sexta-feira, dezembro 30, 2005

Elogio ao Amor...


Imagem daqui

Em final de um ano em que uma vez mais o Mundo girou à volta da falta de amor, de guerras, de fome, de violações, de ganância, de morte e acima de tudo a falta de tolerância e respeito que se tem pela Vida Humana, em final de ano, não vos falarei das desgraças e da morte que assolam o mundo, porque outros o farão melhor que eu.
Simplesmente, deixo-vos estas palavras, de tolerância humana… porque o Amor começa em nós e, naquilo que sabemos oferecer aos outros...

O Amor puro…
Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre.
Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não.

Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

(Texto de Miguel Esteves Cardoso)


FELIZ ANO NOVO

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Se tu me esqueces...(a todos os apaixonados...)


Quero que saibas
uma coisa.

Tu sabes como é:
se contemplo
a lua de cristal, os ramos rubros
do outono lento da minha janela,
se toco
ao pé do lume
a impalpável cinza
ou o corpo enrugado da lenha,
tudo a ti me conduz,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
em direcção às tuas ilhas que me esperam.

Ora bem,
se a pouco e pouco deixas de amar-me,
deixarei de amar-te a pouco e pouco.

Se de repente me esqueceres,
não me procures,
que já te haverei esquecido.

Se consideras longo e louco
o vento de bandeiras
que percorre a minha vida
e decidires
deixar-me à margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
nessa hora,
levantarei os braços
e as minhas raízes irão
procurar outra terra.

Mas se em cada dia,
em cada hora,
sentes que a mim estás destinada
com doçura implacável.
Se em cada dia em teus lábios
nasce uma flor que me procura,
ai, meu amor, ai, minha,
todo esse fogo em mim se renova,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor do teu amor se nutre, amada,
e enquanto viveres continuará nos teus braços
sem abandonar os meus.


(Poema de Pablo Neruda in "Os versos do Capitão")

terça-feira, dezembro 27, 2005

Porque...

Pintura de Vanessa Lima


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.



[Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen]

segunda-feira, dezembro 26, 2005

O espelho da alma...

[René Magritte]

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...


(Alberto Caeiro, "O Guardador de Rebanhos")



Num agradecimento sensibilizado a todos os que se dignam honrar-me com a vossa presença, deixo o meu carinhoso abraço e a convicção sincera de que sem vós, este Blog não tinha razão de existir…

...continuação de Festas Felizes…

domingo, dezembro 25, 2005

Amanheceu Natal...

Há um ano escrevia aqui assim..

Mais um Natal que passou. A azáfama terminou: as prendas, as decorações, os doces, enfim, tudo aquilo que tradicionalmente, em todas as casas acontece!

Mas não fechemos a janela ao Natal...


Porque Natal, deverá ser todos os dias, a começar com nossa família... no nosso emprego, com os nossos colegas, com os nossos vizinhos... a amizade, o respeito e a solidariedade, não deverão ter um só dia, mas sim todos os dias da nossa vida.


Olharmos para o mundo ao nosso redor e constatarmos que a beleza das luzes, o espírito que nos envolve nestes dias, não poderá, nem deverá morrer aqui!


Se todos os dias dermos um pouquinho do Natal que temos dentro de nós, a Vida será também, um pouco mais bela.
Que a janela nunca se feche... para que todos os dias sejam Natal!



É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?


David Mourão-Ferreira 
" Natal à Beira Rio" in Obra Poética

sábado, dezembro 24, 2005

Ladaínha dos Póstumos Natais


Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito


(Poema de David Mourão-Ferreira)

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Natal...




Natal és tu
Natal sou eu
Natal somos nós
E eles, e eles…
Natal é sempre que dás a mão
Natal é perdão
É Amor, alegria, sofrimento e dor...
Natal é sempre que ajudas alguém
aquele com um andar oscilante,
com uma lágrima constante,
por um caminho diferente…
Natal foi ontem
Natal é hoje
E, será amanhã…



Para Todos Feliz Natal

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Memórias minhas...

Pintura de Jack Vettriano 

Há muito tempo que não dançava.
Ou seja, há muito tempo que não ia a uma festa.
Aquela sensação de escolher o vestido adequado.
Prender o cabelo (que saudade tenho de me ver de cabelo apanhado!)
De sentir as mãos masculinas pressionando-me as costas e... dançar.
Dançar é um dos movimentos maravilhosos que existe.
Dançar e fazer amor. Há movimentos que se lhes comparem?
Eu acho que não.
Não aquelas danças modernas aos pulos, distantes dois metros um do outro.
Não.
Aquela dança que nos faz rodopiar, enlaçadas em braços fortes que nos seguram firmes, mas suavemente.
Esta noite senti o movimento do meu corpo como não sentia há muito.
Nunca se esquece o movimento suave da dança.
E eu não esqueci.
Senti a leveza dos pés voando ao som da música.
Senti a suavidade do vestido valsando a cada movimento do meu corpo.
Senti a música em todos os poros do meu corpo, acariciando-me, trazendo ao meu espírito a sensação da minha volúpia e, naquele momento, cresceu em mim o orgulho de ser mulher.


Porque nós somos:

Mulheres...


