje ultrapassou essa alegria crescente que em mim se instala sempre que recebo uma comunicação sua, porque a que recebi hoje tinha uma especial referência que me deixou extremamente sensibilizada, por não esperada.

Partilho convosco a alegria das palavras que recebi…





ESTA FOTO

Um sorriso, uma menina
Perfil santo, um santuário,
Estuário de sereias do arco-íris
As cores fortes que te vestem, Ísis.
São as cores do coração pulsante
Egoísta e único, Amante
Sem manchas passadas.

Óculos escuros me privam
De ver a tua verdade, me crivam,
Mesmo que dos óculos se enxergue
Tuas virtudes, tua fidelidade
Teu banzeiro quebrando na praia
Das melodias cancioneiras do tempo, a raia,
Dos sorrisos marotos, tua brisa.

O que te ornamenta o pescoço
Ornamenta teus sonhos e tua vida.
O ouro da virtude. A prata da bem-querença
O soluço de quem reinventa o amor
A todo instante; minha grande amiga.

(*)Mhário Lincoln



Uma homenagem a minha amiga portuguêsa
com respeito e admiração.



(*) Mhário Lincoln é jornalista e advogado. Tem livros de Direito e Jornalismo publicados. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão. Possui larga experiência em rádio, tv e jornalismo impresso

segunda-feira, outubro 05, 2009

A Lição de Poesia

Imagem de Anne Magill


Estamos sentados num banco todo branco
Sob o busto de Lenau

Abraçamo-nos
E entre dois beijos falamos
De poesia
Falamos de poesia
E entre dois versos abraçamo-nos

O poeta olha para longe através de nós
Através do banco branco
Através do saibro da alameda

Ele cala magnificamente
Os seus belos lábios de bronze

No jardim público de Verchatz
Aprendi pouco a pouco
O que é essencial num poema


(Poema de Vasko Popa in "Cem poemas de amor de outras línguas", pág. 45)

sexta-feira, outubro 02, 2009

Coisa simples...

Este Poema foi colocado em 18 de Julho e posteriormente retirado.
Mas há ocasiões da nossa Vida que não se apagam com um simples gesto por isso resolvi recolocar este momento e deixá-lo ficar.
Há memórias que devem permanecer no seu estado puro tal como aconteceram.





Quero dizer-te uma coisa simples: a tua ausência dói-me.
Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma;
mas que não deixa, por isso,
de deixar alguns sinais -
um peso nos olhos, no lugar da tua imagem, e um vazio nas mãos.
Como se as tuas mãos lhes tivessem roubado o tacto.
São estas as formas do amor,
podia dizer-te; e acrescentar que as coisas simples
também podem ser complicadas,
quando nos damos conta da diferença entre
o sonho e a realidade.
Porém, é o sonho que me traz a tua memória;
e a realidade aproxima-me de ti,
agora que os dias correm mais depressa,
e as palavras ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de mim -
e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói.




(" Ausência", de Nuno Júdice)



Imagem: Google

domingo, setembro 27, 2009

Arco-íris da Vida…

Imagem de Haleh Bryan


Mal toquei no jantar. Uma pequena dor atormentava-me, mas nem queria pensar nela.

Desligara o telefone onde estivera a falar com um dos pintores da exposição do Poem’art e a visita guiada ao Second Life até tinha decorrido bem e animada.

Mas enquanto colocava o jantar na mesa e chamava a Família uma pequena dor tirou-me de imediato a vontade de comer, mas nada disse.

Ajudei a deitar o JP, ainda dorido da queda de há dias, e fui para cima.

Hesitei, mas acabei por desligar o computador e quando me deitei a dor no peito era mais intensa.

Bem, pensei, isto deve ser nervoso e a tensão dos últimos dias… nada que uma boa noite de sono não alivie.

Mas a dor permanecia cada vez mais intensa e quando me arrancou lágrimas tentei chamar alguém mas a voz não me saiu; a pêra da campainha de chamada não estava no sítio quando a procurei e acabei por me encolher toda, puxando o lençol para mim.

A Rita e o Sting aos pés da cama, não se mexiam, contrariamente ao habitual, o que me levou a pensar que eles estavam a sentir que algo não estava bem.

De repente dei comigo a pensar na minha Família e nas consequências do meu desaparecimento. O JP ficaria bem; os meus filhos tratariam para que nada lhe faltasse de cuidados no futuro; os meus filhos são fortes, iriam aguentar o choque; dei comigo a preocupar-me com os meus cães…eles são tão apegados a mim; quando não estou eles nem saem do meu quarto! Que pensariam? Que os abandonei?

A dor continuava insuportável e cada vez me fazia aninhar mais, mas continuei com os pensamentos: uma carta no cofre, escrita há muito tempo e dirigida à minha filha, dava-lhe conta das minhas últimas vontades, até os códigos dos blogues, para ela lá deixar um último poema meu. De repente ocorreu-me: “e se ela se esqueceu da combinação dos números para abrir o cofre?” Seria melhor ir abri-lo, mas apesar do esforço não consegui levantar-me.

