sexta-feira, outubro 24, 2008

Entre a lama e o amor

Pintura de Ana Muñoz


Despertei com vontade
de acordar o Sol
na penumbra do amanhecer.

Cansado da noite,
- a lua adormecera
no nevoeiro dos seus braços -
o sol descansou na berma
do alvorecer e na perpétua
ondulação do verde da aragem.

Através do sibilante som da folhagem
os pinheiros albergam os primeiros raios
tímidos de luz.

Velozes, partem silhuetas
por entre o verde ondulante da ramagem
onde os pássaros nos seus ninhos
já com penugem nas asas
encetam, temerosos, o caminho
que os levará, ousados, aos telhados das casas

Ao longe, um quase som de Jazz
que lembra Coltrane, por entre
ondas azuis de nuvens
ávidas de palavras púrpuras,
entre lábios de sabor a mel
desperta a cidade adormecida.

Neutro o coração que não geme
a dor do desconhecido, a comoção
do sentimento partilhado ao leme da Vida.
Resiste a cidade na estreiteza de conceitos
como definição da rima interior
- entre a lama e o amor -

Enquanto debaixo de chuva e sol
houver, feridos de silêncio, crianças chorando,
velhos dormindo no cimento ou mulheres
naufragadas na palma do sonho
do seu próprio abandono,
meu coração estará em pranto
e deste mundo desiludido.

terça-feira, outubro 21, 2008

Prémio Dardos

Recebi e aceitei muito carinhosamente da Mateso e da Ana  (Enconta do Mar) ficando com a ingrata tarefa de ter que escolher 15 (quinze) outros blogues, segundo as normas do...



Informações sobre o Prémio Dardos:

"Com o Prémio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras.

Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.

Quem recebe o "Prêmio Dardos" e o aceita deve seguir algumas regras:

1. - Exibir a distinta imagem;

2. - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;
3. - Escolher quinze (15) outros blogs a quem entregar o Prémio Dardos."

Seguindo as normas e não desvalorizando outros blogues que não poderei mencionar, repasso por ordem alfabética...

domingo, outubro 19, 2008

Recuso-me! Faço greve...

Imagem Net Card

Recuso-me!
É isso mesmo! A partir de hoje recuso-me a comentar blogues que tenham aquelas letrinhas pequeninas, que na maior parte estão tão incompreensíveis que, por causa disso, se perdem os textos dos comentários que escrevemos.


Para além desse inconveniente e do tempo que se demora a escrever as ditas letrinhas, estamos sujeitas ainda a… ora reparem no que fui guardando para delas fazer referência…
MijaXicaok - Tiazita34Umcus123Umbigopipilarilaokehe - fomeak78penismax31
(mas há mais, que a minha timidez natural obsta a que aqui apresente…)
Bem… estas até deixava passar, mas hoje transbordou a minha paciência ao deparar-me, para fazer um comentário, que não fiz, com estas letrinhas: Gordaa95.

Aqui, confesso, a minha tolerância terminou!

Eu sei!
Sei que, neste Verão, abusei dos gelados, de alguma comida, que bebi uma ou outra cerveja a acompanhar as apetitosas francesinhas que tanto gosto de comer, que até não fiz muito exercício físico porque passo o dia no gabinete da filhota, que deixei de ir à piscina, etc… etc…

Mas isso é pretexto para me chamarem com todas as letras… Gordaa95?

E ainda… o que significa o 95? Que eu peso 95 quilos? Grande mentira… acabei de me pesar e estou nos 51 kg! O que quer dizer que só engordei 1um quilo, desde a última vez que me pesei!

Por conseguinte meus Amigos, não tolero mais esta situação! Abaixo as letrinhas, os números e não sei que mais, que me impedem de comentar onde me apetece!

Faço greve!


Recuso-me! Não deixo que me façam perder a vontade de comentar (quem fica com imaginação depois disto tudo, para comentar o que quer que seja?) e muito menos que estejam a reparar nos meus quilitos a mais!

Quem está comigo?

 

sexta-feira, outubro 17, 2008

Pelos Trilhos do Betão

"Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa-de-forças! "
Lê-se na abertura do Eu sou louco, o blogue do António Dias Castilho.
E a irreverência deu frutos e assim nasceu o
Pelos Trilhos do Betão...

Capa do Livro

Que terá a sua apresentação oficial neste sábado, dia 18 de Outubro de 2008, pelas 21,30 horas no salão da Junta de Freguesia de Vermoim, Maia, para o qual estão todos convidados.


(clicar para ampliar a imagem)

quarta-feira, outubro 15, 2008

Despertar

A presente reposição serve para partilhar um maravilhoso presente que recebi hoje:a excelente interpretação da Zélia Santos  que me encantou pela delicadeza da sua interpretação.

Obrigada Zélia, por este momento!