Nós somos…


mar
céu
terra


Nós somos…


a mão que dá abrigo,
coração
ilusão.


Nós somos…


pronúncia
de amor,
paixão
mas, também...
ambição!


Nós somos…


a espada
o leite
o corpo


o verde dos prados
onde passeamos
nossos sonhos
nossas vidas
nossos amores...



Nós somos…


pássaros

surgindo em voo rasante
entre montes e vales

sobreviventes...

na verdade,
na mentira
na traição
no despique,
de quem não tem
ilusão.


Nós somos…


Mulheres
Arte
Palavras


Musas de inspiração


Esta noite fui dançar... e... sonhar!

domingo, dezembro 11, 2005

"Gotas de Luz"


Percorri o caminho serenamente. Há muito que assim não me sentia.
Sabia que para lá do arvoredo, nada existia. Nada, a não ser eu própria. E os meus sonhos. Há dias, alguém me disse:
“…Mas que esperas tu? Um dia os nossos sonhos findam, e não nos resta mais nada, a não ser o caminho da espera… do fim.”
Recuso-me a aceitar que a minha vida e os meus sonhos terminaram, só porque a minha condição de Mulher se cumpriu.
Sorrio para mim própria, recordando feliz, a tarde de ontem. Revejo os sorrisos abertos, as palavras quentes, a comoção…
A voz do cantor, ainda soa nos meus ouvidos, enquanto o som da viola enche o meu pensamento.
A força dos poemas lidos em voz clara, mas comovida, falam-me de esperança, de sonhos, de saudade…
E recordo, o início de um poema que li numa página aberta ao acaso:
*“É longo o meu caminho
Uma poesia incompleta
E nem sempre sigo
A mesma estrada
Esta viagem que faço
Imaginada
Se às vezes me alegra,
Outras me inquieta…”
E alegro-me porque no meu caminho, cruzaram-se pessoas que mesmo preenchendo-o de um modo virtual, já fazem parte de um mundo que, para mim é importante. A leitura da sua escrita, das suas escolhas, é uma parte fundamental dos meus momentos de solidão.
Revejo como num filme, os momentos mais marcantes da efeméride de ontem. E a alegria que senti ao conhecer pessoas, que deixaram de ser palavras, para terem um nome, um olhar sorridente…
A Manuela Vaz do
Passo a Passo foi a primeira a dar-se a conhecer. Lindo sorriso rasgado, começou por se desculpar … (a malandra não posta nada desde Junho e as “ Teias que as águas tecem” já têem mesmo teias…) mas eu desculpo-a, pelas belas fotografias que tem.
A
Pink, o Luis Cunha , o António do “Eu sou louco!” (será?) estiveram também presentes.
Está de parabéns o
Frog, pelo lançamento do seu Livro de Poemas “Gotas de Luz”, bem como a autora da sua belíssima capa a Raquel Vasconcelos e nós todos que assistimos a um momento lindo de Poesia, que não iremos decerto esquecer.

Sonhadora, percorri o resto do caminho, porque vale a pena ter momentos como este…
*excerto do poema “É longo o meu caminho” in pág. 24, de Gotas de Luz, de Albino Santos Oliveira (Frog)

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Os cinco sentidos...


São belas – bem o sei, essas estrelas,
Mil cores – divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho, amor, olhos para elas,
Em toda a natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti – a ti!

Divina – ai! sim, será a voz que afina
Saudosa – na ramagem densa, umbrosa.
Será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti – a ti!

Respira – n' aura que entre as flores gira,
Celeste – incenso de perfume agreste.
Sei... não sinto, minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti – de ti!

Formosos – são os pomos saborosos,
É um mimo – de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede... sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão... mas é de beijos,
É só de ti – de ti!

Macia – deve a relva luzidia
Do leito – ser por certo em que me deito.
Mas quem, ao pé de d, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti – em ti!

A ti! ai, a ti só os meus sentidos,
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E quando venha a morte,
Será morrer por ti.


(Poema de Almeida Garrett)

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Eu levo o bolo...




Porque hoje é um dia especial, venham comigo festejar o aniversário do
Quim

E cantarmos juntos…


Estes Parabéns são extensivos à Carmem L Vilanova
pelo seu Aniversário…

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Silêncio...





Silêncio...
Do silêncio faço um grito
E o corpo todo me dói!
Deixai-me chorar um pouco!
De sombra a sombra
Há um Céu...tão recolhido...
De sombra a sombra
Já lhe perdi o sentido...
Ao Céu!
Aqui me falta a Luz!
Aqui me falta uma estrela!
Chora-se mais
Quando se vive atrás dela.
E eu...
A quem o Céu esqueceu
Sou a que o mundo perdeu.
Só choro agora...
Que, quem morre, já não chora!

Solidão

Que nem mesmo essa é inteira...
Há sempre uma companheira
Uma profunda amargura!
Ai solidão!
Quem fora escorpião!
Ai solidão...
E se mordera a cabeça!
Adeus...
Já fui para além da vida!
Do que já fui tenho sede!
Sou sombra triste
Encostada a uma parede!
Adeus...
Vida, que tanto duras!
Vem, morte que tanto tardas!
Ai...como dói
A solidão quase loucura!