Lembrei-me então das duas únicas pessoas que estavam zangadas comigo ou eu com elas, já nem sei. Como gostaria de lhes dizer que apesar das nossas diferenças continuava a gostar deles e que a zanga afinal nem tinha razão de existir. Agora é tarde, pensei. Nem uma palavra lhes vou conseguir escrever. Sei que ela saberá, apesar de já não nos falarmos há tanto tempo, sinto que nos preocupamos uma com a outra. Ele, obstinado e teimoso, vai pensar que fiz isto para o massacrar: não é verdade. Afinal sempre lutei pelo bem dele… só que ele nunca o percebeu.

As lágrimas caíam-me e de repente mergulhei numa escuridão total.

Uma claridade imensa desperta-me, sinto que algo me limpa o rosto das lágrimas, abro os olhos e vejo o Sting olhar para mim com aqueles olhitos esperto e aos pulos por cima de mim atrai a Rita que corre para a minha mão que a afaga logo. Num pulo salto da cama e corro para o terraço; o Sol envolve-me e a dor da véspera tinha desaparecido. Toco em mim e começo a rir-me enquanto agarro o Sting que saltarica à minha volta e começo a dançar com ele.

Resolvi de imediato que tinha outras cartas para escrever e outras directrizes para deixar à minha filha. Afinal ela será a cabeça de casal da minha Família que, apesar de tudo, continua de pé.

São 10 horas da manhã. Apetece-me beber um café. A terrível dor no peito tinha desaparecido por completo e afinal estou viva, muito VIVA mesmo!



(Estes momentos foram reais. Aconteceram na noite de 25 para 26.
Acho que nasci de novo…)

sábado, setembro 19, 2009

Reciclagem

Pintura: Starry Night de Van Gogh


Entre o mar e o rio
não há lugar para promessas
dispersadas entre grãos de areia
na invariável limpidez do inexplicável
silêncio.

O tempo entre cada margem é longo
e na passagem por elas
os barcos antecipam a voragem dos
sentidos.

Entre a noção e a razão
existe dor e silêncio
intenso como a dimensão do
mar
terrível como a certeza do
abandono.

Como sal purificador
fluindo na seiva de nós
afastados que somos por sonhos
diáfanos que se espelham
na incerteza da razão
reciclagem de tempo,
perdido entre risos de veneno,
mordidos língua a língua,
consagrando o húmus da utopia.

Reciclagem de sentimentos
tornados leves como nuvens brancas
de algodão.

quinta-feira, julho 16, 2009

Doçuras de Verão...

Pintura de Nela Vicente



No meu mundo secreto
entre búzio azuis
algas verdes marinhas
invento poemas
soltando meu sorriso
na imensidão do mar
cabelo ao vento
coração a bailar
pés descalços na areia
ao som do violoncelo
eu quero fantasiar

Como mel
- chantilly,
doçura na tua boca

no meu corpo
a cinzelar
teus olhos castanhos
no bico da minha alma
me querem beijar

Tu és fogo
eu sou chama
tu és brasa
que inflama
acordando
o trovão
que em nossos corpos
clama…

quarta-feira, julho 15, 2009

Palavras ridículas…

Pintura de Estall
O Poeta escrevia:
“todas as cartas de amor são ridículas”...

E o riso morre no coração
Que não derrama amor
dimensão infinita do sonho
contendo toda a grandeza
de um céu invadido de estrelas
no espelho que os deuses esculpiram
na face da lua onde as noites são límpidas
e transparentes como o sonho dos amantes

Eis a palavra que perdeu a memória
e da viagem por todo o universo, ela sente
o afiar dos espinhos que os dedos cobiçam
porque é no sangue derramado
que a palavra se solta
escrevendo o poema num grito do coração…

segunda-feira, julho 13, 2009

A um ausente...

Imagem de Ragnes Sigmond

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o acto sem continuação, o acto em si,
o acto que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
por que o fizeste, por que te foste.

A um ausente" Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, julho 09, 2009

Convite

Em 3 de Abril fazia aqui referência à satisfação pessoal que a inclusão da poesia da Amita (Fátima Fernandes) na II Antologia de Poetas Lusófonos me merecia, porque no meu entender, há muito que ela merecia este destaque.

É com verdadeira alegria no coração que vos convido a estarem presentes amanhã, sexta-feira, dia 10 de Julho, pelas 21,30 no lançamento da sua obra, Transparência de Ser, no Salão Nobre da Junta de Freguesia de Aldoar.