Hoje acordei tarde. Não me lembro de, nos últimos tempos, isso ter acontecido. A Natureza, que sinto e avisto do terraço do meu quarto, não buliu só para que o meu sono não fosse interrompido.

O meu corpo desperta a cada madrugada que cicia ao meu ouvido sonhos esquecidos, ternuras abafadas, desejos incontidos…

E o Sol, que me despertou no calor dos seus raios, traz-me o recado que a lua deixou nos meus sonhos


Pintura de Henri Matisse


Sinto teu corpo em mim
...e...assim...

alma sem fim
ardente
em tempo que persiste
rasgo de pele
veemente
em pensamento diluído
no tempo da promessa.

Tens na palavra
o encanto da brisa
na aragem lavrada.

Sinto a quietude do mar

melodia do solfejo
nas ondas que se espraiam
em areia e espuma
de mil cores

no vermelho pôr do sol
a lua entrega um beijo
e dança com a brisa

a canção dos seus amores

segunda-feira, outubro 13, 2008

Convite

Deana Barroqueiro é autora de numerosos romances inspirados em conhecidos personagens da História.

Apresentação do livro nas palavras da autora







O Navegador da Passagem


no próximo dia 17 Outubro, pelas 19,30 no Padrão dos Descobrimentos.

"Não logrou abafar o grito que lhe subia à garganta e, ao mesmo tempo que ouvia o som rouco de angústia da sua alma, sentiu o corpo da mulher estremecer sob o seu e gemer, não de gozo, mas de dor e medo que se espelhavam nos seus olhos, agora abertos, a mirá-lo na fraca luz da candeia acesa.

Apercebeu-se de a ter magoado pela violência com que lhe tomara o corpo, na última noite, apalpando-lhe os seios e as nádegas, mordendo-lhe os mamilos e os lábios até ao sangue, para nele afogar as dolorosas recordações que não cessavam de o atormentar e retirou-se bruscamente de dentro dela, para lhe evitar o olhar. Estendeu-se de costas, a seu lado, deixando todavia a mão pousada no seu corpo que ela já não cobriu com o lençol, como fazia outrora nos primeiros tempos de casados, mesmo estando às escuras, por pejo e modéstia, virtudes que ele a pouco e pouco fora conquistando e derribando, até não haver mais barreiras para os seus olhos e as suas mãos, nem para os jogos de amor.

– Tratais-me como se fora vossa barregã e não vossa esposa... e eu já tive de mentir ao meu padre confessor! – barafustava com zanga na voz, mas que o riso desmentia, sempre que ele a abraçava em qualquer quarto sem gente, enfiando-lhe as mãos por baixo das saias e do corpinho, ou quando, de noite, lhe arrancava a camisa e se ajoelhava junto do leito, de candeia acesa na mão, a admirar-lhe o corpo de menina que mal acabara de se fazer mulher, mas cuja perfeição o enfeitiçava a ponto de lhe fazer esquecer os malogros da sua vida...."(excerto)


sexta-feira, outubro 10, 2008

"Escolhas" - Convite




Sei-me vagabundo
Poeta à solta
Esfarrapado
De olhar dentro dos outros.
Não sei ser de outra forma...
.
Sei-me perdido e só
Por entre todas as maravilhas da vida
Da que faço todos os dias
Das lágrimas que me escapam porque também sou rio

Das ondas que gritam o meu peito
Dos vendavais das feridas
Do
mel da ternura...
Da minha voz sai tudo o que sou.
.
Por isso não páro de cantar...

quinta-feira, outubro 09, 2008

Convite

Albino Santos dispensa apresentações.

Um poeta cuja sensibilidade nos transporta, através das palavras, ao sonho e imaginação.

No próximo dia 11 de Outubro, (sábado) pelas 17,15 horas, terá lugar a sessão de lançamento do livro "MADRUGADA SEM FRONTEIRAS", no Auditório da LIPOR, Baguim do Monte/Rio Tinto.

Para mais informações sobre o evento consultar a página do autor.



Capa do Livro



Sonho Azul

Viajo na liberdade do meu sonho,
sussurro quente do azul
onde me deito.

Polvos e medusas desnudam o meu sono,
levam-me submerso
através do azul liquefeito,
até ao virginal desabrochar das pérolas.

O sonho incendiado, floresce na bruma
abrindo caminho no azul que me transporta
ao teu ventre de abismo bordado de corais.

No aroma inebriante dos mares nocturnos,
a realidade sucumbe à fantasia.

Bebo a cor do mar,
adormeço na invisibilidade da vida,
e desperto no respirar de uma concha…



Poema de Albino Santos

sábado, outubro 04, 2008

Arca de Ternura

"Este blog obedece a um princípio básico: guardar, como numa arca, textos que de uma ou de outra forma veiculem o sentimento da ternura. Mas a ternura também implica verticalidade, nobreza de carácter e sobretudo seriedade. E a manutenção destes sentimentos obriga a que olhemos o mundo com olhos abertos para as realidades, mesmo as mais cruas. E a indiferença não cabe aqui."

