Novos autores ou o renovar da Primavera…
O percurso poético de Nuno Júdice é do conhecimento de todos e a instituição deste prémio foi, no meu entender, uma homenagem que lhe foi prestada por aquela Autarquia, pela sua forma de estar no mundo das letras e aguardei com imensa expectativa, o resultado da escolha do júri nomeado para o efeito.
Sinto-me verdadeiramente à vontade para me pronunciar sobre este assunto, uma vez que não concorri, nem jamais concorrerei a este ou qualquer outro tipo de concurso, limitando-me simplesmente a divulgar esta iniciativa no mundo blogosférico, nomeadamente através deste blogue.
José Jorge Letria com quase duas centenas de títulos publicados, em cerca de 50 editoras diferentes.
Nos anos 70, foi também um activo cantor de intervenção, ao lado de nomes como José Afonso, Manuel Freire, Adriano Correia de Oliveira e Francisco Fanhais, entre outros, tendo gravado entre 1968 e 1981, cerca de uma dezena de discos. Entre 1994 e 2001 foi vereador da Cultura da Câmara Municipal de Cascais, onde se destacou a coordenar ou criar projectos como os Cursos Internacionais, cinco prémios literários ou a revista Boca do Inferno. Em 1997, foi condecorado pelo Presidente da República com a Ordem da Liberdade.
Foi distinguido em 21 de Março corrente, com o Prémio de Poesia Nuno Júdice (prémio de 2 500 €), instituído pela Câmara Municipal de Aveiro para fomentar a revelação de novos valores…
Recordo com uma certa tristeza, as palavras de meu Pai:
“… tal como na política, dar lugar aos novos é, para muita gente, continuarem os velhos…”
O que seria da Primavera se as flores não se renovassem…

Imagem de Valter Jacinto
Primavera
Nesta primavera, a chuva tem caído como se fosse
Uma primavera de Londres, húmida e mole,
E não a primavera meridional, amena e doce,
Com nuvens e vento, mas sempre com luz e com sol.
Os gatos não saem de ao pé da janela, detrás
Dos vidros, vendo as gotas escorrerem por fora,
Como se suspirassem pelo fim dessa paz
doméstica, ansiosos por saírem a qualquer hora.
No entanto, as grandes nuvens estendem-se pelo céu;
Por vezes, um trovão interrompe o pensamento.
O cinzento derrama-se como um espesso véu,
Ajudado pelo tédio que empurra este vento.
Assim, de manhã, nem abro a janela:
tão escuro é o dia lá fora como cá dentro;
E só o espírito, por inércia, o tempo revela
Se alguém pergunta onde fica o centro?
Nuno Júdice
Meditação sobre Ruínas (1994)
Poesia Reunida (1967-2000)
Publicações Dom Quixote, Lisboa 2000
Ouvir o poema na voz do Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)