( "O grito" Poema de Amália Rodrigues)

domingo, dezembro 04, 2005

Adivinhem o que é...

A surpresa que a Sulista me ofereceu no seu Blog devolveu-me o sorriso e a boa disposição.
Deixo-vos aqui uma forma diferente de fazer arte com as letras, bem expressa em todas as outras que encontrarão
aqui


Obrigada, Sulista

Porque me apetece gritar...



Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.


(Jorge de Sena in "No País dos Sacanas"-1973)




Arte: Salvador Dali

quarta-feira, novembro 30, 2005

A minha alma em tons de azul


Soltar os sentimentos, é uma forma
de nos darmos a conhecer,
de extravasar ideias,
comungar pensamentos,
diluir a alma.

Não fujas da realidade,
do sol,
da vida,
da palavra oferecida.

Vem...
traz a beleza que encerras
dentro do teu pensamento,
dentro do teu coração.

Vem...
dá-me a tua mão,
e recebe de mim
o coração,
alegria,
paz,
verdade
e paixão.

Entrega-te
serenamente,
comunga
teus pensamentos,
traz magia
onde só existe
solidão.

E,
recebe na palma da tua mão,
um coração aberto à ilusão.

Vem...

(Memórias minhas...)

sábado, novembro 26, 2005

Um Sonho...


Na messe, que enlourece, estremece a quermesse...
O sol, o celestial girassol, esmorece...
E as cantilenas de serenos sons amenos
Fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves.

Flor! enquanto na messe estremece a quermesse
E o sol, o celestial girassol esmorece,
Deixemos estes sons tão serenos e amenos,
Fujamos, Flor! à flor destes floridos fenos...

Soam vesperais as Vésperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Como aqui se está bem! Além freme a quermesse...
– Não sentes um gemer dolente que esmorece?
São os amantes delirantes que em amenos
Beijos se beijam, Flor! à flor dos frescos fenos...


(Excerto de "Um Sonho", Poema de Eugénio de Castro)

sexta-feira, novembro 25, 2005

Memórias de mim...


Wassily Kandinsky

A música é algo que me completa.

Há temas musicais que lidam comigo, muito melhor que certas pessoas e, me devolvem muito daquilo que o meu corpo e espírito, necessitam.

Vem isto a propósito, uma cena que presenciei há dias, junto à Igreja do Carmo, na minha já habitual passagem diária.

Um casal de jovens encontrava-se sentado nos degraus da Igreja; mochilas pousadas no chão, estojo de um instrumento musical pousado ao lado.

Chamou-me a atenção pela forma curiosa que olhavam cada um que passava.

Continuei o meu caminho mas ao chegar à curva um som fez-me parar.

Por instantes, detive-me a ouvir de que local viria o som, até que compreendi que vinha do jovem casal, que já não visualizava, na curva da Igreja.

Voltei atrás e fiquei ali. Não conhecia a música, nem me lembro de a ter ouvido alguma vez, mas a sua harmonia, percorreu todas as células do meu corpo.

E ficámos ali.

Ele a tocar. Ela a olhá-lo, carinhosamente.

E eu encostada à parede a ouvi-lo tocar...

Não sei quanto tempo passou mas a música chegava a comover.

Fechei os olhos e deixei-me estar ali esquecida de tudo.

Quando a música parou, olhei em volta: dois estudantes de arte, sentados no chão, desenhavam o jovem tocador; a jovem sorria timidamente; retribui-lhe o sorriso e segui o meu caminho.

Há momentos mágicos que nunca poderão ser transcritos completamente.

Naquele dia vivi um desses momentos.


Imagem Google
(memórias minhas...)

segunda-feira, novembro 21, 2005

Passeando por aí...

Há dias, como o de hoje, cinzento e triste, em que me apetece “viajar”, por este mundo virtual, tendo por companhia somente a música tocando baixinho…e a leitura.
De passagem por uma “casa” onde as imagens e os textos, são um alimento da alma, descobri uma preciosidade…
Deixo-a aqui, para todos vós…

Sol do meio dia... in  Annie Hall 


O dinheiro é tão bonito,
Tão bonito, o maganão!
Tem tanta graça, o maldito,
Tem tanto chiste, o ladrão!
O falar, fala de um modo...
Todo ele, aquele todo...
E elas acham-no tão guapo!
Velhinha ou moça que veja,
Por mais esquiva que seja,
Tlim!
Papo.

E a cegueira da justiça
Como ele a tira num ai!
Sem lhe tocar com a pinça;
É só dizer-lhe: «Aí vai...»
Operação melindrosa,
Que não é lá qualquer coisa;
Catarata, tome conta!
Pois não faz mais do que isto,
Diz-me um juiz que o tem visto:
Tlim!
Pronta.

Nessas espécies de exames
Que a gente faz em rapaz,
São milagres aos enxames
O que aquele demo faz!
Sem saber nem patavina
De gramática latina,
Quer-se um rapaz dali fora?
Vai ele com tais falinhas,
Tais gaifonas, tais coisinhas...
Tlim!
Ora...

Aquela fisionomia
É lábia que o demo tem!
Mas numa secretaria
Aí é que é vê-lo bem!
Quando ele de grande gala,
Entra o ministro na sala,
Aproveita a ocasião:
«Conhece este amigo antigo?»
- Oh, meu tão antigo amigo!
(Tlim!)
Pois não!

