Óleo de Victoria Sypniak
Sinto a porta abrir-se devagar.
A música toca baixinho, como sempre. Jamais prescindi da música na minha vida.
Passos dirigem-se à janela. Correm os reposteiros deixando a claridade invadir o aposento.
- Tornaste-te a deitar tarde. És sempre a mesma…Sorrio. Serei sempre igual a mim própria.
Espreguiço-me calmamente. O sol ilumina-nos com aquela claridade de uma manhã radiosa de Primavera.
Sinto as mãos no meu cabelo, devagarinho, acariciando-me.
Fecho os olhos… Deixo o sol bater-me no rosto e recordo outras manhãs como esta.
As mãos continuam a acarinhar-me…
Sempre gostei destes carinhos. Transbordo de felicidade nestes momentos.
Recordo, como num filme, toda a minha vida. Sempre fui optimista. Sempre soube reter um pouco de alegria mesmo nos maus momentos.
As mãos ajudam-me a levantar e, naquele momento, sinto o abraço carinhoso.
Uma alegria sem fim percorre o meu corpo. Um sentimento calmo, mas intenso, invade-me.
Sou eu novamente. Na plenitude da minha juventude, sentindo aquele abraço.
Mil imagens passam velozes pela minha mente. Sei que sou feliz porque amei tudo na minha vida, intensamente.
Não me importo que tenha envelhecido. Não importam as rugas que sulcam o meu rosto. Não importa que meus olhos mal possam ver.
Porque consigo ver para além daquilo que a visão nos dá. Vejo o amor que dei e recebi.
Vejo toda uma vida de emoções, contradições, felicidade e infelicidade.
Mas, acima de tudo, vejo as pessoas que me rodeiam e, sinto neste abraço, todo o amor que espalhei.
- Anda, preguiçosa! Passaste a noite a escrever… Nunca hei-de perceber se o que escreves é verdade ou ficção.Solto uma gargalhada, feliz.
O sol continua a brilhar. Recordo todas aquelas pessoas que passaram por mim e me deixaram algo delas.
Sou a vivência de todas. Com todas sofri. A todas amei. Sinto na minha alma todas as suas dores, incorporei os seus ideais, as suas vivências e aprendi com elas a viver melhor.
Sou o resultado de tudo e de todas.
Vivi a solidão dos que me rodearam, as dores dos que me amaram, enxuguei as lágrimas de quem chorava, e sobrevivi.
Tenho oitenta e cinco anos, cabelos brancos de neve, rios de rugas no meu rosto, mas um coração que ainda bate por todos.
- Dá-me a mão, Avó… vamos ver o mar…
(Dedicado à minha Avó…)