                              Conto com a vossa presença






Mãe
Escuta a brisa que meu ventre abre
Na terra dos sonhos o canto das pequeninas coisas
De braços estendidos o enlevo do sorriso que as afaga
Aquele murmurejar de água soletrando o rio
Plácido

Mãe
Sente os dois mundos que em mim trago
Saboreando o néctar das coisas invisíveis e cândidas
Entre a música e a leveza da dança
No balanço certo das outonais cores
Em folhas irisadas e suaves

Seis meses, mãe, são caminhados
Na voz das pequeninas coisas
Sob o azul da luz e o verde dos laços

Poema "As pequeninas coisas" da Amita


quarta-feira, julho 08, 2009

Pedido de casamento...

Sinto uma paz interior quando ao primeiro raiar da manhã chamo o JP que dormia ainda profundamente, para a habitual e crónica rotina hospitalar.

Confesso que nos últimos anos (já lá vão mais de nove) estes momentos eram de grande tensão para ambos, se calhar, mais para mim que para ele.

A doença avançara depressa demais e as realidades da Vida, para ele, tinham deixado de existir.

Como um menino resmungão, que não se quer levantar, barafusta para que o deixe dormir; puxo-lhe o lençol para trás e rio-me: - anda lá dorminhoco, quem te manda andar às "gatas" de noite? (a ver Tv, claro!)

Puxando a persiana completamente para cima, deixo entrar o sol que inunda o aposento, enquanto o fiel Sting, brincalhão, enceta uma gímnica vertiginosa na sua maneira pueril de mostrar a satisfação de o ver acordar.

Não é fácil falar de nós. Não é fácil falar de uma doença que, a não existir, nos teria trazido outros caminhos… Não é fácil deixar de perceber que o caminho dele não tem futuro e o meu, bem… o meu… é estar a seu lado, esquecendo que, afinal, o meu próprio caminho deixou de existir.

Deixei de existir, para ele e para mim, há muitos anos…

Existo apenas para lhe minimizar o sofrimento, para lhe dar uma vida confortável, dentro do seu próprio desconforto e que saiba e perceba, que lhe perdoei, apesar de tudo, o saber que se não fora a doença, outra já ocupava o meu lugar.

Pergunto-me, por vezes, se vale a pena anular a pessoa que sou, aquilo que sonhei, o que lutei a nível pessoal e profissional, anulando desejos e vontades, permanecendo na minha gaiola dourada.

Acho que sim. Sei que sim. Afinal, se voltasse atrás, a minha atitude teria sido exactamente a mesma.

Porque sou como sou. E não consigo ser de outra maneira.

Olho para lá da janela, onde o sol nasce, o verde da vegetação brilha ao longe, como que dando-me esperança e força.

Sinto-me em paz e a lembrança de tempos outrora felizes inunda-me e sorrio desses momentos…

O porquê destas lembranças?

No dia de hoje, há muitos anos atrás fui pedida em casamento…

Imagem de Ernst Schütz


Nada direi de ti,
nem um só pensamento.

Num assomo, lentamente,
meu peito desgasta-se de palavras
que se repetem textualmente

pacientes, de toda a matéria que
se pressente para lá do que se não vê,
nem se imagina.

Entreaberto, como uma janela, meu coração
vislumbra o ocaso, em fragrâncias
de pétalas por entre caminhos
etéreos percorridos de mão em mão.

Sou quem sou.

Nesta forma de ser
não há espaço para intervalos
passeados entre os sentimentos
de olhos que nada vislumbram
nas profundezas da alma.

Rasgo meus sentidos e
abro a janela de sensações flóreas
para lá de todos os laivos de vida
que se sentem nas marés perdidas.

Hoje nada direi de ti.

Porque as palavras estão caladas
sossegadas, no fundo da alma,
e aí permanecerão.

sexta-feira, julho 03, 2009

Lágrimas...

O dia amanheceu cinzento e com um aperto no coração liguei o pc; não quis dar crédito ao meu pressentimento de que algo não estava bem com o meu tão sensível coração e tentei desviar as atenções para algo a que me tenho dedicado estes dias.

Confesso que já dera pela sua falta. Por vezes pensava em lhe enviar uma palavra para saber dela, mas ia deixando para o dia seguinte…

Comentadora praticamente assídua, mas sem dia marcado, de uma forma muito especial marcava presença neste e noutro
espaço onde sentia a sua presença de uma forma muito espiritual.

Cruzámos muitos email’s, nunca lhe vi o rosto, nem fui sabedora se teria alguma página pessoal.

Catarina Buckins das Neves não mais me sorrirá através dos seus comentários.

Seu filho Ricardo Neves, por email que me enviou ontem, mas que só hoje tive oportunidade de ler, comunicou-me o desenlace e o porquê de me escrever.

Afinidades partilhadas que levam a um profundo sentimento de perda, mesmo que não nos conhecêssemos pessoalmente.

O último
comentário que deixou foi num poema que lhe dedico… porque a vida é mesmo a...


Figuração de um sonho

Pintura de Renso Castaneda


No deslumbre do amor,
vida, corpo, voz,
algodão doce, no céu azul,
que se descobre pela manhã
incutido no mesmo espelho e
esculpidos no espírito
(cumplicidade da memória)
das almas que se tocam…
bravias, sedentas, arrojadas,
por entre o cheiro da terra molhada.