(Poema "O Dinheiro" de João de Deus)
Imagem e Poema recolhidos no Blog Outsider da
Annie Hall

sexta-feira, novembro 18, 2005

Aproveitar o tempo...


Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha...
O trabalho honesto e superior...
O trabalho à Virgílio, à Milton...
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos — nem mais nem menos —
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)...
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil..
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos —
Imagens da vida, imagens das vidas, imagens da Vida.

Verbalismo...
Sim, verbalismo...
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça...
Não ter um acto indefinido nem factício...
Não ter um movimento desconforme com propósitos...
Boas maneiras da alma...
Elegância de persistir...
Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

(Passageira que viajavas tantas vezes no mesmo compartimento comigo
No comboio suburbano,
Chegaste a interessar-te por mim?
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter?
Qual foi a vida que houve nisto? Que foi isto a vida?)

Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,

O regato casual das chuvas que vão acabando,
O vinco deixado na estrada pelas rochas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.


"Apostila" de Álvaro de Campos
in
Todos os Poemas de Fernando Pessoa,
a págs 383 a 384

domingo, novembro 13, 2005

Memória para o futuro... ou a ternura do envelhecimento...

Óleo de Victoria Sypniak

Sinto a porta abrir-se devagar.
A música toca baixinho, como sempre. Jamais prescindi da música na minha vida.
Passos dirigem-se à janela. Correm os reposteiros deixando a claridade invadir o aposento.
- Tornaste-te a deitar tarde. És sempre a mesma…Sorrio. Serei sempre igual a mim própria.
Espreguiço-me calmamente. O sol ilumina-nos com aquela claridade de uma manhã radiosa de Primavera.
Sinto as mãos no meu cabelo, devagarinho, acariciando-me.
Fecho os olhos… Deixo o sol bater-me no rosto e recordo outras manhãs como esta.
As mãos continuam a acarinhar-me…
Sempre gostei destes carinhos. Transbordo de felicidade nestes momentos.
Recordo, como num filme, toda a minha vida. Sempre fui optimista. Sempre soube reter um pouco de alegria mesmo nos maus momentos.
As mãos ajudam-me a levantar e, naquele momento, sinto o abraço carinhoso.
Uma alegria sem fim percorre o meu corpo. Um sentimento calmo, mas intenso, invade-me.
Sou eu novamente. Na plenitude da minha juventude, sentindo aquele abraço.
Mil imagens passam velozes pela minha mente. Sei que sou feliz porque amei tudo na minha vida, intensamente.
Não me importo que tenha envelhecido. Não importam as rugas que sulcam o meu rosto. Não importa que meus olhos mal possam ver.
Porque consigo ver para além daquilo que a visão nos dá. Vejo o amor que dei e recebi.
Vejo toda uma vida de emoções, contradições, felicidade e infelicidade.
Mas, acima de tudo, vejo as pessoas que me rodeiam e, sinto neste abraço, todo o amor que espalhei.
- Anda, preguiçosa! Passaste a noite a escrever… Nunca hei-de perceber se o que escreves é verdade ou ficção.Solto uma gargalhada, feliz.
O sol continua a brilhar. Recordo todas aquelas pessoas que passaram por mim e me deixaram algo delas.
Sou a vivência de todas. Com todas sofri. A todas amei. Sinto na minha alma todas as suas dores, incorporei os seus ideais, as suas vivências e aprendi com elas a viver melhor.
Sou o resultado de tudo e de todas.
Vivi a solidão dos que me rodearam, as dores dos que me amaram, enxuguei as lágrimas de quem chorava, e sobrevivi.
Tenho oitenta e cinco anos, cabelos brancos de neve, rios de rugas no meu rosto, mas um coração que ainda bate por todos.


- Dá-me a mão, Avó… vamos ver o mar…


(Dedicado à minha Avó…)

terça-feira, novembro 08, 2005

Aquilo que a gente lembra


Aquilo que a gente lembra
Sem o querer lembrar,
E inerte se desmembra
Como um fumo no ar,
É a música que a alma tem,
É o perfume que vem,
Vago, inútil, trazido
Por uma brisa de agrado,
Do fundo do que é esquecido,
Dos jardins do passado

Aquilo que a gente sonha
Sem saber de sonhar,
Aquela boca risonha
Que nunca nos quis beijar,
Aquela vaga ironia
Que uns olhos tiveram um dia
Para a nossa emoção –
Tudo isso nos dá o agrado,
Flores que flores são
Nos jardins do passado

Não sei o que fiz da vida,
Nem o quero saber.
Se a tenho por perdida,
Sei eu o que é perder?
Mas tudo é música se há
Alma onde a alma está,
E há um vago, suave, sono,
Um sonho morno de agrado,
Quando regresso, dono,
Aos jardins do passado.


(Poema de Fernando Pessoa)


Imagem daqui

sexta-feira, novembro 04, 2005

Irrompe...

