sábado, outubro 04, 2008

Arca de Ternura

"Este blog obedece a um princípio básico: guardar, como numa arca, textos que de uma ou de outra forma veiculem o sentimento da ternura. Mas a ternura também implica verticalidade, nobreza de carácter e sobretudo seriedade. E a manutenção destes sentimentos obriga a que olhemos o mundo com olhos abertos para as realidades, mesmo as mais cruas. E a indiferença não cabe aqui."

Palavras daqui e demonstrativas da firmeza de carácter de alguém a quem não conseguíamos ficar indiferentes.

Muitos já falaram sobre
ele e as minhas palavras serão insignificantes para demonstrar a forte admiração que tenho pelo historiador, encenador, escritor, professor e poeta, que um dia, no longínquo ano de 2001, me autografou a sua obra Diogo Cassels "uma vida em duas margens".

Mas é a sensibilidade e generosidade do “puto da beira-rio”, que nunca deixou de ser, que mais me toca, porque na sua alma de menino-grande voava o sonho e a imaginação, onde a afectividade, pela vida e pelo mundo que o rodeava, sobressaíam em cada um dos seu escritos.

E foi esse sentimento, de grande generosidade, que partilhou ao escrever e apresentar, de uma forma quase poética, o prefácio do meu livro. E esses momentos ficarão, gravados para sempre, no meu coração. Grata por eles
.


Imagem daqui


Aos putos da beira rio

O mundo tinha a nossa dimensão:
Reduzia-se às ruas conhecidas
E o próprio horizonte estava à mão
Das brincadeiras simples, divertidas.

Era o jogo do arco e do pião,
Era o brincar, também, às escondidas.
Em cada um havia um campeão
Esforçando-se, alegre, nas corridas.

No Douro, com toninhas descuidadas,
Éramos já pequenos navegantes
Embarcando no sonho dum vapor

Rumo a terras distantes, ignoradas,
Nadando nesse rio fascinante
Libertados da roupa e do pudor.

O Tempo, que não pára, foi marchando...
Os caminhos diversos que trilhámos
Lentamente nos foram afastando
Dos percursos que outrora partilhámos.

Envelhecendo, fomos caminhando
Nos projectos diversos que encetámos
E, só de longe a longe, recordando
O longínquo Passado que habitámos.

Nesse Livro da Vida que escrevemos
Não temos o direito de esquecermos
As páginas da nossa mocidade.

Porque é nelas que ainda hoje vemos
A forma solidária de vivermos
E que, afinal, nos traz tanta saudade!

Poema de
Fernando Peixoto



…porque "a indiferença não cabe aqui".

33 comentários:

Mar Arável disse...

Escreveu com afectos

belo

Brancamar disse...

Amiga,

Este poema traduz bem a ternura, a verticalidade, a grandeza e simplicidade do já saudoso amigo Fernando Peixoto. É um dos seus mais belos poemas, mas cada vez que leio um novo, acho sempre que é o mais belo, pois tudo o que escrevia tinha vida a fervilhar.
Ninguém como ele traduzia de forma tão realista, sensível e vivida o quotidiano.
Já muito fui escrevendo sobre ele ao longo do dia em todos os blogues amigos.
Resta-me agora um silêncio sentido.
A "Linguagem do silêncio" de que ele tanto gostava.
Beijinhos

comboio turbulento disse...

Excelente o poema, excelente o poeta e excelente a fotografia.Como tripeiro apaixonado e nunca infiel à minha cidade,gostei duplamente.

Mateso disse...

Emoções ternas tornadas palavras.

Anónimo disse...

[…porque "a indiferença não cabe aqui".]

É verdade. Este texto tal todo o seu blog que há muito acompanho são a prova disso.

Fernando Peixoto era um homem essencialmente de teatro que ele amava com todas as forças.

O pano fechou-se sobre ele, mas as palmas ouvir-se-ão durante muito tempo, porque ele merece-as.

A morte o levou mas vai continuar vivo no coração dos amigos que deixou

Júlio Magalhães

Amita disse...

Nunca é demais relembrar o grande poeta-escritor e a pessoa simples e generosa que sempre foi e que sempre ficará entre nós.
Deixo uma flor

A.S. disse...

É este o verdadeiro retrato do Poeta, do Homem e do Talento que o Fernando irradia ! Seja na vida, em cada um dos seus trabalhos, na poesia ou no Teatro.

