Desligo a televisão com um movimento brusco enquanto o meu coração bate descompassadamente.
Olho o presépio e a árvore com as luzes ligadas e, instintivamente, desligo-as.
Uma onda de revolta e tristeza invade-me mas sinto-me impotente para lutar contra a duplicidade do Mundo.
Algures num documentário fala-se que num determinado país onde as vacinas deveriam ser oferecidas gratuitamente a todos os que dela precisam (e são milhares), são vendidas a preços exorbitantes, debaixo do olhar complacente das autoridade e, o povo, que delas necessita, passa fome para as comprar.
Noutro canal, fala-se da filha do presidente de um país, qual testa de ferro, a fazer aplicações financeiras de milhões, enquanto o povo morre de fome.
A nível mundial, centenas de famílias entram em ruptura financeira; entretanto, vão-se descobrindo as falcatruas que financeiramente se fizeram, onde cada um, recolhia os dividendos para proveito próprio.
Sinto-me cansada e febril. Em parte, devido ao meu estado de saúde, cuja gripe, que se agravou nestes dias, me tem incomodado. Por outro lado, uma tristeza enorme pela minha impotência, por não poder fazer mais do que sentir o meu coração solidário e revoltado, com tudo o que se passa.
Tive uma educação cristã; ensinaram-me que Jesus nasceu para salvar a Humanidade.
Olho o Menino deitado nas palhinhas e penso quantas vezes ele teria que voltar a nascer para o “mundo” ser salvo.
É verdade que o espírito natalício poderá estar em nós todo o ano. Reconheço que em mim talvez esteja, porque não preciso do Natal para ser solidária, para me interessar pelos outros, para ajudar, mesmo que não dêem conta que o esteja a fazer…
O Natal já não tem o impacto e o virtuosismo de outras alturas; não preciso desta época para me dedicar à família, aos amigos, a quem de mim possa precisar.
“Natal é quando o Homem quiser”, diz no seu poema Ary dos Santos.
É verdade. E cada vez mais, isto é uma realidade.
Não me apetece ter luzes, não me apetece festejar; o Menino nasceu numas palhinhas, rodeado de amor dos seus Pais e cresceu feliz junto de sua Mãe. Quantas crianças por esse mundo fora têm este conforto?
O Mundo está em crise, sim. Mas não é só financeiramente. Está em crise de sentimentos, de igualdade entre os homens, da verdadeira fraternidade. O egoísmo, a arrogância, o desprezo pela verdadeira liberdade de cada um, é patente nas notícias diárias e mundiais. A falta de ética, de vergonha de atitudes, de quase comiseração por quem rouba descaradamente milhões para seu próprio proveito, deixando na miséria muito ser humano, prova que o “mundo” está podre e, sinceramente, não me apetece festejar o Natal com aquela alegria dos meus tempos de criança.
Este, para mim, já não é um dia mágico. É um dia que me lembra, ainda mais, as desigualdades existentes entre cada ser humano.
Que neste dia possamos dar um pouco mais de nós àqueles que disso necessitem.
Imagem portuguesa de Jorge Escalço Valadas
FE L I Z N A T A L