Imagem Photo Galleries

Irrompe do teu corpo iluminado
toda a luz de que o mundo sente falta
Não a que mais reluz. Só a mais alta
Só a que nos faz ver o outro lado

do bosque onde o Futuro e o Passado
defrontam o Presente que os assalta
num combate indeciso a que nem falta
o sabor de saber-se ilimitado

Irrompe assim a luz entre os extremos
da mesma renovada madrugada
E vibra a cada instante um novo grito

Com essa luz do grito é que nós vemos
que Passado e Futuro não são nada
apenas o presente é infinito


(Poema de David Mourão Ferreira)

quarta-feira, novembro 02, 2005

Sensibilidades...

No mundo em brutal aceleração em que vivemos hoje, escasseia o tempo para pararmos um pouco para reflectir em situações que nos rodeiam, de forma mais ou menos próxima / mais ou menos afastada, relacionadas com pessoas carenciadas, sem voz que permita dar expressão às suas necessidades mais básicas.

Por este motivo, procurando lutar contra o "cultivo da insensibilidade" que de alguma forma se vai instalando, um conjunto de "bloggers" decidiu reunir-se num projecto comum ("Proximizade"), visando potenciar as virtudes da blogosfera, no sentido de "aproximar uma mão amiga" (que será a de todos os que decidam de alguma forma apoiar / colaborar com este projecto) dessas pessoas carenciadas.

Como primeiro gesto prático e concreto, o "Proximizade" começou por "apadrinhar" uma criança carenciada em Moçambique, a Berta, de 3 anos.


                                                    
A colaboração de todos os bloggers será decisiva na divulgação do blogue criado para o efeito, no qual serão sucessivamente apresentadas organizações ou instituições de apoio a causas solidárias: Proximizade



Proximidade e mão amiga.

"Proximizade", feita do entusiasmo voluntário de quem quer ajudar a combater a apatia, a dispersão e a insensibilidade que nos ameaça se continuarmos indiferentes ao que se sabe e ao que se vê.Aqui, já está a acontecer.
E se...

Quem aqui vem decidisse fazer esta divulgação no seu blog?

terça-feira, novembro 01, 2005

"Até a ti, na espera de nós"...


há mulheres na nossa vida como sítios
ancoradouros que estão lá
e nós sabemos
como casas, azimutes, orientes
como castelos distantes que indicassem
os caminhos que nunca conhecemos
ou quando
cansados da refrega
precisamos de mudar a cor do ar
vestir a vida
partir, fazer asneiras, perder noites...

- nem eu próprio sei como dizer-vos...

talvez cumprir um ritual de chegar
e de sentir
um momento sem passado nem presente
com alguém que confiamos e estimamos
com alguém que confirmamos e

 entendemos como a própria estrada de existir
 como quem nunca sequer estivesse ausente

não serão nunca
nem esposas nem amantes
serão amigas no peito
o que é diferente

a espaços são carinho e são lição ensinam a ternura
noutra dimensão
talvez grande e bastante, ou talvez não... (...)
Mas deixem-me acabar:
amiga assim
tanto como sei dizer
também é fogo
também nos é verdade

e também arde


(Excerto Poema de Pedro Barroso in "Das Mulheres e do Mundo" )
(Tema musical de Pedro Barroso: Em nome do feitiço acontecido in "Crónicas da Violentíssima Ternura")



 Imagem daqui


domingo, outubro 30, 2005

O Beijo...


Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escaracéu.
Ainda palpitante voa um beijo.

Donde teria vindo! (não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo?

É uma ave estranha colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.

E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...



Alexandre O'Neill in, O Beijo


Um beijo, num bom domingo para todos...


(Pintura de The Kiss,  Gustav Klimt)

quinta-feira, outubro 27, 2005

Momentos...

Imagem de Eveline Weil

Ao abrir a gaveta, (re) descobri aquelas peças. Lembro-me que as comprei para te deslumbrar... Toquei em cada peça com o carinho com que me tocavas.
Espalhei-as em cima da cama relembrando cada pormenor daquele dia.
Sorrio recordando a expressão do teu rosto ao tocares nas ligas…
– Como se tira isto?
– Não sei. Descobre tu!
E tu foste descobrindo, em cada beijo que me deixavas no corpo, em cada toque das tuas mãos mágicas.
Retiraste com cuidado a primeira liga, enquanto a meia descia como cetim na minha perna macia, arrastando o teu beijo perna acima.
Um frémito percorre o meu corpo. A suavidade dos teus lábios põe-me louca. De repente, enlaças-me completamente e olhas-me nos olhos.
- Amo-te como nunca amei outra mulher.E eu acreditei. Acreditava sempre.
Entreguei-me a ti, esquecendo tudo, vivendo aquele momento.
Um latido, sobressaltou-nos…
Esquecemo-nos completamente do pequeno cachorro que, dentro do sapato, roía os atacadores.
- Deixa-o estar. Ele está com ciúmes.Rimo-nos.
Voltámos a esquecer o cachorro.
Hoje a tua cama é outra...
Guardo lentamente cada peça....

O cachorro cresceu.
Já não cabe dentro do sapato...

(Memórias minhas)

domingo, outubro 23, 2005

Passeio...

