sábado, agosto 12, 2006

O Mar...


Imagem de Ilidio Pires


O banco de madeira continua na cozinha, junto à janela. Nunca mais se sentou nele.
Não voltou a olhar o mar.
Fora da avó, depois da mãe, agora fazia anos que lhe pertencia.
Junto à janela, permitira-lhe zelar pelos filhos que brincavam à porta de casa enquanto fazia a renda, descascava as batatas ou o feijão, enquanto dava uns pontos na roupa usada.
Tivera a importância de um posto de vigia. Ali se sentara a fingir que não dava pelas horas, noites adentro, e as mãos sempre, sempre a trabalhar.
Ali se sentara quando os filhos eram pequenitos, para os amamentar. O António primeiro, mais tarde o Mário.

Olhou-se distraidamente no espelho.
O corpo conserva ainda uma certa frescura e ela sabe-o. Sente-o, quando um arrepio lhe percorre as pernas, os braços, os seios. Quando os apalpa por baixo do lençol, duros. Esse é o momento em que o vazio é maior, em que a solidão a oprime como mãos fortes, em volta do pescoço, a apertar.

Quando se casou ficou a viver aqui, na casa onde nasceu. Aqui mesmo, defronte do mar. É um bairro pobre, de pescadores. As casitas todas baixas, brancas, a porta a dar directamente para a rua de terra batida.
Aqui viveram os pais. Daqui partiram os dois irmãos a procurar vida melhor em terras distantes.
A casa foi a herança que lhe coube. É tudo o que lhe resta da família que foram. Herança carregada de recordações! Dos olhos da mãe inquietos, ansiosos. Dos olhos martirizados da mãe quando o mar lhe levou o companheiro, ali mesmo, à entrada da barra, quando regressava já a casa.
Tempos de miséria que quisera esquecer.

Por isso, em cada dia, em cada hora, rezara para que o seu homem largasse a faina do mar. Porquê o mar? Não tinha ele tido tantas possibilidades de arranjar trabalho em terra? Não lho suplicara ela, os olhos feitos de lágrimas, enquanto se amavam a cada reencontro?

(continua... aqui)

Excerto de um texto de Libânia Feiteira

24 comentários:

Passeando no Parque disse...

Vim deixar um beijão a vc e desejar bom fim de semana

Anónimo disse...

O anexo é dificil de abrir. Não poderás colocar de outra forma? Não consegui aceder ao blog da Libanea; é dificil a menina lolol

Morgaine disse...

Porquê o mar? Porque há pessoas que têm uma relação especial com o mar e não imaginam a vida sem ele; é o primeiro amor, de olhos azuis ou verdes consoante o temperamento. As ondas são as carícias, as tempestadades são as fúrias. É um elo tão forte que até morrer no mar será tão natural como viver nele. Gostei muito do texto.Bjos

aaron@iol.pt disse...

Lindo e comovente texto, parabens à autora e a ti Marota que nos mostraste o caminho para ele.
bfs e beijocas do
Aaron

DE PROPOSITO disse...

O mundo das probabilidades. Nada garante que em terra a vida não tivesse sido mais curta, mas é isso 'as probabilidades'. Em termos estatísticos morrem mais pessoas em acidentes de trabalho em terra, do que no mar. Tenta-se dar a volta ao texto, mas é dificil, as mentalidades, inclusive, dos trabalhadores não estão vocacionadas para a segurança.
Um beijinho para ti.
Manuel

pitanga disse...

Que texto tão denso e sentido. Pena que não pude ler o resto.
abraços pitanga

Ana Sobral disse...

O eterno sofrimento das viuvas dos perdidos no mar... a espera... o desespero. Sei o que isso é... sou neta de pescadores
Um beijinho muita paz e alegria da Aninhas

Bernardo da Maia disse...

Mais um texto de muito bom gosto...
Parabens





Abraços

Peter disse...

"Meu Deus, como não vira logo!!! Claro! Não era outra coisa!!! Ousara desprezá-lo! Voltara-lhe as costas! Enlouquecera-o!!! Estavam vingados em si, o pai! O marido!! Todos os mortos que, desde criança, vira darem à praia! Todos os que foram engolidos e nunca mais apareceram! Todas as mulheres que ficaram sozinhas! Todos as crianças que ficaram sem pão!"

Gostei deste texto. Se é para publicar, é preciso ter cuidado com as "gralhas"

MM, peço desculpa de não visitar com mais frequência o teu blog, mas agora que passei a dispor de mais tempo, passarei a fazê-lo. Afinal não é impunemente que continuas nos n/links.

Sulista disse...

o Mar....belíssimo, indispensável mas tambem traiçoeiro.
Não se pode viver com Ele nem
sem Ele!


Beijinho Saudoso Amiga ;-)

Sulista disse...

e a música sempre a condizer...sempre magnífica ;-)

safiras_lunares disse...

Lembraste de mim? :P

Joe Nunes disse...

Quase que apostava que este som é da musica de Carlos Paredes; lido ao som deste texto o mesmo fica com uma profundidade que nos reporta à realidade portuguesa das gentes do mar. Boa escolha de musica, a mostrar o cuidado com que nos ofereces os textos que escolhes para lermos. Parabéns por este momento fantástico e à autora do texto pela sua escrita.
Cpm do J. N.

amita I disse...

A nossa relação com o mar num belo texto da Libânia a quem felicito
Para ti um bjinho pela partilha

amigona disse...

Sabes que tenho um banco desses?! Beijo..

Lótus disse...

O mar enfeitiça.. é quase impossível deixar o mar, depois de lhe termos pertencido.. Belíssimo texto :) ***

Paula Raposo disse...

Belíssimo excerto! Muito , muito belo mesmo!

≈♥ Nadir ♥≈ disse...

Um texto lindo :)
Beijos e bom feriado

Maria P. disse...

Obrigada pela visita à Casa.
Por aqui o nível é elevado como sempre.

Um beijinho com cores de Maio.

della-porther disse...

menina

demoro de vir aqui...o trabalho não me permite...
mas toda vez que venho me surpreendo com imagens e textos muito interessantes.

beijos


dellla

Licínia Quitério disse...

Muito obrigada pela visita. Gostei que gostasses.
Aguardo a continuação desta história muitíssimo bem escrita.
Bom feriado. Beijinhos.
Licínia

Claudia Perotti disse...

Agradeço-te imenso o carinho dos teus rastos no "Ponto de Vista".

Estarei por aqui a acompanhar o desfecho dessa história.

Beijinhos

wind disse...

Aguardo a continuação:)
beijos

wind disse...

Obrigada pela chamada de atenção:)

O resto do conto é muito bom, retrata a vida das mulheres dos homens do mar e o que sentem.
Excelente escolha!:)
beijos