sexta-feira, outubro 24, 2008

Entre a lama e o amor


Pintura de Ana Muñoz



Despertei com vontade
de acordar o Sol
na penumbra do amanhecer.

Cansado da noite,
- a lua adormecera
no nevoeiro dos seus braços -
o sol descansou na berma
do alvorecer e na perpétua
ondulação do verde da aragem.

Através do sibilante som da folhagem
os pinheiros albergam os primeiros raios
tímidos de luz.

Velozes, partem silhuetas
por entre o verde ondulante da ramagem
onde os pássaros nos seus ninhos
já com penugem nas asas
encetam, temerosos, o caminho
que os levará, ousados, aos telhados das casas

Ao longe, um quase som de Jazz
que lembra Coltrane, por entre
ondas azuis de nuvens
ávidas de palavras púrpuras,
entre lábios de sabor a mel
desperta a cidade adormecida.

Neutro o coração que não geme
a dor do desconhecido, a comoção
do sentimento partilhado ao leme da Vida.
Resiste a cidade na estreiteza de conceitos
como definição da rima interior
- entre a lama e o amor -

Enquanto debaixo de chuva e sol
houver, feridos de silêncio, crianças chorando,
velhos dormindo no cimento ou mulheres
naufragadas na palma do sonho
do seu próprio abandono,
meu coração estará em pranto
e deste mundo desiludido.

54 comentários:

TINTA PERMANENTE disse...

Ultimamente, é com toda a certeza, das mais belas palavras em cacharolete de poesia e cor!...

Abraços!

Peter disse...

"Despertei com vontade
de acordar o Sol
na penumbra do amanhecer."

A beleza do início não perspectivava o triste final que é a crua realidade revelada com o decorrer do dia.

Hélder disse...

Gosto muito. Os sete últimos versos são lancinentes, tamanha é a verdade que enceram, e desilusão incontida...
Lindo!

Mar Arável disse...

"silêncios sofridos"

É preciso acordar as marés

Anónimo disse...

Das coisas mais lindas que li nos últimos tempo.
Bjinhos
AC

O QUATORZE disse...

Boa Noite
Parabewns pelo conteudo do espaço, está optimo.
Amizade
LUIS 14

Mas afinal o que estou eu aqui a fazer?... disse...

Sinto-me em casa com este quadro belo e frio... Lindo.
Beijinhos

Daniela Mann disse...

Fogo!!!
Até me arrepiei!
Maravilhoso.

M. disse...

Gostei muito.

cris disse...

Gosto sempre tanto de te ler, Menina.
Sei que não te deixas ficar quieta ante o que consome, dói, e, isso, distingue-te e faz (como faz!) com que venha beber aos teus recantos a água da tua força.
Beijo enorme.

Lumife disse...

Um grito de revolta bem patente nas palavras finais do teu poema.

E a situação tende a agravar-se...


Bom fim de semana.


Bjs

Jaque de Barros disse...

Parabéns!
Veio-me o êxtase quando :

"Neutro o coração que não geme
a dor do desconhecido, a comoção
do sentimento partilhado ao leme da Vida"

Victor Oliveira Mateus disse...

Gostei do poema. Obrigado pelo
link que já retribuí... Continuação de boa poesia!
Abrç.

Luis Eme disse...

enquanto houver...

continuamos a descer para o abismo...

abraço MM

Meg disse...

Poema muito bonito, mas com um final muito sofrido...

"Enquanto debaixo de chuva e sol
houver, feridos de silêncio, crianças chorando,
velhos dormindo no cimento ou mulheres
naufragadas na palma do sonho
do seu próprio abandono,
meu coração estará em pranto
e deste mundo desiludido"


Mas esta éa realidade, não há como negá-la ou escondê-la.

Um abraço

José disse...

Os corações vão definitivamente ficar em pranto...não se vislumbra que as nossas almas se entrelaçem..é um mundo sem sentimentos.

Tudo de bom

Eduardo Aleixo disse...

Gostei do poema. Em espeial das últimas duas estrofes.
Abraço.
Eduardo

Eduardo Aleixo disse...

Gostei do poema. Em espeial das últimas duas estrofes.
Abraço.
Eduardo

Eduardo Aleixo disse...

Gostei do poema. Em espeial das últimas duas estrofes.
Abraço.
Eduardo

© Piedade Araújo Sol disse...

olá

gostei do poema...tem um inicio muito belo e depois...realismo e coerencia.

obrigada pelo destaque...do meu maresias.fiquei muito feliz.

beij

Mateso disse...

"naufragados na palma do sonho..."
Tantos de nós. A verdade que rói a alma e acorda o cração.
Belo!
Bjinho

vida de vidro disse...

Belíssimo poema! Sofrido, é certo. Mas espelho da realidade. **

meus instantes e momentos disse...

parabens pelo post, parabens pelo blog. Foi muito bom vir aqui,
Maurizio

Paula Raposo disse...

Perfeitíssimo!! Um poema forte, muito forte.Adorei. Beijos.

Apenas eu disse...

O qudro é lindo...
As palavras são doces e tristes são a vida a ver-se ao espelho..~.

beijinhos

Anónimo disse...