Imagem Jacqueline Bricard daqui

Lembras-te, meu amor,
Das tardes outonais,
Em que íamos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
Alegre e dos casais,
Onde só Deus pudesse
Ouvir-nos conversar?
Tu levavas, na mão,
Um lírio enamorado,
E davas-me o teu braço;
E eu triste, meditava
Na vida, em Deus, em ti…
E, além, o sol doirado
Morria, conhecendo
A noite que deixava.
Harmonias astrais
Beijavam teus ouvidos;
Um crepúsculo terno
E doce diluía,
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos…
Erravam, pelo Azul,
Canções do fim do dia.
Canções que, de tão longe,
O vento vagabundo
Trazia, na memória…


(Excerto...

 Elegia do Amor, in Vida Etérea
Teixeira de Pascoaes)

quarta-feira, outubro 19, 2005

Sinto a tua falta...

Imagem daqui

A primeira vez que o vi o prédio estava em fase de acabamento. Mas ele já lá morava porque tinham tido necessidade urgente de se mudar.


Gostei de imediato do seu olhar franco e directo. Não tinha receio de olhar os meus olhos e cumprimentava-me com uma alegria que chegava a comover-me.

O tempo que decorreu entre os acabamentos finais da minha habitação e a mudança aproximou-nos.

Ele vinha ligeiro ao meu encontro e eu parava a dar-lhe palavras de afecto.


Acho que a nossa relação começou de imediato aí.

Dia a dia íamos cimentando a nossa amizade. Eu sentia em cada demorado olhar o carinho que transbordava dele. A vida já o tinha maltratado muito e, notava-se, que ele só queria que lhe prestasse atenção.

Por vezes, nos meus passeios a pé, ele acompanhava-me. Ouvia com atenção o que eu lhe dizia, atento aos meus movimentos.

Por isso, não foi difícil para mim, quando me pediram para tomar conta dele. Ele andava adoentado e a proprietária do apartamento tinha arranjado um novo emprego pelo que não podia dar-lhe a atenção a que estava habituado.

Todos os dias, à mesma hora, passeávamos. Depois do jantar, já ele me esperava ansioso. Notava-se.

Foi assim durante algum tempo e, cada vez mais, o nosso afecto era visível.


Os moradores sorriam quando nos viam passar. Nunca fui de grandes conversas com a vizinhança, por isso a nossa amizade atraía sorrisinhos de quem não compreendia o que se estava a passar.

Contingências da minha vida pessoal levaram a que nos afastássemos durante algum tempo e, soube mais tarde, a tristeza dele durante esse tempo.

Quando nos encontrámos novamente, ele correu para mim como louco e saltou para o meu colo. “Lambuzou” o meu rosto de beijos que, diga-se a verdade, me encheu de alegria.


Recordei este episódio hoje, ao abrir de manhã a janela, e o meu coração disparar ao aperceber-me do vulto que estava no estacionamento.

Nem esperei pelo elevador. Galguei os três andares e corri para ele.

Mas a alegria deu lugar à decepção. O olhar que eu esperava encontrar não era o dele.
Senti uma lágrima correr-me pelo rosto e, metendo as mãos nos bolsos, comecei a percorrer o caminho que tantas vezes partilhámos.

Recordei aquela vez em que ele se atirou do primeiro andar e quase ficou cego.
Tratei dele com tanto carinho: levantava-me bem cedo para lhe colocar as gotas nos olhos e o antibiótico sempre a horas certas. Grande foi a minha alegria quando, finalmente, o deram como curado!

E daquela vez em que foi atropelado e o seu choro me fez correr feita tola até à Clínica subindo as escadas com ele ao colo? Como ele pesava!

Mais tarde, quando tudo parecia estar sanado, outra aflição. Que seria aquele papo enorme que ele tinha quase do tamanho de uma maçã? Um tumor?!

Não, felizmente! Como poderia imaginar que ele pudesse sofrer da próstata?

- É da idade. Acontece por vezes. A força da pancada no atropelamento provocou-lhe uma inflamação.Ele tudo consentia, com aquele olhar meigo que me enchia o coração.

Assim se passaram meses… cinco, seis? Nunca os contei. Mas era feliz por ele estar feliz.

Até que um dia não o vi na porta da entrada.

A proprietária do apartamento, regressada entretanto, resolvera dar-lhe outro encaminhamento porque, segundo ela, não podia ter aquela responsabilidade.
Arranjara-lhe uma quinta... iria ficar bem…

Olhei-a nos olhos. Ela desviou o olhar. Percebi que estava a mentir.

A partir d
aquele dia, olho com tristeza para o parque de estacionamento, esperando o seu regresso.


Sinto a tua falta, Raposo… estejas onde estiveres, permanecerás vivo no meu coração.

segunda-feira, outubro 17, 2005

Do meu livro de Memórias...


Um impulso fez-me dar uma guinada no volante e virar para a rua estreita, enquanto me buzinam furiosamente (mas que coisa, eu dei o pisca...tento "desculpar-me" da minha asneira).

Vorazes são os meus sentimentos.

Parecia que tudo estava na mesma mas, olho atentamente: Pequenas vivendas em banda, substituíam as casitas baixas que quase ocupavam a rua...

O velho bar de madeira, tinha sido modernizado... amplas vidraças banhadas pelo sol, enquanto as ondas tão perto, diluem-se na areia fina.

Que impulso me tinha levado ali? Olho o mar enquanto caminho devagar, pela passadeira de madeira... Tanta recordação...

