domingo, junho 26, 2005

Paixão antiga...




Quem de nós, não guarda uma paixão antiga no coração? Quem de nós, não guarda uma carta de amor amarelecida pelo tempo, lembrando paixões ardentes da nossa juventude?

Aquela paixão que um dia terminou, mas ficou guardada nos recônditos da memória, na esperança que um dia a lembremos?

Olhar os teus olhos, há tanto tempo na penumbra dos meus sonhos, foi abrir a porta de memórias obscuras no meu pensamento.

Vem muito longe a luz de madrugadas em que nos olhámos plenos de amor…e o adeus onde correram lágrimas, que decerto serenaram as tormentas do nosso coração…

“… Tinha que ser assim, assim aconteceu, mas consola-me a ideia, conhecendo-te bastante bem já que és mulher para não guardares ressentimentos graves, sobretudo se compreenderes que todo o Ser Humano é bom, por Natureza, apenas não descobre em si próprio a bondade, a compreensão, o amor que tem para dar…”

Dizias-me na carta de despedida… em momentos que só nós sabíamos, não podermos realizar.

Hoje, olhando para trás, reconheço, que fostes uma das coisas mais bonitas que me aconteceu. O amor de um jovem, pronto a entregar-se a uma paixão que o avassalava, mas que eu não podia aceitar.


Guardo a tua carta de despedida. 

Assim, como guardo o reflexo do teu olhar no meu coração…”… dei um passo em frente na evolução terrena, embora me custe deveras neste momento, ter de viver sem ti; mas tu também deste um passo em frente: nem tudo foi mau, houve muita coisa boa, não foi por acaso que nos encontramos, assim como não será por acaso se nos encontrássemos um dia mais tarde. Então, nesse dia, compreenderias quanto eu (e outras pessoas que te desiludiram por ora) éramos bons no fundo; apenas não o descobrimos ainda…”

Não foi por acaso, que nos encontrámos. Estava escrito nas estrelas…e no poema que um dia deixaste, numa carta de despedida:

"Se eu tivesse uma vara de condão
Em ti, flor querida, a perfeição
Atingiria, as raias da magia:
A inteligência de sábio te daria,
A bondade de anjo ou do asceta,
A graça do orvalho numa pétala,
A beleza da rosa perfumada,
Sem espinhos na haste delicada…
Se o destino estivesse em minhas mãos
Quanto mais te daria (oh, minha ilusão!)
Assim, pobre de mim, apenas peço a Deus,
Que te ilumine e guie lá dos Céus…”


A ti… olhando os teus olhos… toda a ternura do meu coração!


(memórias de mim...)

segunda-feira, junho 20, 2005

Regaços...


Tenho regaços de mim,
que em ramos crescentes
te entrego dentro da minha mente.

Tenho regaços de mim
em sombras profundas,
de dor... mas também de amor,
nascendo...crescendo,
flutuando em abismos,
renascendo, em sentimentos
de ilusões diárias,
que permanecem em mim
como raízes fundas na terra.

Tenho regaços de mim
em que me dou menina,
mulher em teus braços,
saciando a minha sede
em embaraços de te não ter,
onde a loucura do leite
da terra, escorre dentro
do meu corpo, ávido do teu.

Tenho regaços de mim
duas vezes fecundada
mil vezes mal amada
onde o sonho e a ilusão,
permanecem como ventos,
de verão…
Imagem daqui

quarta-feira, junho 15, 2005

Bom dia...


E os meus olhos rasgarão a noite;
E a chuva que vier ferir-se nas vidraças
compreenderá, então, a sua inutilidade;

E todos os sinos que alimentavam insónias
hão-de repetir as horas mortas
só para os ouvidos da torre;

E os outros ruídos abafar-se-ão no manto negro da noite;

E a mão alva que me apontava as noites
e ficou debruçada no postigo
amortalhada pela neve
reviverá de novo;

E os meus braços se erguerão transfigurados
para o abraço virgem dos teus braços
que andava perdido, sem dar fé deste meu reino;

E todas as luzes que tresnoitarem os homens
apagar-se-ão;

e o silêncio virá cheio de promessas
que não se cansaram na viagem;

E todos os povos de Babel
com as riquezas que há no mundo
virão festejar em minha honra;

E todos os caminhos se abrirão
para os homens que seguirem de mãos dadas:

O sangue derramado de Cristo
Terá finalmente significação
e da inútil cruz do martírio se erguerá o pendão da vitória;

E assim terão começo
os sonhados dias dos meus dias!


(Fernando Namora in Transfiguração)
Imagem: Pintura de Marc Chagall

segunda-feira, junho 13, 2005

O sal da língua... Portugal ficou mais pobre...


Eugénio de Andrade

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

Poema de Eugénio de Andrade



Desenho de Álvaro Cunhal




Álvaro Cunhal

"Choram os campos de trigo
E as papoilas vermelhas."


Este foi um verso que nunca mais esqueci, do livro "Até Amanhã, Camaradas", que li em 1977 e que guardo com todo o carinho.
Foi um Homem que ao longo dos anos, aprendi a respeitar, pela coerência e fortes convicções, bem como, pela forma digna de estar em política.

Vasco Gonçalves

Portugal perdeu neste mês de Junho, três referências verdadeiramente dignas. A todos eles, presto a minha humilde homenagem.
Até Amanhã...

domingo, junho 12, 2005

Ao entardecer...


... esperei por ti.
Da janela do meu quarto,
saudei-te,
chegaste,
beijei-te
e,
louca de amor,
amei-te.
Envolveste-me na teia do teu corpo,
sôfrego,
quente..
rebolámos entre suor,
risos e mil desejos de
amor.
Finalmente,
da janela do meu quarto,
digo-te adeus.

O sonho acabou… nada aconteceu…

sexta-feira, junho 10, 2005

Motivo

Imagem daqui

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
Sou poeta.
Irmão das coisas fugidias
Não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

(Cecília Meireles in Motivo)

Hoje... sinto a falta de uma palavra amiga, sinto falta de conversar, sinto falta de um amigo...

...os dias são todos iguais...

sexta-feira, junho 03, 2005

Hoje...

Pintura de Tori Richards


Acordei com vontade de fazer amor. 
Não comeces a divagar já... não, não é aquela vontade louca de sexo, de fazer amor desenfreado, de ir à lua e voltar...
Não...
É sentir o carinho da tua mão percorrendo o meu cabelo, a maciez dos teus lábios, carinhosamente na minha pele. O teu cheiro a inflamar o meu sentir.
Olhar os teus olhos, percorrer-me neles, perder-me no teu amor.
Hoje acordei com vontade de um afago, de sentir a tua pele de encontro à minha...
Olhei em meu redor...a cama vazia, fria...imaginei-me envolta naqueles lençóis, cabelos espalhados no teu regaço, cobrindo o teu corpo de beijos...
Os ecos de um poema ocorrem à minha mente…

"Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser sua,
Tenho outras de ser sozinha
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu "

Esta diversidade de pensamento que tão bem nos disse Cecília Meireles na sua "Lua Adversa"... ecoa em mim...
Tive-te no pensamento e ... esta vontade louca de me dar, de sentir o teu carinho, fome de te ter... de te possuir.
Hoje acordei com vontade de fazer amor.
Mas não passou de vontade...a minha vontade.