" ... e a simpatia dos teus comentários, a leitura do teu blogue, ajudaram-me numa fase triste da minha vida, em que perdi uma pessoa a quem estava muito ligada.
Ler-te foi uma forma de te conhecer e respeitar.
Mas não estamos aqui, só para as coisas boas, pois não?
Ler as tuas tristezas é também uma forma de partilhares e aliviares as tuas dores. Não queres escrever ... ", ao receber este email da Maria, de que só apresento um excerto, confesso que os meus olhos se encheram de lágrimas...

Foto de autor anónimo
Para quem é tão positiva e optimista como eu, não é fácil falar de sentimentos tristes, especialmente quando englobam pessoas que me são muito próximas.
Mas a carta da Maria despertou em mim, não só uma necessidade latente de exprimir os meus sentimentos, como falar também de um “título”, que é por vezes, tão mal amado...
Confesso, que não foi amor à primeira vista. O seu olhar seco e sério manteve-me, a primeira vez, a uma certa distância.
Mas depressa descobri, que aquela era uma capa ilusória e que debaixo da sua aparência fria, encontrava-se uma Mulher, não muito habituada a carinhos e manifestações de sentimentos, mas que se preocupava com os outros.
Foi um caminho duro o que percorri até ela, ultrapassando algumas barreiras a que o facto, de sempre ter vivido numa pequena cidade, extremamente religiosa, fechada em si mesma, não foi alheio.
Uma ponte de afectos, começou a unir-nos, de tal forma que não passou despercebido a outros membros da família.
Numa base de confiança e sinceridade, a que o respeito mútuo não era alheio, passei a ver nela, uma confidente e amiga.
Após a morte do marido, os nossos laços estreitaram-se e recordo, com uma certa ternura, aquela vez em que, como habitualmente, lhe telefonei; a sua voz era tão estranha, que de imediato galguei sem dizer nada a ninguém, os quase quarenta quilómetros, que separavam as nossas casas.
Encontrei-a com uma série de fotografias espalhadas na cama e o rosto completamente em lágrimas.
“Estou tão só... ” e as suas palavras caíram fundo dentro de mim.
“Não está só. Nunca estará. Eu estou aqui consigo... ” e mantive a minha palavra, até ao seu minuto final.
Durante anos, fomos companheiras de horas boas e más.
Nem tudo foi perfeito, mas respeitávamo-nos e o afecto que se estabeleceu entre nós, ultrapassou muitas barreiras.
Não foi fácil, para mim, assistir à degradação física que a doença lhe provocou e quero manter a lembrança da Sogra vigorosa que conheci...
"Ninguém morre quando fica vivo no coração de alguém".

20.01.1922 - 27.01.2008
Maria era o seu nome...