Quanto tempo estive assim? Não sei dizer.

Repentinamente, sinto uma presença atrás de mim. Mesmo sem olhar, pressenti... Será possível? Estarei a sonhar? Ao fim destes anos?

Aquele olhar matreiro... Não evitei um sorriso.

-Estás na mesma - diz numa voz rouca (seria da emoção?).

- Continuas com o mesmo sorriso lindo. Não mudaste nada. Estás linda.

Abano a cabeça, em ar de discordar:

-E tu, com o mesmo charme de sempre - respondo baixinho

-Sim... as mulheres sempre me acharam charmoso- responde com aquele sorriso matreiro de sempre.

- Convencido, estás mais velho... ( ele sabia, como me deixava furiosa, quando dizia aquilo)

O teu perfume é o mesmo, sinto o cheiro. Agrada-me - diz maliciosamente.

Olho aqueles cabelos, cujo branco das têmporas, se tinham espalhado, dando-lhe uma cor de prata
que ainda lhe acentuava mais o charme.

Sinto o sangue ferver...

Meu Deus, como amo este homem - penso - seria possível? O meu amor por ele estava intacto ao fim de tantos anos.

Mantive-me serena, com aquela serenidade que o tempo de espera, a ausência prolongada, a falta de notícias, provoca em nós...

Ao longe ouço música, que cada vez mais se aproxima.

Estamos em frente um ao outro e sinto a sua mão no meu cabelo...a pressão do seu corpo.


Até que ouço claramente uma voz feminina dizer: -
"a esta hora João? Mas são duas da manhã. E uma voz masculina a responder: Mas... para tomar café Nicola..."

De um salto, levanto a cabeça e espanto dos espantos: Os olhos verdes do meu gato, estão quase encostados a mim, enquanto no rádio o locutor da RFM diz que faltam não sei quantos minuto para as seis horas da manhã.

Sacudo-o repentinamente. A mania dele cheirar o meu cabelo, enquanto durmo... O locutor continuava a falar e cheia de fúria desligo o despertador.

Tão real tinha sido o meu sonho. Ainda revia o seu olhar. Ainda sentia o meu corpo a tremer.

Bem... o melhor é não pensar. Amanhã não deixo entrar o "raio" do gato no meu quarto.

O passado não volta. Só mesmo em sonhos...





(Memórias minhas e dedicadas ao meu gato Farrusco...)

Imagem Google

sábado, outubro 15, 2005

Retrato

Imagem daqui


Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?


Poema de Cecília Meireles in "Retrato"

terça-feira, outubro 11, 2005

Posto que...

Pintura de Irina Kupyrova


Evoca a gente, lamentando
o passado que morreu,
e fica triste, cismando,
sem saber como nem quando
a ventura se perdeu.

E o coração padece
num suspiro sem par;
toda a tristeza se esquece
todo o mal se desvanece,
como que nasce o luar.

Nas almas suavemente
uma alegria perpassa,
a dor está ausente,
nem sempre o mal é patente,
foi para longe a desgraça.


(Memórias Minhas - 08.01.2004)

quarta-feira, outubro 05, 2005

No sítio onde estás... recebe um girassol, nesta manhã...



Aí, no local onde estás, invisível aos meus olhos, costumas falar-me de ti... sinto as tuas palavras, os teus temores, a tua "realidade" e descubro uma alma pronta a transmitir toda a doçura que a invade.

A única realidade da vida é a sensação. A única realidade da amizade é a consciência da sensação que a mesma produz: de paz, de serenidade e de força de viver... e a capacidade de a transmitir aos outros...


A luta pela vida cria metamorfoses em nós capazes de sentirmos, cada vez mais, quão belo é o mundo que nos rodeia e a capacidade de amar que todos temos.


Tu és uma dessas pessoas. A tua capacidade de transmitires carinho e amizade, é como um campo de flores, que perfumam o nosso caminho, mesmo que algumas tragam dores, na ponta dos seus espinhos...


Tu transformas a dor em vida, num viver permanente, porque viver por viver não te basta, mesmo que sintas a indiferença dos outros, porque a indiferença é mal que não nos pode afastar de todo o amor que temos para dar. E isso é uma lição. Uma lição que eu retiro todos os dias, e que me dá força para ultrapassar momentos menos bons em que o desânimo toma conta de mim.


Porque o sofrer não são só as lágrimas que caiem do nosso rosto, são também a dor que as esconde e dentro da alma as sentimos. Liberta a alma da dor e vive o teu momento. Transmite aquilo que sentes no teu coração, um viver com sentires, com carinho, com amargura e verdades...


A força do sentir está em ti. Mas nem tudo são rosas, nem tudo são espinhos... talvez girassóis...

No Sol desta manhã, deixo a energia do girassol para ti...a minha amizade e o meu sorriso também...


...a todos vós...



*Ao encontro das minhas memórias - (17.01.2004*


Imagem Google

segunda-feira, outubro 03, 2005

A todos e a cada um dos meus amigos

Imagem de Persida Silva
Por um por todos por nenhum
faço o meu canto canto a minha mágoa
num desencanto aberto pelo gume
deste pranto tão limpo como a água.