No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vem em bandos
Com pés veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada


O meu comentário, com este verso dos Vampiros do Zeca Afonso


A.H.

Maria, a Guerreira (ex-sulista) disse...

Lindo, para não variar ;-)

E «entre a Lama e o Amor», escolho sempre o Segundo!
A Luta Continua, Sempre! ;-)

Beijos

_+*A Elite in Paris*+_ disse...

Obrigada pela visita :))

Beijo meu ♥,

A Elite

Ana disse...

Entre o amanhecer e a noite escura. Um poema que dói.
Um beijo.

Ilona Bastos disse...

Muito belo! Um abraço

heretico disse...

poema inspiradíssimo. muito belo

beijo

peciscas disse...

Com um belo som de Coltrane no fundo das palavras, acordaste mesmo o sol.

pin gente disse...

muito bonito... o meu ficou também em pranto.

um beijo
luísa

caminante disse...

Después de larga navegación, recalo de nuevo en tu puerto. Y siempre recibo mucho. Gracias.
Un fortísimo abrazo.

legivel disse...

... sem dúvida que o mundo não está na melhor das condições e por isso a desilusão é notória nos seus habitantes. Na maioria deles, corrijo, que aqueles que partido tiram das desigualdades alheias, não sendo muitos, são em número suficiente para decidir este cenário. E pelo andar da carruagem, não há melhoras.

abraço.

Samantar Mohi disse...

Olá Menina Marota

Já faz um tempo...mas voltar é um prazer, sempre imensa poesia!

Durante o meu silêncio escrevi as letras das músicas do meu primeiro album com o meu grupo de hiphop NovOrpheu e outras coisas que fui publicando não no meu blogspot, que deixei ao abandono, mas sim no meu myspace onde junto a minha música às minhas escritas...é-me mais fácil!

Tenho lá assim também um blog com alguns textos que ainda não deves ter lido...aconselho o "aqui não vou ficar"

Um abraço de quem não se esquece,
Cristiano,
Budapeste

Carlos Barros disse...

Gosto dos teus despertares... não gosto das tuas desilusões

beijo

Maresia disse...

Gostei Menina Marota..

aflores disse...

O sol também é pouco por estes dias, e não consegue apagar o desalento. Fica a esperança...o amor.

Ana Paula disse...

Um poema cheio de natureza, música e amor! Também pelos que sofrem...

Um beijinho :):)

O Profeta disse...

Muita profundidade nesta tua tela poética...


Doce beijo

Patanisca disse...

lindo,lindo,lindo,lindo,lindo!
gostei muito.

Vou levá-lo para o ler ao por-do-sol.

Beijinhos

MAR disse...

Belíssimo poema.

Beijos

Aníbal Raposo disse...

Lindo de morrer...

Nativo disse...

Bonito poema

Anónimo disse...

Beijo

Brancamar disse...

Gostei de te ler, de passar por este desenrolar de sentimentos entre a lama e o amor e de sentir a sensibilidade dos últimos versos.
Deixo-te um abraço.
Branca

absconditum mentis disse...

Quero que saibas que é com enorme prazer que te deixo estas breves linhas escritas, dôce menina_marota!!!!!

Bjs.

elvira carvalho disse...

Depois da cirurgia, estou voltando aos poucos.
Um poema a pedir uma boa reflexão, sobre o que fazemos ou deixamos fazer com este mundo em que vivemos.
Um abraço e bom Domingo

paperlife disse...

Naufraguei aqui. Propositadamente.

Além de Te encontrar com muito gosto, encontrei uma referência a uma escolha minha de sempre ou quase, Coltrane. :)

bjs, Menina.

Bandida disse...

belo poema.
e muito obrigada pelo apoio e pelo abraço!

Anónimo disse...

Com vista a dar “voz” aos novos autores, o Portal Lisboa estabeleceu uma iniciativa única, no campo da criação literária portuguesa.

Neste sentido, o Portal Lisboa vai apadrinhar duas colectâneas literárias, uma de Poesia e outra de Contos Literários, a serem editadas pela Chiado Editora.

Gostava de ver os seus textos publicados por uma editora de prestígio? Tem aqui a sua oportunidade!

Descubra mais no site: www.portallisboa.net

Maria Antónia Cabral disse...

[...]Enquanto debaixo de chuva e sol
houver, feridos de silêncio, crianças chorando,
velhos dormindo no cimento ou mulheres
naufragadas na palma do sonho
do seu próprio abandono,
meu coração estará em pranto
e deste mundo desiludido. [...]


Um poema arrasador mas de uma sensibilidade extrema, como um grito que sai do fundo do peito.
Ao começar a ler ninguém dirá o final que cai como uma bomba num jardim de flores raras.
Um belo e exemplar poema do sentimento que muitos de nós temos e sentimos no fundo da alma, mas não somos capazes de o transmitir desta forma exemplarmente poética.
Parabéns.
MAC

INFORM4TICA disse...

Gosto muito do seu Blog. Quando for possível dá uma passadinha para ver meu Curso de Informática à Distância