Digo-o com a legitimidade de quem conviveu tão perto com o Poeta e Dramaturgo, que a cultura portuguesa perdeu um dos seus grandes talentos. E se o Fernando Peixoto não pulverizou os escaparates das livrarias, é porque não teve, nem queria ter, algus desses agentes que ganham a vida promovendo a mediocridade!
Melhor que ninguém, os seus alunos e discípulos, tenho a certeza que reconhecem no Mestre, o talento, o humanismo, a solidariedade e o amigo que foi o Fernando Peixoto!

Bem Hajas Fernando!

Isabel-F. disse...

é maravilhoso este poema ...


obrigada pela partilha e obrigada ainda pelo destaque que me dás esta semana.


beijinhos

José disse...

Mocidade..todos lembramos os tempos de brincadeira, sem responsabilidades, sem preocupações..também sinto......muitas saudades.

vida de vidro disse...

Um poema muito beço, muito terno. E uma bela homenagem a alguém cuja falta será concerteza sentida. **

Ana Paula disse...

Há perdas irreparáveis. Mas o que em nós fica de sublime, dádiva de certos seres humanos, essa é a vitória de terem existido.

Lamento.

Um beijinho

Anónimo disse...

dos meus preferidos este poema...

ainda agora partiu e ja sao mais que muitas as saudades....


Vera Barbosa

Graça Pires disse...

Poema lindo. Homenagem sentida.
Um beijo MM.

Paula Raposo disse...

Um poema de ternura, de afectos, de sensibilidade! Homenagem linda, Menina! Muitos beijos

J.N. disse...

Conheci o Dr. Fernando Peixoto ainda como presidente da Junta de Freguesia de Santa Marinha, uma das maiores de Vila Nova de Gaia cujo empenhamento na divulgação da cultuta portuguesa era enorme. sendo um dos mais entendidos na história do Vinho do Porto, cujo tese final seria exactamente incidente nessa matéria. Homem de grande caracter e profissionalismo, ganhou alguns prémios com grande mérito, mas continuou sempre uma pessoa de grande humanidade e humildade.
Dono de uma voz extraordinária, era realmente um homem do teatro ao qual se dedicou de alma e coração.
Guardo dele a imagem de um brilhante orador e comunicador e também de um coração de oiro.
Foi um rude golpe por inesperado o seu desaparecimento.
Os meus sinceros pêsames a toda a família, amigos e internautas que com ele privaram.
Cumprimentos
J.N.

Odele Souza disse...

Lindíssimo este poema.
Boa semana.

Beijinhos.

Lucinha disse...

Ola amiga aqui para fazer uma visita e também para fazer um convite. Amigogos promovem uma festa para mim lá no meu Sonhas e Carinhos de Timel e você é minha convidada para a festança. Tem doces e salgadinhos com fartura patrocinados pela Tia Dete.Muita amizade, cumplicidade e muito calor humano.Grandes alegrias, comemorando: A Liderança do Virtual Reality do CMI ; Destaque no blog Recanto Mineiro da amiga Dulcinéia ; Destaque no blog Meu Canto Meu Encanto da amiga Jussara ; Comemorando 6.000 visitas no meu amado Sonhos e Carinhos. Como vê tenho muito a comemorar graças a Deus e aos amigos.Beijos, abraços.

JP disse...

Agradeço a amabilidade dos comentários, as recordações que tive oportunidade de ler aqui e prometo voltar para me continuar a cultivar, sem fins lucrativos.

Peter disse...

"Nesse Livro da vida que escrevemos/não temos o direito de esquecermos/as págimas da nossa mocidade."

Não estou em Lisboa, por isso não tenho o seu livro à mão, foi ele que o prefaciou?

_E se eu fosse puta...Tu lias?_ disse...

Sarava!

Gosta-se ou não. Indiferença é q jamais;)


adorei!

Eduardo Aleixo disse...

Um hino lindo à vida e à infância.
Eduardo

maresia_mar disse...

olá amiga
que poema mais ternurento...
hoje é um dia especial, passa se puderes na «minha casa».
Bjhs

Maria Clarinda disse...

Queria Menina marota, palavras para quê, não as tenho e tu sabes...carinhos mil. Jinhos mil

Brancamar disse...