Dentro da imaginação
não existem rituais,
mas ondas invisíveis
movendo portas e janelas,
sopradas nos dias de calmia,
gravadas, palavra a palavra,
na areia da vida, voando,
sem asas, através dos ventos,
como barcos que velejam ao sabor
de cada corrente…

Beijar e dormir na tua pele nua
no abraço que me fez tua,
figuração fervente de um sonho
que permanecerá na minha mente.





Para ela o meu último Abraço.

Ao Ricardo, seu filho, o meu agradecimento pelas palavras que me endereçou. Jamais a esquecerei por toda a sensibilidade que partilhou comigo ao longo destes anos.

Obrigada.

quarta-feira, julho 01, 2009

Verão de Vida

Imagem de Boopsie Daisy

E surgiste assim de mansinho
como o primeiro raio de sol
que desponta ao amanhecer
nos olhos de uma criança

Por entre a suave claridade
sorrio
escondendo o olhar
no toque leve do teu cabelo.

Embalo-me nas ondas
coloridas da imaginação
e aguardo
marés cheias de sentidos.

Deixa que meus olhos
pousem nos teus
mar calmo de ilusão
onde permanecem,
no cheiro do jasmim,
beijos e desejos meus!

sexta-feira, junho 26, 2009

Poema sem nome...

Não sei quando lhe perdi o caminho de casa.

Sei que ao reencontrá-lo as suas palavras brotaram como pétalas baloiçando na suave brisa do mar.


Ei-la na magia que a sua poesia nos oferece...


Pintura de Arthur Rackham

ah a cor da noite
de todos os animais
solitários. lenta aparição.
corações feridos na travessia
dos prados quietos.
sombras inclinadas ângulos
rarefeitos na treva.
o céu a tragar a treva
os ramais sem rumo.

cães acossados na nudez do lugar
atravessam a geografia do deserto
inteiro. em nebulosa romaria.

por dentro das grutas insones
pesam as pálpebras líquidas
despenhadas na ausência.

há os amantes no silêncio claro da lua.
nas peles desnudas tacteiam
um instante. um fim de solidão.

há mãos que derivam na escrita
nas sílabas crepusculares
intentando réstias de memória.

ah as vozes invisíveis
antigas no medo límpio.

Poema de
Maria M in blog com palavras ao fundo

sábado, junho 20, 2009

Olhos das palavras...

Pintura de Ana Muñoz


Ao amanhecer um raio de sol
trouxe uma rosa branca
que ofereceu à lua e, lentamente,
entre os olhos das palavras,
esconde-se no céu da minha afeição.

Nas gotas do orvalho da manhã
as lágrimas dissipadas
são sementes do poema
endurecidas no desânimo de quem espera
o seu primeiro beijo de luz

Encarcerada na raiz do sentimento
a palavra é o sol desabado
o espelho sem reflexo
caído em pedaços na dureza dos sons…

Uma palavra esvaída na garganta da razão
a página branca de um buraco sombrio
onde a poesia é a fragrância que deixa entrar o Sol
e ilumina o meu coração…

(in Menina Marota Um Desnudar de Alma,
de Otília Martel, pág. 54)




domingo, junho 07, 2009

Instantes

Imagem de Isabel Filipe


Tocar o céu
na bruma do desejo
infinito

Tocar o mar
nas ondas salgadas
da tua boca

Tocar a terra
no chão molhado
do teu corpo

E perder-me
nos teus braços
como quem perde
o último fôlego
de Vida…

Poema de Otília Martel
(Nickname Menina Marota)

quarta-feira, maio 27, 2009

Sons da Escrita...

Aqui onde tudo começou

De asas abertas na imensidade,
pássaro faminto de liberdade,
voa, voa…
és viajante, cruza o espaço
que o teu voo não tem cansaço
voa… voa…

Sentido sonho o que sonhaste
sobre os campos, águas e flores,
fala de sentires e amores
e, voa como os falcões
contornando os furacões.

Pássaro que sentes a tempestade
quando ela ao longe vem,
voa nessa claridade
do puro azul que nos faz bem!

É com este poema que José-António Moreira dá início ao Sons da Escrita 226, onde por entre as vozes de Caetano Veloso e Marianne Faithfull são lidas mais poesias, destacando a maravilhosa canção de Emi Fujita “True Colors” que, sinceramente, me encanta. (Em tempo: já on line o 227)
Confesso que foi com emoção que ouvi e li um programa onde me sinto uma gota no oceano, entre os grandes nomes que lá são igualmente partilhados.

A
José-António Moreira pelo privilégio que concedeu à minha poesia o meu sincero

Obrigada!

sábado, maio 23, 2009

Em Maio de 2005...

Convidava aqui e aqui para um passeio através das minhas palavras...
Decorridos estes anos, apesar do cansaço da Vida que me força, por vezes, a algumas ausências, o convite mantém-se porque é para vós, os que aqui permanecem fiéis, os que passam mas voltam, os ausentes mas sempre lembrados, que esta página é feita.

