sexta-feira, dezembro 30, 2005

Elogio ao Amor...


Imagem daqui

Em final de um ano em que uma vez mais o Mundo girou à volta da falta de amor, de guerras, de fome, de violações, de ganância, de morte e acima de tudo a falta de tolerância e respeito que se tem pela Vida Humana, em final de ano, não vos falarei das desgraças e da morte que assolam o mundo, porque outros o farão melhor que eu.
Simplesmente, deixo-vos estas palavras, de tolerância humana… porque o Amor começa em nós e, naquilo que sabemos oferecer aos outros...

O Amor puro…
Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre.
Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não.

Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

(Texto de Miguel Esteves Cardoso)


FELIZ ANO NOVO

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Se tu me esqueces...(a todos os apaixonados...)


Quero que saibas
uma coisa.

Tu sabes como é:
se contemplo
a lua de cristal, os ramos rubros
do outono lento da minha janela,
se toco
ao pé do lume
a impalpável cinza
ou o corpo enrugado da lenha,
tudo a ti me conduz,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
em direcção às tuas ilhas que me esperam.

Ora bem,
se a pouco e pouco deixas de amar-me,
deixarei de amar-te a pouco e pouco.

Se de repente me esqueceres,
não me procures,
que já te haverei esquecido.

Se consideras longo e louco
o vento de bandeiras
que percorre a minha vida
e decidires
deixar-me à margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
nessa hora,
levantarei os braços
e as minhas raízes irão
procurar outra terra.

Mas se em cada dia,
em cada hora,
sentes que a mim estás destinada
com doçura implacável.
Se em cada dia em teus lábios
nasce uma flor que me procura,
ai, meu amor, ai, minha,
todo esse fogo em mim se renova,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor do teu amor se nutre, amada,
e enquanto viveres continuará nos teus braços
sem abandonar os meus.


(Poema de Pablo Neruda in "Os versos do Capitão")

terça-feira, dezembro 27, 2005

Porque...

Pintura de Vanessa Lima


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.



[Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen]

segunda-feira, dezembro 26, 2005

O espelho da alma...

[René Magritte]

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...


(Alberto Caeiro, "O Guardador de Rebanhos")



Num agradecimento sensibilizado a todos os que se dignam honrar-me com a vossa presença, deixo o meu carinhoso abraço e a convicção sincera de que sem vós, este Blog não tinha razão de existir…

...continuação de Festas Felizes…

domingo, dezembro 25, 2005

Amanheceu Natal...

Há um ano escrevia aqui assim..

Mais um Natal que passou. A azáfama terminou: as prendas, as decorações, os doces, enfim, tudo aquilo que tradicionalmente, em todas as casas acontece!

Mas não fechemos a janela ao Natal...


Porque Natal, deverá ser todos os dias, a começar com nossa família... no nosso emprego, com os nossos colegas, com os nossos vizinhos... a amizade, o respeito e a solidariedade, não deverão ter um só dia, mas sim todos os dias da nossa vida.


Olharmos para o mundo ao nosso redor e constatarmos que a beleza das luzes, o espírito que nos envolve nestes dias, não poderá, nem deverá morrer aqui!


Se todos os dias dermos um pouquinho do Natal que temos dentro de nós, a Vida será também, um pouco mais bela.
Que a janela nunca se feche... para que todos os dias sejam Natal!



É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?


David Mourão-Ferreira 
" Natal à Beira Rio" in Obra Poética

sábado, dezembro 24, 2005

Ladaínha dos Póstumos Natais


Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito


(Poema de David Mourão-Ferreira)

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Natal...




Natal és tu
Natal sou eu
Natal somos nós
E eles, e eles…
Natal é sempre que dás a mão
Natal é perdão
É Amor, alegria, sofrimento e dor...
Natal é sempre que ajudas alguém
aquele com um andar oscilante,
com uma lágrima constante,
por um caminho diferente…
Natal foi ontem
Natal é hoje
E, será amanhã…



Para Todos Feliz Natal

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Memórias minhas...

Pintura de Jack Vettriano 

Há muito tempo que não dançava.
Ou seja, há muito tempo que não ia a uma festa.
Aquela sensação de escolher o vestido adequado.
Prender o cabelo (que saudade tenho de me ver de cabelo apanhado!)
De sentir as mãos masculinas pressionando-me as costas e... dançar.
Dançar é um dos movimentos maravilhosos que existe.
Dançar e fazer amor. Há movimentos que se lhes comparem?
Eu acho que não.
Não aquelas danças modernas aos pulos, distantes dois metros um do outro.
Não.
Aquela dança que nos faz rodopiar, enlaçadas em braços fortes que nos seguram firmes, mas suavemente.
Esta noite senti o movimento do meu corpo como não sentia há muito.
Nunca se esquece o movimento suave da dança.
E eu não esqueci.
Senti a leveza dos pés voando ao som da música.
Senti a suavidade do vestido valsando a cada movimento do meu corpo.
Senti a música em todos os poros do meu corpo, acariciando-me, trazendo ao meu espírito a sensação da minha volúpia e, naquele momento, cresceu em mim o orgulho de ser mulher.


Porque nós somos:

Mulheres...


Nós somos…


mar
céu
terra


Nós somos…


a mão que dá abrigo,
coração
ilusão.


Nós somos…


pronúncia
de amor,
paixão
mas, também...
ambição!


Nós somos…


a espada
o leite
o corpo


o verde dos prados
onde passeamos
nossos sonhos
nossas vidas
nossos amores...



