sábado, abril 29, 2006

Hino à Terra

O melro saltita contente no chão do terraço…recordo a página por onde passei, o poema que li… fui buscá-lo… aqui
… e, recordo as palavras do meu Avô: para onde “levamos” este Planeta?
 

Imagem Google

Onde está o cheiro da terra
esse odor, essa terra
que falta às minhas narinas
dilatadas como as de um perdigueiro
sem perdiz, sem bosque
sem vida para viver
sem vida para caçar
sem vida por matar?

Onde param os carvalhos
as oliveiras e os eucaliptos perfumados?
Onde está o sabor verde da paisagem,
o mugir triste das nossas vacas manchadas
como zebras de um hemisfério trocado,
o cantar do primeiro galo acordado pela aurora
o ladrar ameaçador dos cães soltos na serra
protegendo o rebanho no pasto espalhado
pelas montanhas, por essas escadarias
de comer e de passear, de ir e voltar?

Quando foi quer perdemos isto, meu Deus
meus amigos, quando?
Onde pairava o nosso olhar distraído
quando nos roubaram os rios cristalinos
e no seu lugar puseram correntes de lava
lava sujo como lodo,
lodo imundo como sangue?

Para onde meus caros, levaram
os nossos porcos, de sujidade deliciosos?
E de onde vêm afinal estes leões de metal
de rugido côncavo e gutural
de bafo negro, porco e quente?

Raios! Quando foi afinal que trocamos
os nossos campos de trigo à desfolhada,
os vinhos prontos a ser podados,
o cheiro da uva sob pés esmagada,
por perfumes de ervas plastificadas
por montanhas de cimento acimentadas
cinzento, frio, frio e pardo,
por corpos vazios de rostos uniformes
por palavras despejadas, por relações forçadas?

Para onde, por favor, onde
puseram a frescura verdejante que nos fazia sonhar
em que víamos palácios magnânimos nas colinas
e no horizonte um amanhã por desenhar?
Ajudem-me, ajudem-nos, pela vossa saúde, a encontrar
o mundo perdido que por aí anda, perdido
e nós perdidos nas ruelas, a sangrar...

Vamos juntar-nos irmãos, camaradas
e iniciar a derradeira jornada
juntem-se polícias, pedintes, estudantes
pedreiros, médicos, vendedores ambulantes.
Erga-se a criança no colo, e o avô nos ombros
e partamos
como nos tempos antigos
rumando para um mundo novo
o nosso velho mundo de lama
de relva, de chuva
de éguas parindo em desespero
de coelhos fornicando a voar
de touros morrendo moribundos
de rouxinóis cantando na rama
de cucos desafiando pela tarde
de flores no caminho que pisamos
de terra fresca sob os pés descalços,
pela chuva inclemente, pela humidade de prata,
pelas doenças incuráveis, pela próxima desgraça,
pelas capelas semeadas no meio do monte
pelas fontes escondidas na clareira secreta,
para recuperar o que já foi e queremos de novo
para ver jornaleiras cantando de cântaro à cabeça
sob o sol resplandescente do meio dia
para ouvir peixeiras anunciada em ribombos
o peixe ordinário da sua vida
para encontrar na esquina os comerciantes
parlamentando sobre o tempo e a vida
para sentir de novo irmãos, família, humanidade
o mundo nesse vestido de verde e castanho
mais brilhantes que ouro e prata,
para viver neste mundo que pode ser nosso
para abraçar de novo a terra inteira.


(Poema do Kordny)

segunda-feira, abril 24, 2006

Ninguém merece perder o Sorriso...

Imagem de Geoffroy Demarquet

Durante anos vítimas e agressores conviveram numa cumplicidade aceite pela própria Sociedade. Quem ousasse manifestar o seu repúdio era vista com maus olhos e de vítima, passava a acusada, por aqueles que querendo encobrir o agressor acabavam por se tornar cúmplices também…
Presentemente a tomada de consciência para a violência doméstica é vista com outros olhos, levando a vítima a defender-se, mesmo que a muito custo…
- Ninguém Merece Perder o Sorriso - é um trabalho de uma equipa e pode ser visto
aqui

Neste desafio (que desde já agradeço) da Isabel Filipe, quero recordar também a violência sobre os animais. Esses, não conseguem defender-se sozinhos! E cabe a todos nós, impedir também essa violência.
Aproxima-se o verão e as férias. E também, o número gritante de animais abandonados e maltratados…
A Xana  sobreviveu...

É contra ESTA violência também, que ergo a minha voz. Juntemo-nos a todos aqueles que lutam diariamente por Amor àqueles que são, os nossos Melhores Amigos…Vai aqui e aqui (dois entre muitos)...adere e divulga...Passo o meu testemunho a...
Elise
Maresia
Wakewinha
Diz NÃO a qualquer tipo de violência…

Um abraço a todos...

sábado, abril 22, 2006

Regresso...