Olá amiga,

Gostei de te encontrar hoje no meu espaço. Já tinha passado pelo teu algumas vezes. Sabia do lançamento do teu livro e que foi prefaciado pelo Fernando Peixoto. Na altura só não estive na Fnac de Gaia porque compromissos familiares mo impediram, mas faço intenção de adquirir o livro por estes dias, logo que passe na Fnac, já ando para o fazer há um bom tempo. Quase cruzei contigo no lançamento do livro de Maria Mamede e Albino Santos, em Gondomar, estava a sair quando reparei em ti já no final, estavas na mesa com aqueles nossos amigos e não quis interromper, não deu para voltar atrás, mas haverá outras oportunidades. Também foi aí que conheci pessoalmente o Zé Gomes, a Milú, e a filha, bem como a Maria Mamede e que tive oportunidade de me apresentar e o gosto de falarmos.
Vejo por aqui que temos muitos amigos em comum, desde a Isabel Filipe até ao FJ de 100maisnemenos, Maria Clarinda, maresiamar, Odele Souza e outros.
Não nos temos cruzado mais vezes por pouco e porque nos últimos meses me entreguei muito a amigos blogosféricos com problemas oncológicos que conheci a partir de salvadorvazdasilva.blogspot.pt. Aliás o Fernando Peixoto conheceu este caso numa entrevista com Judite de Sousa, um caso que admirou, mal sabia que não tardava falaríamos dele em meados de Julho por motivos mais pessoais, quando aguardava ainda a confirmação de um diagnóstico que já previa, mas que penso queria lá no íntimo acreditar que não fosse verdade. Era a fase da ansiedade. A 26-08 recebi o seu último e-mail. Embora nos tivéssemos tornado amigos aqui pela poesia, também nos tornamos pessoalmente no meio teatral, conheci-o também muito como historiador uma vez que tenho uma filha sua aluna há dois anos, pelo que me faz duplamente falta, era um professor único, marcava profundamente os alunos e sei quanto se preocupava em prepará-los não só para o saber mas para a vida, inclusivamente preocupava-se com as suas saídas profissionais.
Estou inconsolável por todos os motivos. Tinha tanto ainda para aprender com ele e para o conhecer, tinha-me prometido na última mensagem que nos sentaríamos um dia para conversar sobre as suas lutas. Conheci apenas uma pequena parte delas. Do que conheci senti-me profundamente mais enriquecida.
Não tenho palavras suficientes para descrever esta perda inesperada.
Beijinhos para ti.
Encontrar-nos-emos por aí.
Branca

Brancamar disse...

Emendo um erro cometido no comentário anterior, quando referi o blog de um amigo que indiquei como terminando em pt e é sim http://salvadorvazdasilva.blogspot.com/
Peço desculpa.
Branca

Zé Carlos disse...

Olá menina.... obrigadão pela sua visita e comentário. Só não acredito quando dizes não estar sempre 'apaixonada'... linda assim?

Fiquei feliz por ler aqui textos do meu amigo Fernando pessoa - que Deus o tenha.

Um beijo do seu novo leitor, Zé Carlos

Gerly disse...

Menina Marota, Obrigada pela visita! Tomara que a vida traga o o "Amo-te" que te levou. Volto aqui mais vezes! Gostei muito! Beijoka!

Sophiamar disse...

Agradeço a tua visita neste momento de dor, de perda de um amigo inesquecível. Um Homem da Cultura cujo saber era tão grande quanto a amizade e a ternura que nutria pelos amigos. Homem de uma verticalidade exemplar, de uma solidariedade sem limite, de liberdade que perpassou toda a sua obra, a sua vida.

Bem hajas, amiga!

Beijinhos

Delfim peixoto disse...

Uma jóia a guardar...
bj

Anónimo disse...

Lamento muito MM, lamento muito.
O Fernando Peixoto era um político exemplar!! Sei o quanto te deve estar a custar, apesar das vossas divergências de opinião política
Jnhos
A. Simões

Alexandre disse...

Não conhecia bem Fernando Peixoto mas já me «cruzei» com ele noutros blogues... pena não ter feito parte dos lobbies que mandam na cultura em Portugal... tinha muito mais qualidade que muita gente que anda por aí a publicar...

Muitos beijinhos!!!

d'Angelo disse...

"O mundo tinha a nossa dimensão", "Éramos já pequenos navegantes": linda maneira de evocar lembranças da infância perdida no tempo mas presente em tudo quanto nos tornamos.

dj duck disse...

Para o Pai da Helena,
Obrigado....
Abraço
Paulo Pato