Nós somos…


pássaros

surgindo em voo rasante
entre montes e vales

sobreviventes...

na verdade,
na mentira
na traição
no despique,
de quem não tem
ilusão.


Nós somos…


Mulheres
Arte
Palavras


Musas de inspiração


Esta noite fui dançar... e... sonhar!

domingo, dezembro 11, 2005

"Gotas de Luz"


Percorri o caminho serenamente. Há muito que assim não me sentia.
Sabia que para lá do arvoredo, nada existia. Nada, a não ser eu própria. E os meus sonhos. Há dias, alguém me disse:
“…Mas que esperas tu? Um dia os nossos sonhos findam, e não nos resta mais nada, a não ser o caminho da espera… do fim.”
Recuso-me a aceitar que a minha vida e os meus sonhos terminaram, só porque a minha condição de Mulher se cumpriu.
Sorrio para mim própria, recordando feliz, a tarde de ontem. Revejo os sorrisos abertos, as palavras quentes, a comoção…
A voz do cantor, ainda soa nos meus ouvidos, enquanto o som da viola enche o meu pensamento.
A força dos poemas lidos em voz clara, mas comovida, falam-me de esperança, de sonhos, de saudade…
E recordo, o início de um poema que li numa página aberta ao acaso:
*“É longo o meu caminho
Uma poesia incompleta
E nem sempre sigo
A mesma estrada
Esta viagem que faço
Imaginada
Se às vezes me alegra,
Outras me inquieta…”
E alegro-me porque no meu caminho, cruzaram-se pessoas que mesmo preenchendo-o de um modo virtual, já fazem parte de um mundo que, para mim é importante. A leitura da sua escrita, das suas escolhas, é uma parte fundamental dos meus momentos de solidão.
Revejo como num filme, os momentos mais marcantes da efeméride de ontem. E a alegria que senti ao conhecer pessoas, que deixaram de ser palavras, para terem um nome, um olhar sorridente…
A Manuela Vaz do
Passo a Passo foi a primeira a dar-se a conhecer. Lindo sorriso rasgado, começou por se desculpar … (a malandra não posta nada desde Junho e as “ Teias que as águas tecem” já têem mesmo teias…) mas eu desculpo-a, pelas belas fotografias que tem.
A
Pink, o Luis Cunha , o António do “Eu sou louco!” (será?) estiveram também presentes.
Está de parabéns o
Frog, pelo lançamento do seu Livro de Poemas “Gotas de Luz”, bem como a autora da sua belíssima capa a Raquel Vasconcelos e nós todos que assistimos a um momento lindo de Poesia, que não iremos decerto esquecer.

Sonhadora, percorri o resto do caminho, porque vale a pena ter momentos como este…
*excerto do poema “É longo o meu caminho” in pág. 24, de Gotas de Luz, de Albino Santos Oliveira (Frog)

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Os cinco sentidos...


São belas – bem o sei, essas estrelas,
Mil cores – divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho, amor, olhos para elas,
Em toda a natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti – a ti!

Divina – ai! sim, será a voz que afina
Saudosa – na ramagem densa, umbrosa.
Será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti – a ti!

Respira – n' aura que entre as flores gira,
Celeste – incenso de perfume agreste.
Sei... não sinto, minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti – de ti!

Formosos – são os pomos saborosos,
É um mimo – de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede... sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão... mas é de beijos,
É só de ti – de ti!

Macia – deve a relva luzidia
Do leito – ser por certo em que me deito.
Mas quem, ao pé de d, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti – em ti!

A ti! ai, a ti só os meus sentidos,
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E quando venha a morte,
Será morrer por ti.


(Poema de Almeida Garrett)

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Eu levo o bolo...




Porque hoje é um dia especial, venham comigo festejar o aniversário do
Quim

E cantarmos juntos…


Estes Parabéns são extensivos à Carmem L Vilanova
pelo seu Aniversário…

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Silêncio...





Silêncio...
Do silêncio faço um grito
E o corpo todo me dói!
Deixai-me chorar um pouco!
De sombra a sombra
Há um Céu...tão recolhido...
De sombra a sombra
Já lhe perdi o sentido...
Ao Céu!
Aqui me falta a Luz!
Aqui me falta uma estrela!
Chora-se mais
Quando se vive atrás dela.
E eu...
A quem o Céu esqueceu
Sou a que o mundo perdeu.
Só choro agora...
Que, quem morre, já não chora!

Solidão

Que nem mesmo essa é inteira...
Há sempre uma companheira
Uma profunda amargura!
Ai solidão!
Quem fora escorpião!
Ai solidão...
E se mordera a cabeça!
Adeus...
Já fui para além da vida!
Do que já fui tenho sede!
Sou sombra triste
Encostada a uma parede!
Adeus...
Vida, que tanto duras!
Vem, morte que tanto tardas!
Ai...como dói
A solidão quase loucura!

( "O grito" Poema de Amália Rodrigues)

domingo, dezembro 04, 2005

Adivinhem o que é...

A surpresa que a Sulista me ofereceu no seu Blog devolveu-me o sorriso e a boa disposição.
Deixo-vos aqui uma forma diferente de fazer arte com as letras, bem expressa em todas as outras que encontrarão
aqui



Obrigada, Sulista

Porque me apetece gritar...



Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.


(Jorge de Sena in "No País dos Sacanas"-1973)




Arte: Salvador Dali