sábado, maio 28, 2005

Estrela da Tarde

Ragne Kristine Sigmond
Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!


(Poema de José Carlos Ary dos Santos)


Andei com este poema o dia todo na ideia...Cantei-o mentalmente, recordei a voz que o cantava também... partilho com todos para que a Estrela da Tarde nunca deixe de brilhar...

sábado, maio 21, 2005

Quem há-de abrir...

Imagem de Rosina Wachtmeister

Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?


Sempre que pode
foge prá rua,
cheira o passeio
e volta para trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.

Quando abro a porta corre para mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.
Repito a festa,
vagarosamente.
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas.
e rosna.
Rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.


Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?


António Gedeão

segunda-feira, maio 16, 2005

Para lá do horizonte...



Anoitece em mim
o desejo de te ter;
olho para lá do horizonte
e nada resta de um louco querer.

Saudades que não se têm,
sem se querer,
palpitando um desejo de liberdade,
sem sentir mágoa,
de um amor que passou.

Resta o amor à vida,
liberdade de me sentir querida,
porque, na secura das palavras,
morreu pouco a pouco,
um amor que foi puro,
um louco desejo inspirador,
de sorrisos do tamanho
do Mundo.

Hoje, para lá do horizonte,
existe um arco-íris
à minha espera,
uma promessa de quimera,
porque voltei a sorrir.



Pintura de Stephanie Pui-Mun Law

sábado, maio 14, 2005

Flores e... Poesia...

Imagem Google

Quando a ternura 
parece já do seu ofício fatigada, 

e o sono, a mais incerta barca, 
inda demora, 

quando azuis irrompem 
os teus olhos 

e procuram 
nos meus navegação segura, 

é que eu te falo das palavras 
desamparadas e desertas, 

pelo silêncio fascinadas. 

Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio" 


quinta-feira, maio 12, 2005

Na feira da vida...






Na feira da vida
estamos
sedentos de
momentos
que nos criam
ilusões
na mente
de mil cores
onde só entra
a natureza de um olhar
abrangedor...
uns vão pelos lados,
outros bem pelo
centro.

Vagueamos de encontro
ao sonho
ao som
ao paladar
que nos trás
recordações
de mil entendimentos.
O vento

arrasta para mim
cheiros
misturados
com movimentos
ondulantes
de vidas
passadas
em sentires
vagueando
num mundo
que se queria melhor
um mundo
em que a fantasia
era um sonho
solidário
sem fantasmas
errantes
mas uma mão cheia de
sentires
onde todos
caberíamos
mesmo que dentro
dum Fiat 600...

terça-feira, maio 10, 2005

Vamos dançar...


Imagem de Dionísio Leitão


Trazes no corpo o ritmo da melodia
No rosto um ar de poesia
Saia comprida, leve, colorida
Boca sedutora, húmida, garrida
Olhos meigos, negros, fascinantes
Beleza que passa e me cativa
Na eternidade de todos os instantes

Vem. Dá-me a tua mão
Vamos dançar
Num imenso abraço
Quero sentir em cada rima
A sensualidade do compasso
A emoção que nos aproxima
Teu corpo excitante
O olhar fulgurante
Desejo e paixão

Vem. Dá-me a tua mão
Leva-me a voar
Neste tango envolvente
Deixa-me sonhar
Com outros compassos
Preso nos teus braços
Eu quero dançar
Um tango diferente

Vem. Dá-me a tua mão
Vem ser a minha estrela
Ilumina meu chão
Para não me perder
Vamos dançar
Luzir a madrugada
E deixar este tango acontecer!...



A surpresa escondida nos comentários, mostra o valor de um verdadeiro bailarino de Tango, ou seja... de Palavras . Com a autorização do autor, o A. S., deixo aqui esta dança, para todos.

domingo, maio 08, 2005

Um Poema em forma de tango...

"Tango Flamenco" óleo de Andrei Protsouk


Dou-te a minha mão
Prendes os meus dedos nos teus
E nesse entrelaçar que nos liberta
Uma dança fazemos.

Sentes este tango que te percorre os dedos?
Entrego-te a minha boca
Nos teus lábios amordaças os meus
E nesse beijo que nos incendeia
Uma sombra abatemos.

Porque sinto o Sol a percorrer-me o corpo, sem medos?
A ti me dou em forma de palavras
Para que nos teus sentires, despertes os meus
E nessa paixão que nos enlaça
Um poema satisfazemos.

Um poema...

Este poema mágico que sentimos dentro de nós
As tuas palavras com que saboreias a minha alma.

sábado, maio 07, 2005

O dia morre

O dia morre… E a terra escurecendo
diz ao céu que vele o nosso dormir,
e nossos olhos docemente adormecem a sorrir.
As estrelas começam a luzir
com a luz hesitante e mal segura
que pronuncia a noite que há-de vir.
É a voz do silêncio a murmurar
em palavras de sonho à natureza
pelas vozes dos anjos a balbuciar.
E tudo dorme, tudo sonha docemente
Numa tranquilidade indefinida.
A alma, o corpo, sonham… calmamente.
Vem muito longe a luz da madrugada,
e as estrelas, como visões deslumbrantes,
são pontos distantes na noite sossegada.

domingo, maio 01, 2005

Em dia de Inauguração...passeie por aqui...




Imagem Google


Todas as pessoas são pássaros livres 
o segredo é não se deixar prender.
Voar rasteiro por sobre as estrelas 
é a melhor forma de se viver. 

Cantar para aquele que quer ouvir, 
contar para aquele que quer saber 
a sensação de estar liberto, 
a melhor forma de ter prazer. 

E quando encontra a pessoa amada 
não sabe o que há-de dizer 
rir, chorar e descobrir a custo 
a melhor forma de se querer. 

E se a tristeza lhe bate á porta 
muito há a fazer, 
limpe as lágrimas, abra o seu coração 
e deixe o amor vencer.