Muitas memórias, muito da minha alma… foram aqui partilhadas. É convosco que muitas vezes rio, outras choro, outras me deslumbro, mas sempre com a convicção de que partilhando sensibilidades e afectos é o caminho que devo prosseguir.

A todos os que me têm acompanhado neste e noutros espaços o meu carinhoso


Obrigada

Imagem Google


Todas as pessoas são pássaros livres
o segredo é não se deixar prender
voar rasteiro por sobre as estrelas
é a melhor forma de se viver.

Cantar para aquele que quer ouvir
contar para aquele que quer saber
a sensação de estar liberto
a melhor forma de ter prazer.

E quando encontra a pessoa amada
não sabe o que há-de dizer
rir, chorar e descobrir a custo
a melhor forma de se querer.

E se a tristeza lhe bate á porta
muito há a fazer,
limpe as lágrimas, abra o seu coração
e deixe o amor vencer...

terça-feira, maio 19, 2009

Adivinhem quem faz anos hoje!

“Há pessoas que entram por acaso nas nossas vidas...
mas não é por acaso que elas têm o privilégio de permanecer.”


Quem disse estas palavras foi, salvo erro, William Shakespeare mas adaptam-se perfeitamente a este Senhor… que completa hoje mais um aniversário e que tem sido ao longo destes anos um Amigo que nunca esquecerei.
Acreditem que não tem sido fácil… é um teimoso de primeira apanha, mas uma das pessoas mais altruísta que conheci nos últimos tempo…e a ele se deve que muitos poetas da blogosfera tenham tirado os seus poemas da gaveta e tenham chegado, aos poucos, às estrelas…

E como ele muitas vezes me diz… “Eh pá”… hoje é o teu aniversário.

Que seja por muitos e felizes anos que continues, atempadamente, a actualizar
este local!




Parabéns Luís Gaspar!

sexta-feira, maio 15, 2009

Partilhando sensibilidades...

Foto pessoal

Confesso que a minha vida foi sempre a ler e a escrever: a lápis, caneta, máquina de escrever, em cadernos, blocos, agendas, diários, cartas, postais e, mais tarde, em computadores…a ler processos, a escrever informações, a ler memorandos, fichas, a dar boas e más notícias… e entre tudo isto, escrever poesia, histórias e memórias, fracas ou boas, alegres ou tristonhas, mas sempre o que o meu coração ditava.

Este pensamento ocorreu-me enquanto sentada na grande rocha por detrás da capela, construída em cima do mar, olhava as ondas que tinha na frente.

Nos últimos anos, a reviravolta que a minha vida deu afastou-me da maioria das coisas que gostava de fazer: dos amigos e colegas que partilhavam comigo a maior parte dos dias; da actividade profissional de que gostava, dos contactos que tinha, dos hobbies que eram a minha vida… mas como digo muitas vezes, a Família está primeiro e por ela tudo se pode mudar, mesmo que isso nos altere, por completo, o futuro que sonhávamos pela frente, quer a nível profissional, quer a nível pessoal.

Falar de doenças, especialmente num local como é a blogosfera, não é fácil e, ainda por cima, se essa pessoa nos está directamente ligada.

A Esclerose Múltipla (EM), é uma doença que só muito recentemente começou a ser amplamente divulgada e, quando há dez anos atrás, tomei conhecimento da sua existência, descobri que ela não era sinal de envelhecimento, mas sim algo que iria mudar por completo a minha vida já que, a pessoa que dela padecia, me estava intimamente ligada.

Ter acesso àquilo que ela representava, para o doente e familiares, com tudo aquilo que poderia causar, não foi tarefa fácil na altura, porque as informações eram escassas e, falar dela, quase tabu para muita gente.

Até à descoberta da doença, muitas hipóteses foram aventuradas, muita caminhada de consultório em consultório foi feita, porque a nenhum profissional, perante os sintomas, lhe ocorreu mandar fazer o exame que detectava concretamente a doença: a ressonância magnética!

Tão simples como isso!

Tinha-se poupado muito tempo, muito sofrimento e talvez a hipótese de, a doença não ter afectado órgãos vitais como afectou, se as várias componentes médicas consultadas tivessem interligações entre si.

Bastava, sei hoje, que dois anos antes, num primeiro sintoma que ocorreu oftalmologicamente, o médico dessa especialidade, o mandasse para um neurologista, perante os sintomas apresentados, em vez de o mandar para casa com uma receita de óculos de… descanso.

Estas palavras e pensamentos vêm a propósito de um telefonema, recebido de pessoa amiga que encontrei, casualmente, no local que é também o meu “refúgio”, há cerca de dois meses atrás que, em desespero de causa, tinha ido solicitar intervenção Divina, na Capela existente naquele local.