Palavras daqui e demonstrativas da firmeza de carácter de alguém a quem não conseguíamos ficar indiferentes.

Muitos já falaram sobre
ele e as minhas palavras serão insignificantes para demonstrar a forte admiração que tenho pelo historiador, encenador, escritor, professor e poeta, que um dia, no longínquo ano de 2001, me autografou a sua obra Diogo Cassels "uma vida em duas margens".

Mas é a sensibilidade e generosidade do “puto da beira-rio”, que nunca deixou de ser, que mais me toca, porque na sua alma de menino-grande voava o sonho e a imaginação, onde a afectividade, pela vida e pelo mundo que o rodeava, sobressaíam em cada um dos seu escritos.

E foi esse sentimento, de grande generosidade, que partilhou ao escrever e apresentar, de uma forma quase poética, o prefácio do meu livro. E esses momentos ficarão, gravados para sempre, no meu coração. 


Grata por eles.
Imagem daqui



Aos putos da beira rio

O mundo tinha a nossa dimensão:
Reduzia-se às ruas conhecidas
E o próprio horizonte estava à mão
Das brincadeiras simples, divertidas.

Era o jogo do arco e do pião,
Era o brincar, também, às escondidas.
Em cada um havia um campeão
Esforçando-se, alegre, nas corridas.

No Douro, com toninhas descuidadas,
Éramos já pequenos navegantes
Embarcando no sonho dum vapor

Rumo a terras distantes, ignoradas,
Nadando nesse rio fascinante
Libertados da roupa e do pudor.

O Tempo, que não pára, foi marchando...
Os caminhos diversos que trilhámos
Lentamente nos foram afastando
Dos percursos que outrora partilhámos.

Envelhecendo, fomos caminhando
Nos projectos diversos que encetámos
E, só de longe a longe, recordando
O longínquo Passado que habitámos.

Nesse Livro da Vida que escrevemos
Não temos o direito de esquecermos
As páginas da nossa mocidade.

Porque é nelas que ainda hoje vemos
A forma solidária de vivermos
E que, afinal, nos traz tanta saudade!


Poema de
Fernando Peixoto


…porque "a indiferença não cabe aqui".

sexta-feira, outubro 03, 2008

Fernando Peixoto....



Tu não sabias...

Tu não sabias que eu sei quanto sabias
Tu exibias o que em ti desconhecias

Porém, tu vias, pressentias
na magia das horas mais amargas
o ponteiro dos segundos com que vias
rodarem no sentido das palavras...


E no silêncio das horas se estendia
um carinho sinuoso, entorpecente,
um meigo sorriso que escorria
num rio de ternura languescente.


Tu não sabias... nem eu... nenhum de nós
que a vida esconde os seus segredos
nos silêncios da nossa própria voz
e no código de amor dos nossos dedos.

Poema de Fernando Peixoto


Até Sempre, meu Querido Amigo



quinta-feira, outubro 02, 2008

O Poema que li para o meu Cão...

Sting ouvindo...


"Crepúsculo de Outono"

O crepúsculo cai, manso como uma benção.
Dir-se-á que o rio chora a prisão de seu leito...
As grandes mãos da sombra evangélicas pensam
As feridas que a vida abriu em cada peito.

O outono amarelece e despoja os lariços.
Um corvo passa e grasna, e deixa esparso no ar
O terror augural de encantos e feitiços.
As flores morrem. Toda a relva entra a murchar.

Os pinheiros porém viçam, e serão breve
Todo o verde que a vista espairecendo vejas,
Mais negros sobre a alvura unânime da neve,
Altos e espirituais como flechas de igrejas.

Um sino plange. A sua voz ritma o murmúrio
Do rio, e isso parece a voz da solidão.
E essa voz enche o vale...o horizonte purpúreo...
Consoladora como um divino perdão.

O sol fundiu a neve. A folhagem vermelha
Reponta. Apenas há, nos barrancos retortos,
Flocos, que a luz do poente extática semelha
A um rebanho infeliz de cordeirinhos mortos.

A sombra casa os sons numa grave harmonia.
E tamanha esperança e uma tão grande paz
Avultam do clarão que cinge a serrania,
Como se houvesse aurora e o mar cantando atrás.

Manuel Bandeira


Breve explicação: alguém, muito simpaticamente, perguntava-me via email, “o porquê deste poema ter sido lido ao Sting o meu cão”.
Tão simples como isto:
Gosto de ler poesia em voz alta e ele, muitas vezes, fica concentrado a escutar-me.
A imagem que partilho foi tirada, numa das suas janelas preferidas, quando de orelha arrebitada escuta o que vou dizendo mas, ao mesmo tempo, olha o exterior da casa, atento…