Por nenhum por todos ou por um
eu dou o meu poema o meu tecido
de palavras gravadas com o lume
do medo que na voz trago vencido.

Por nenhum por um mesmo por todos
sou a bala e o vinho sou o mesmo
que pisa as uvas os versos e o lodo
num chão onde a coragem nasce a esmo.


Poema de Joaquim Pessoa


Ainda não me sinto com forças, na fragilidade do meu ser, para aqui estar.
Estou grata pelos vossos afectos e, pelas vossas palavras.
Elas são, realmente, o incentivo que me trazem aqui novamente...

terça-feira, setembro 27, 2005

Apenas a luz da tarde


Imagem daqui

Apenas a luz da tarde
que o prado faz rosa e ouro,
só o poente infinito
que me deslumbra estes olhos,
a solidão junto ao mar
e o amor entre os choupos.

Irei à fonte em ruínas,
tingida de um sol histórico,
pela relvosa vereda
de acácias embriagadoras;
lá sonharei uma vida
livre, clara, melodiosa.


Oh bem-estar! Oh ventura!
O verdelhão melancólico
suavizará a elegia
do brando pinhal umbroso;
serão mais fundos os zéfiros,
será mais profundo o sonho...

Beijo triste! Mágoa alegra!
Nada no mundo de todos!
Uma divina esperança
num recordar alegórico!
Apenas a onda e o sol,
a rosa e o vento, só!

Não voltarei mais... Será
uma viagem misteriosa,
levado, com indolência,
de um encantamento a outro,
pelas sendas mais ocultas
que já não têm retorno.



Poema de Juan Ramón Jímenez, 
1881- 1958


sábado, setembro 24, 2005

Bom fim de semana...


Imagem daqui


"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...”

"Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!"



"Excerto: "

Cântico Negro" de José Régio

terça-feira, setembro 20, 2005

Entardecer

Óleo sobre tela de Marcos Milewski


Amanhecem em mim
todos os dias quentes
de um tempo que já vivi.

Em que virgem me fiz mulher,
mãe-menina de mil solidões,
embalada no sonho
que é a vida aos turbilhões.

Amanhecem em ti
gaivotas no olhar,
plenas de liberdade
voando em dias serenos
de marés azuis e corais floridos,
de águas profundas,
longe das multidões.

Entardecem em nós
momentos fulgurantes
em esvoaçares constantes
de ave roçando o azul
do imenso infinito,
onde a eterna melodia
tocará até ao nascer do dia.

E, da janela da vida,
o sol quente, suavemente,
num mar calmo de ilusões
entardeceu.

sábado, setembro 17, 2005

Chain

















Esta é a primeira corrente que apresento neste Blog.
Habitualmente, o Menina Marota I era o Ponto de Encontro para estes momentos, mas devido aos problemas técnicos lá existentes, aqui estou a cumprir o que me foi pedido pelo Romero e Dizzie
Idiossincrasias - as 5 menos:
A falsidade e a hipocrisia nas pessoas
Quem vive de aparências
Que não me olhem nos olhos, quando falam comigo
Não me sentir bem num lugar
Pessoas frias

Idiossincrasias - as 5 mais:
Os meus Filhos
Os meus animais
Respeito
Amizade
Solidariedade
Alegria


5 álbuns (só 5? – vai ser difícil)
Carl Orff - (Carmina Burana )
Tchaikovsky – (Romeo and Juliet)
Joaquín Rodrigo e Paco de Lucía – (Concierto de Aranjuez)
Sarah Brightman – (The andrew lloyd webber collection –Timeless – Live From Las Vegas – Éden)
Pink Floyd - (The Wall)
Spain – (She haunts my dreams)
Cassandra Wilson – (New Moon Doughter)
Vangelis – Portraits – (Mythodea – Odyssey)
Era - (1 e 2)
Lena dÁgua - Ou isto ou aquilo (álbum para as crianças)

(tenho que ficar por aqui…)
5 Canções


Sarah McLachlan - Angel
Jane Birkin e Serge Gainsbourg - Je t'aime, moi non plus
Andrea Bocelli e Dulce Pontes - O Mare e Tu
Sarah Brightman e José Cura - There For Me
Sarah Brightman - En Aranjuez com tu amor
Leonard Cohen – Dance me to the end of Love

(e, fico por aqui… )


5 albuns en lo iPOD (Se bem entendi…o género de música…)
Acima de tudo clássicas, alguma francesa, algumas latinas
E todas as que indiquei acima…

5 mp3 (o que eu coloco nos Blogs…é só onde tenho mp3)

Carmina Burana – Fortuna_Imperatrix
Bette Midler - Wind beneath my wings
Antony & the Johnsons-Hope There's Someone
Jane Birkin e Serge Gainsbourg - Je t'aime, moi non plus
Concerto de Aranjuez - de Joaquin Rodrigo

Whitney Houston - I will always love you
Annie Lennox - A White Shade of Pale
Queen – Love of my life

Yann Thiersen - D'Amélie

(é melhor ficar por aqui…)


A quem passo esta Corrente: (espero que aceitem…)

Amita – Branco e Preto
José Gomes – Chuviscos
Friedrich - A Babushka
Elise - It’s a perfect day
Sulista
Um bom fim de semana para todos