Sentadas à mesa do café da praia, contou-me as correrias para o hospital, para os médicos e os sintomas que tinha, que cada vez mais se agravavam; como num filme, revi, cena a cena, tudo o que tinha anteriormente passado com o JP e aconselhei-a a insistir, com algum dos médicos dela, que lhe fizessem a tal ressonância magnética, única detectora desta malfadada doença.

O telefonema resumia-se a agradecer-me o ter partilhado com ela as informações de que dispunha e o conselho que lhe tinha dado, porque tinha sido correcto: o exame tinha detectado que ela sofria de EM, que iria dar início ao tratamento hospitalar e tinha esperança de voltar a ter uma vida o mais normal possível… chorou por, segundo as suas palavras, o desespero destes últimos meses, de não saber o que tinha, ter finalmente desaparecido.

Quando desligámos, um pensamento ocorreu-me: quantas pessoas não estarão nesta circunstância por não partilharmos, nós leigos, as informações que vamos assimilando e que em casos análogos poderão servir para algo útil?

A doença, própria ou de algum familiar, não tem que ser um estigma que deve ser escondida de todos.

Partilhar conhecimentos, dados e experiências, faz parte também, de um civismo humanista, que deveremos ter em conta.

Por isso, se tiver problemas de visão, falta de forças, dores nos membros superiores ou inferiores e, sem causa aparente, cair muitas vezes, lembre-se de pedir ao seu médico para lhe mandar fazer um exame de despistagem, através de uma ressonância magnética, porque este exame lhe poderá trazer muita informação útil.

Porque a Vida é um bem precioso, deixo-vos com estas palavras… porque, afinal, é a ferramenta de que disponho para tentar ajudar alguém em iguais circunstâncias…

Obrigada por me lerem…

segunda-feira, maio 11, 2009

Dever Cívico... DENUNCIAR!

Muitos de nós já vimos ou conhecemos quem tenha sido alvo de plágio.

Quantas vezes, tentámos que, os plagiadores, repusessem a verdade da autoria dos textos e eles, simplesmente, ignoraram ou até em alguns casos, preferiram apagar os blogues ou os temas, a dar o braço a torcer.

Pessoalmente já fui vítima disso e denunciei directamente aos plagiadores e exigi que a situação fosse reposta.

Ainda recentemente tive conhecimento de um blogue que lá tinha poesia minha, sem se ter dado ao incómodo de lá colocar a autoria.

Alertada para a situação, a dona do blogue limitou-se a apagar os poemas, sem qualquer referência ao facto.





Mas o caso que vi acontecer ao Estúdio Raposa ultrapassa tudo o que se possa imaginar já que empresas, que se pretendem ser de respeito e idoneidade, permitiram que o roubo (porque assim se deverá chamar) pudesse servir os seus intentos comerciais.

Quando um qualquer site chinês rouba a programação do trabalho de
Luís Gaspar que, altruistamente, oferece em prol da cultura, um trabalho imenso visando ajudar, inclusive, a divulgação de novos poetas, e esse site, abusivamente, consegue que a Vodafone, a TMN e a Optimus o ponham no mercado, retirando lucros consideráveis (4 euros por semana pelos toques disponibilizados) sem qualquer comunicação ou pedido de autorização ao autor das programações!

Fomos todos, Bloguistas, que viram os seus trabalhos
lidos e publicitados ao longo de anos, também vitimas desta, posso considerar, enorme burla!

Solidária com o
Estúdio Raposa e com a indignação de Luís Gaspar, aqui manifesto o meu repúdio por tamanho abuso e ultraje, pedindo a todos aqueles que, como eu, viram os seus trabalhos publicitados através do Lugar aos Outros do Estúdio Raposa, manifestem nos seus Blogues o repúdio por esta situação, denunciando o crime cometido.


"Um por todos, TODOS por UM"

sábado, maio 02, 2009

Maio...Sejam as mulheres como as rosas.

Pintura de Raphael Kirchner

Sejam as mulheres como as rosas
ou como as aguarelas,
quando estão connosco, quando não,
quando vibram, quando alegram,
quando doem, quando vêm e quando vão,
quando sobem as ladeiras,
quando descem passarelas.

Tragam com elas os incorruptíveis
sinais da beleza, ainda que se saiba
impossível sua erupção
fora da alma feminina, do corpo da mulher,
esse vulcão que trabalha nosso desatino,
faz a nossa inelutável rendição.

Ainda que se pense em mar, em céu,
no incrível arco multicor, no ar
que impregna a flora e balança
os frutos verdes após a chuva.

E até no rodopio do ciclone,
que louva Deus bailando
sua aterradora e tresloucada dança,
nas noites austrais, nas auroras boreais,
numa explosão de luzes no setentrião.

Nada disso ou tudo isso sequer
supera uma lembrança de mulher.

Fora de seu riso e de seu colo,
não há razão de ser, nem como florescer
a magia, a poesia, o êxtase, a canção.