A Arte de Isabel Filipe


Sem mais nem menos
surgiu o passado,
corpo intranquilo
feito de sons semelhantes
aos rostos que amei,
universo donde me excluí,
mar desprovido de cais
na obliquidade dos contrastes.

Esta noite voltei à minha infância:
menina rosada de sonhos nos bolsos,
bailarina de corda na caixinha de som.

À infância regressa-se solitariamente,
subindo um rio sem margens,
até ao lugar em que a nascente
se confunde com o tempo
e o tempo se transforma em espanto.

Procuro, teimosamente,
o rasto da brisa
que me invade o corpo
e apenas sei que o sonho
é um risco inquietante,
quando a solidão tem rosto
e se conhece a posição das estrelas
no âmago das palavras.

Reinicio a infância
no esboço do poema
e circunscrevo o litoral
fragmentado do que sou.

Quem foi que descodificou
o céu no meu olhar
e me deixou na alma
um deus imaginado?

Quando o espaço do sonho é circular
como o tempo das cerejas,
ou da migração dos pássaros
que fendem o infinito,
inadiado é o rito da poesia.

Se eu fosse uma gaivota, dançaria
na proa dos veleiros
até à hipnose
de abraçar a maresia.


Poema de Graça Pires

quarta-feira, abril 19, 2006

Quem leva o bolo?...


Porque hoje é um dia especial, venham comigo festejar o aniversário da

TITAS


Cantemos TODOS...




Porque de NÓS, recebe TODA a ...






e, ainda os nossos votos de ...



segunda-feira, abril 17, 2006

Abril de Abril...

Trabalho de João Carreiro



Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.

Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.

Era um Abril na praça Abril de massas
era um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.

Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril em acto
em mil novecentos e setenta e quatro.

Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.

Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas.



Poema de Manuel Alegre

sexta-feira, abril 14, 2006

quarta-feira, abril 12, 2006

Conversa de mulheres...

mas que os homens podem ouvir...


Imagem de Al Buell


Devo ter feito um ar de amuo, quando entrei no café e vi a “minha mesa” ocupada, porque o empregado sorriu, com aquele ar de matreiro, a que já estou habituada.

- Tardou, menina. A sua mesa já foi ocupada.

Acenei com a cabeça e dirigi-me ao quiosque.

Elas saem já – diz-me num tom um pouco carinhoso a menina do balcão, enquanto eu escolhia os jornais.

Não faz mal, vou para a outra do canto – respondi-lhe num sorriso que ela bem interpretou.

Já tínhamos conversado várias vezes, sobre a maravilha que era estar num local daqueles, gozando uma paisagem magnífica, uma música ambiente que convidava à leitura e acima de tudo, aquilo que mais prezava, a quietude do local.

Lancei um olhar melancólico para o meu lugar habitual. Cinco mulheres conversavam entre si. Rondariam entre os trinta e quarenta anos (mas quem adivinha a idade de uma mulher?) Sorridentes, olhavam com interesse para a revista que uma delas tinha nas mãos. Concentrei-me na leitura, até que a voz de uma delas, me fez levantar a cabeça.

– Há coisas que uma mulher não deve fazer a um homem – a sua voz era clara, num tom talvez um pouco irritado.

- Mas porquê? Não é teu marido?

- Que importa isso, tem que haver respeito, se eu me atrevesse a fazer o que diz aí na revista, ele ia logo dizer que eu tinha aprendido com outro…

A discussão acesa que se gerou, acabou por despertar o meu interesse. Discretamente, olhei-as e percebi a irritação no rosto da mulher que falava. Tinha levantado o tom, enquanto as outras riam e falavam entre si, frases que eu ia apanhando…

- Desculpa lá, no amor não há esse preconceito. Isso já não se usa! És ou não mulher dele? Há quantos anos estás casada? Então… Olha, eu e o João, não temos vergonha de nada…Temos cada aventura… nem te conto…

E continuaram neste tema, durante algum tempo.

Não sei a que conclusões chegaram, porque o meu tempo tinha-se esgotado e eu acabei por sair, deixando-as numa conversa acesa, quebrando o silêncio habitual do local.

Esqueci o episódio, até ao momento em que entro na Internet e por coincidência, leio no
Blog Cogitando, um tema deveras curioso "Boas na Cama!".

Escusado será dizer que o fui ler!

E o meu primeiro pensamento foi: porque será que o título não é “Bons na Cama”?

E recordei a exaltação da frase daquela mulher de quase quarenta anos com receio do marido, se pusesse em prática aquilo que vinha na revista (não imagino o que fosse…)

O receio do desconhecido, de mostrar curiosidade em descobrir coisas novas, em tomar iniciativas, em solicitar ajuda em pormenores, na maioria dos casos faz com que uma relação entre numa rotina, bem prejudicial para o casal.