Chame-se então deslumbramento
a essa compulsória devoção.
E nesse diapasão lírico,
celebro as que se foram,
cuja ausência confrange o coração,
as que esperam e acenam da janela, aquelas
que virão mitigar a dor de existir,
reinventar a fúria sagrada do amor.

As que passam majestáticas
e a gente acompanha com o olhar refém.
Aquelas que apesar de entusiasmo e de desvelo
só nos dão o seu desdém.

As que não são vilãs, nem heroínas,
nem escravas, nem rainhas, nem fundamentais;
algo mais que a sina feminina
ou a maioridade que a elas se negou.
Não se diga “é bela esta mulher”
porém bonita sua própria condição.

Surpreendam sempre como o plenilúnio,
o arco-íris, o solstício de verão,
Não falte nesse comovido poema
uma voz aveludada, uma mecha de cabelo,
os opulentos seios das hollywoodianas,
as pernas de garça das nordestinas,
a imensa tristeza das chinesas de pés pequenos.

Dê-se às mulheres o leme do mundo, deixem-nas
recuperar o sentido perdido da ternura,
apontar um outro rumo, à margem
da brutalidade, da carnificina masculina,
uma trégua para repensar se vale a pena
parir e amamentar mísseis e canhões.

Dê-se a elas o sonho do homem e grande
e do menino; dê-se às mulheres-mães o direito
de intervir no conselho de guerra das nações,
o direito de escolha além da irracionalidade viril
e da imbecil mutilação dos homens tolos.

Que além de toda dor e corrupção
cinja-se o corpo da mulher
ao corpo do poema, e de ambos
não se aparte a beleza suprema.

Vão é vosso esmero, estilistas da confecção!
Esse corpo de mulher, divino e magistral,
só precisa de raio solar, folha de parreira.

Mas dê-se a elas bons frascos de perfume,
batons variegados, provocantes lingeries,
vestidos de organdi.
Dê-se a elas inclusive a ilusão
de que precisam de séquito, vestais,
de algo mais que a generosidade
de suas curvas, que a seda de suas peles.

Deixem-nas pensar que podem superar
a grandeza de sua própria criação.

Sejam bem amadas as amantes,
orquestrados com cuidado seus suspiros
inebriados, os frágeis cristais e os apelos
de sua carne insaciada.

Sejam os rompantes das mal amadas
amparados com carícias em dosséis
e o fogo que elas trazem represado
arda nos flancos, ao galope dos corcéis.

Sejam como as rosas abertas,
cintilantes, despudoradas, acesas
ou como aquelas fechadas,
grávidas de promessas e belezas.

Sejam gráceis, redentoras.
Sejam salvação.

(Redentoras, poema de Erorci Santana
in “Maravilta e Outros Cantares”)

segunda-feira, abril 27, 2009

Amanhecer chuvoso...

Adormeci tarde. A chuva batia incessantemente no vidro da janela como que a chamar-me de mansinho.

Ainda nem sei bem se dormia quando sinto os teus passos aproximarem-se devagar… e um sorriso percorre-me como que adivinhando o bem que irias provocar…

Num rompante retiro do corpo a peça que o cobre e entrego-me aos teus prazeres, enquanto os meus dedos percorrem calmamente o teu


No meu jardim florido
um arco-íris de sonhos move,
arrebatado,
sedento do teu corpo
que se abandona ao meu,
a paixão
transmitida
no toque mágico da tua boca
na minha pele,
que ousa,
deliberadamente,
por entre palavras
inaudíveis,
saciar-me
até à exaustão,
na sede da ternura
do nosso coração.


Pintura de Adam Scott

O tempo pára cúmplice da claridade que rompeu pelo aposento e entrou nos teus olhos que me olham apaixonadamente, como se não acreditassem que ali estivesse e dou-me na seiva que escorre de mim, numa oferenda mágica de todo o meu sentir.

Um calafrio percorre-me e, ao longe, ouço o bater agitado do vento numa das janelas e ainda mal refeita do sonho de onde acabara de sair, olho o lugar vago e frio a meu lado que há muito não conhece o calor de outro corpo.

Reparo nos ponteiros luminosos do relógio e, num salto, cubro a distância entre os meus dois cãezitos que aguardavam, mais que ansiosos, pela abertura da porta do quarto… e do passeio que a chuva iria estragar.


Foi apenas um sonho num amanhecer chuvoso…

sábado, abril 25, 2009

25 de Abril - 35 anos depois...

Imagem de José Dias


Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente.

Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente.

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.

Poema "O Futuro" de José Carlos Ary dos Santos

terça-feira, abril 14, 2009

Sou quem sou...

Pintura de Cristiane Campos


Nada direi de ti,
nem um só pensamento.

Num assomo, lentamente,
meu peito desgasta-se de palavras
que se repetem textualmente

pacientes, de toda a matéria que
se pressente para lá do que se não vê,
nem se imagina.

Entreaberto, como uma janela, meu coração
vislumbra o ocaso, em fragrâncias
de pétalas por entre caminhos
etéreos percorridos de mão em mão.

Sou quem sou.

Nesta forma de ser
não há espaço para intervalos
passeados entre os sentimentos
de olhos que nada vislumbram
nas profundezas da alma.

Rasgo meus sentidos e
abro a janela de sensações flóreas
para lá de todos os laivos de vida
que se sentem nas marés perdidas.

Hoje nada direi de ti.

Porque as palavras estão caladas
sossegadas, no fundo da alma,
e aí permanecerão.

segunda-feira, abril 06, 2009

Páscoa 2009

Espero-te no cais da vida
símbolo de chegada e partida.


No coração um beijo doce
nas mãos a austeridade do desejo
que há muito permanece no ensejo
de uma percepção nunca perdida



Imagem de Fernando A. Lopes



Hoje acordei com vontade de ser quem não sou.

Talvez voltar ao ventre de minha Mãe e sair de lá diferente, insensível, dura, desapaixonada, tal como aquelas pessoas para quem está sempre tudo bem, que abanam com a cabeça e dizem sim, com um sorriso apócrifo no rosto, todos os dias
Caloroso acolhimento
nas profundezas do ser.


Lentamente, entreaberta,
a janela da vida, vive na mais
louca fantasia de todo o querer

Imagem de John Jude Palencar

Hoje, num dia que amanheceu igual a tantos outros, olhei para lá da janela e sorri… porque sei que nunca serei capaz de sorrir como quem faz um favor a alguém, abananando a cabeça e partir indiferente a tudo; que na duplicidade do ser a minha mente não colhe pensamentos dúbios, dissimulados de toda a vivência que partilho em redor de mim e aos quais me dou de alma lavada.

Nada é irrelevante no meu querer de fogo, de verdades que doem por vezes, mas às quais o meu coração não foge, porque não consegue embarcar no logro dos sentidos e dar-se como uma folha ao vento.

Hoje acordei num dia igual a tantos outros, fiz o que faço todas as manhãs e de caneca de café na mão senti a cor do mar, que entrou no meu olhar e embarquei nele flutuando no tempo e as ondas encontraram-se comigo como quem se banha na maré vaza numa noite de lua cheia.

Sinto-me em paz comigo porque não traio a minha própria capacidade de entrega, a constância de dizer não, quando todos gostariam do falso sim, do sorriso inteligível que leva ao esquecimento fácil que corre calmamente nas veias, mas que gela o coração.

Hoje, vou continuar a ser quem sou, mulher de muitas marés, de verdades e persistências, de paixão e entrega total àquilo em que acredito porque não caio na tentação fácil do era e não era, do dizer pela boca o que o coração não sente.

Hoje, aqui e agora, renasço, igual a mim própria…

Imagem recolhida na net...

sexta-feira, abril 03, 2009

Divulgação

A poesia de Fátima Fernandes a Amita do Branco e Preto há muito merecia, pelo seu carisma e qualidade, uma referência manifesta nas publicações editoriais.

Acompanhei com muita satisfação e, porque não dizê-lo, algum orgulho também, a escolha da poesia da Fátima Fernandes para integrar a II Antologia de Poetas Lusófonos porque, no meu entender, há muito que ela merecia este destaque.

O lançamento e apresentação da obra realiza-se no próximo dia 5 de Abril e terá início às 15h30, nas Capelas Imperfeitas do Mosteiro da Batalha, com a actuação da Orquestra Filarmonia das Beiras, continuando a cerimónia pelas 16h30, no Auditório do Mosteiro.

Haverá um momento de poesia com a participação de vários poetas.


Conto com a vossa presença!

Capa do Livro

Nos teus braços de palavras
Me enrolam carícias mudas
Qual rosa rubra despontada
Que seu doce aroma espalha
E pelo espaço perdura

Soltam-se pelas cidades, inter muros
Os pontos que no Tudo abarcam
Estilhaços esvaídos em leve fumo
Quando em ti me lês nos traços
Desprendidos, planos, profundos

Sob as longas raízes criadas
Me enfeitas e desnudas
A serenidade dos passos
O beijo que o vento permuta
Esse encontro inesperado
Num qualquer presente-passado
Feito de essência e candura

Assim me enlaçam palavras
Fragrâncias de rosa rubra


“Em rosa rubra”, de Fátima Fernandes (Amita)


Igualmente, amanhã...



...será o lançamento, em Lisboa, do terceiro livro de poesia de Vicente Ferreira da Silva, Interlúdios da Certeza.

A apresentação será feita pela
Maria Azenha e ouviremos poemas pela voz da
Inês Ramos.


Igualmente...

em 4 de Abril, pelas 19 horas, na Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana (Bairro Massapés - Tires ), terá lugar a apresentação do livro Papoilas de Janeiro, da autoria de M. Correia (textos) e T. C. Alves (desenhos) para o que deixo o presente convite...



(Clicar no convite para aumentar)



Contamos com a vossa presença.