E ocorre-me um pensamento: quantos homens ouvindo a queixa da sua companheira, de que não iam à piscina, porque não tinham ido fazer a depilação por falta de tempo, se ofereceram para ajudar a mulher nessa "tarefa"?

Saberão eles que essa atitude poderá gerar uma forte sensualidade entre eles?

"Boas na Cama"… é uma frase que me irrita! Como se a mulher fosse um robot manipulável! O êxtase da mulher, é o conjugar de todos os sentires adquiridos, de todos os factores que fazem explodir em si, a sensualidade e o desejo de uma fêmea. Não por padrões esotéricos, mas por desejos que finalmente se libertam e explodem, em toda a sua plenitude.

(Memórias minhas...)

segunda-feira, abril 10, 2006

Tutti Frutti...


Deliciosamente colorida…





No quintal da minha mãe,
há laranjas muito azuis que sabem assobiar.
No quintal da minha irmã,
há morangos bem
verdinhos que gostam de patinar.
No quintal da minha avó,
há maçãs
brancas e roxas que fazem sapateado.
No quintal da outra avó,
há ameixas
cor-de-rosa que adoram cantar o fado.
No quintal da minha tia,
há bananas
vermelhinhas que solfejam em francês.
No quintal da minha prima,
há uvas
cor-de-laranja que só falam em inglês.
No meu quintal, não há nada.
Só há limões
amarelos para fazer limonada.

(Poema da Pomme)

sexta-feira, abril 07, 2006

Para a construção da cidade necessária


Imagem de autor desconhecido

tu
que acreditas
que a bruma
vai rasgar-se em dia aberto
tu
que acreditas
que o vento
vai quebrar-se em mar de calma

porque te ficas sentado
à janela da quimera
porque não vens para a rua
provocar a primavera

vem
vem desenhar o futuro
na morte deste presente
vem
vem mostrar a madrugada
e vem dá-la a toda a gente

tu
que adivinhas
que as nuvens
vão desfazer-se em azul
tu
que adivinhas
que a noite
vai resolver-se em luar

porque te deixas dormir
na cama da tradição
porque não fazes do sonho
o grito duma canção

vem
vem transformar o amor
até hoje inexistente
vem
vem construir a cidade
e vem dá-la a toda a gente.


(Poema de Vieira da Silva)

quarta-feira, abril 05, 2006

Mutação...

Aguarela da Carla Cristiana Carvalho



Tocou ao de leve no vestido amarelo de mousseline. Sempre gostara do toque daquele tecido…

Deixou-se cair no tapete da sala, enquanto olhava ternamente o rosto algo sério, que olhava em frente.

Onde já teria ela visto aquele rosto? De quem era aquele corpo perfeito?

Tem um olhar de admiração quase terno… A figura mantém-se ali estática, mas percebe-se a ondulação do corpo… ela desliza no chão… donde conhece este corpo, pensa… Olha para dentro de si…

Espera… eu (re) conheço-te…Tu… és…Eu…

Eu… quando era perfeita… quando olhares me cobiçavam…quando o mundo girava à minha volta…

Mas, se tu és Eu… quem sou Eu, afinal?

Que sopro passou por mim… não quero acordar… quero ter-te sempre aqui…

Não te vás embora, por favor…

E ela ficou ali…sabendo dos olhares esquivos que já não eram de admiração, nem de desejo… aqueles olhares de indiferença… mas ela continuava na mesma… dentro dela… era a mesma… sempre seria!

- Este texto foi escrito, em homenagem a todas as mulheres, que sofreram a mudança dos tempos. Inspirado no quadro da Carla Cristiana, é um breve olhar sobre a mutação da Mulher. E é uma carinhosa homenagem à minha querida Amiga Maria Helena… ver-te-ei sempre com os mesmos olhos! A doença não derrubará essa beleza enorme que tens dentro de ti!

(Memórias minhas...)

segunda-feira, abril 03, 2006

Saudemos a Primavera...

A ternura de um nascimento...aqui

Notícia de última hora: Já somos 3...
 Fotografia da Annie Hall

(Algumas proposições com pássaros e árvores que
O Poeta remata com uma referência ao coração)


Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o Outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem com a poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

"Árvores que dão pássaros "
Poema de Ruy Belo

domingo, abril 02, 2006

Por Ti...


Imagem daqui

As mãos
são a paisagem do coração.
Elas se separam às vezes
como desfiladeiros
para que forças indescritíveis rolem.

A mesma mão que o homem
apenas abre quando cheia de fadiga,
agora ele percebe:
por causa dele somente,
outros podem caminhar em paz...

Mãos são como paisagem.
Quando se abrem,
a dor de suas mágoas
corre livre como riacho.
Porém, sem sentimento de dor...
sem grandeza de dor...
Apenas para sua própria
maravilha de grandeza
Ele não conhece a forma
de nomear a mesma.

Andrzej Jawien
pseudónimo literário de João Paulo II
(1960)


Por Ti...